Seder Nashim · Massechet Nedarim · Perek Chet · Mishná 4 de 7

O verão, os cestos de figos e o lugar do voto

עַד הַקַּיִץ, עַד שֶׁיְּהֵא הַקַּיִץ, עַד שֶׁיַּתְחִילוּ הָעָם לְהַכְנִיס בַּכַּלְכַּלּוֹת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná detalha, com exemplos concretos e vívidos da vida agrícola da terra de Israel, como a regra geral da mishná anterior se aplica ao verão e à colheita de trigo — e fecha com o princípio de que tudo depende do lugar exato onde o voto foi pronunciado.

"Até o verão", "até que seja verão" — até que o povo comece a recolher nos cestos. "Até que passe o verão" — até que dobrem as esteiras. "Até a colheita" — até que o povo comece a colher, colheita de trigo, mas não colheita de cevada. Tudo segue o lugar do voto: se estava no monte, segue o monte; se estava no vale, segue o vale."Verão" (kayitz), na linguagem corrente, não designa a estação climática em geral, mas especificamente a época de amadurecimento dos figos — por isso tanto "até o verão" quanto "até que seja verão" (formulações que, segundo a regra da mishná anterior, deveriam divergir por não ter tempo fixo) convergem para o mesmo marco prático: o início da colheita dos figos, quando o povo começa a enchê-los em cestos. "Até que passe o verão" aponta para o fim inteiro da estação, marcado pelo dobrar das esteiras onde os figos secam ao sol. "Até a colheita", dito sem outra especificação, refere-se ao trigo — cuja colheita é mais tardia e mais central economicamente —, não à cevada, que amadurece antes. E o marco final da mishná esclarece que todos esses tempos agrícolas variam conforme a topografia: no monte a colheita chega mais tarde que no vale, e o voto segue o calendário agrícola do lugar exato onde foi pronunciado, não uma data uniforme para toda a terra.

עַד הַקַּיִץ, עַד שֶׁיְּהֵא הַקַּיִץ, עַד שֶׁיַתְחִילוּ הָעָם לְהַכְנִיס בַּכַּלְכַּלּוֹת. עַד שֶׁיַּעֲבֹר הַקַּיִץ, עַד שֶׁיְּקַפְּלוּ הַמַּקְצוּעוֹת. עַד הַקָּצִיר, עַד שֶׁיַּתְחִיל הָעָם לִקְצֹר, קְצִיר חִטִּין אֲבָל לֹא קְצִיר שְׂעֹרִים. הַכֹּל לְפִי מְקוֹם נִדְרוֹ, אִם הָיָה בָהָר, בָּהָר, וְאִם הָיָה בַבִּקְעָה, בַּבִּקְעָה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A distinção entre a colheita de trigo e a de cevada, central nesta mishná, vem da própria Torá, que fixa a Omer de cevada logo após o Pessach e Shavuot — a festa do trigo — sete semanas depois.

Shemot (Êxodo) 34:22
וְחַג שָׁבֻעֹת תַּעֲשֶׂה לְךָ בִּכּוּרֵי קְצִיר חִטִּים, וְחַג הָאָסִיף תְּקוּפַת הַשָּׁנָה
E a festa de Shavuot farás para ti, dos primeiros frutos da colheita do trigo; e a festa da colheita final, na volta do ano.

A Torá nomeia Shavuot precisamente como "bikurei ketzir chitim" — os primeiros frutos da colheita do trigo —, marcando o trigo, e não a cevada, como a colheita definidora dessa estação; a cevada, colhida mais cedo, é a base do korban Ha'omer trazido logo após o Pessach, mas nunca dá nome a uma festa própria. É exatamente essa hierarquia bíblica entre as duas colheitas que a mishná reflete ao afirmar que "até a colheita", dito sem qualificação, sempre se refere ao trigo — o grão que a própria Torá associa à festa e que, por isso, domina o uso corrente da palavra "katzir" no vocabulário de quem formula um voto.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, explica os termos técnicos "kalkalot" e "maktzuot"; e o Talmud relata, a propósito desta mishná, o episódio de Rabi Tarfon e os figos que ele comeu por engano, ilustrando os limites do que se considera "hefker" (abandonado).

Rambam · Perush HaMishná, Nedarim 8:4
קַיִץ שֵׁם לִימוֹת הַשָּׁרָב, אֲבָל הָיָה מְפֻרְסָם זֶה הַשֵּׁם אֶצְלָם עַל זְמַן בִּשּׁוּל הַתְּאֵנִים וּכְשֶׁמַּתְחִיל זְמַן אֲכִילָתָם. וְכָךְ פֵּרְשׁוּ, כִּי בְּאָמְרוֹ כַּלְכָּלוֹת רוֹצֶה לוֹמַר סַלֵּי הַתְּאֵנִים, וּמַקְצוֹעוֹת הֵם הַמַּחְצְלָאוֹת שֶׁשּׁוֹטְחִין עֲלֵיהֶם הַתְּאֵנִים לְהִצְטַמֵּק וּלְיַבֵּשׁ

Rambam explica que a palavra "kayitz" na linguagem geral significa os dias de calor intenso, mas entre o povo daquela época havia se tornado o nome corrente e reconhecido especificamente para a época em que os figos amadurecem e se tornam próprios para comer. As "kalkalot" são os cestos usados para colher os figos, e as "makutzuot" são as esteiras de palha estendidas ao sol onde os figos colhidos são postos a secar até murcharem por completo.

Bartenura · Nedarim 8:4
הַכֹּל לְפִי מְקוֹם נִדְרוֹ. אִם רֹב תְּבוּאוֹת הַמָּקוֹם חִטִּין, עַד קְצִיר חִטִּים. וְאִם שְׂעֹרִים, עַד קְצִיר שְׂעֹרִים. וְכֵן אִם הָיָה בָּהָר בִּשְׁעַת הַנֶּדֶר, עַד שֶׁיַּגִּיעַ זְמַן הַקָּצִיר וְהַבָּצִיר בָּהָר. וְאִם בַּבִּקְעָה, עַד שֶׁיַּגִּיעַ זְמַן הַקָּצִיר וְהַבָּצִיר שֶׁל בִּקְעָה

Bartenura explica que "tudo segue o lugar do voto" tem dois níveis: primeiro, se a maioria dos cultivos daquela região é de trigo, "até a colheita" se refere à colheita do trigo; se predomina cevada, refere-se à colheita da cevada. Segundo, a própria época da colheita muda conforme a altitude — no monte, mais fria, ela chega mais tarde; no vale, mais quente, chega mais cedo — e o voto sempre segue o calendário agrícola específico do lugar exato onde foi pronunciado.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi acompanha a mishná e a sugiá seguinte, que narra como Rabi Tarfon foi confundido com um ladrão ao comer figos que julgava abandonados — episódio ligado à discussão sobre quando os figos remanescentes se tornam hefker.

Rashi · רש"י
Nedarim 61b-62a
עַד הַקַּיִץ. עַד שְׁעַת לְקִיטַת תְּאֵנִים, אוֹ שֶׁאָמַר עַד שֶׁיְּהֵא הַקַּיִץ, שְׁנֵיהֶם מַשְׁמָע דְּאֵינוֹ אָסוּר אֶלָּא עַד שֶׁיַּתְחִיל הָעָם לְהַכְנִיס תְּאֵנִים בַּכַּלְכָּלוֹת, וְזֶהוּ בִּתְחִלַּת הַקַּיִץ: תַּנָּא, הוּקְפְּלוּ רֹב הַמַּקְצוּעוֹת. אוֹתָן תְּאֵנִים שֶׁנִּשְׁתַּיְּרוּ בַּשָּׂדוֹת וּבָאִילָנוֹת, מֻתָּרוֹת מִשּׁוּם גָּזֵל, שֶׁנִּתְיָאֲשׁוּ מֵהֶן הַבְּעָלִים, וּפְטוּרוֹת מִן הַמַּעֲשֵׂר, מִשּׁוּם דְּהֶפְקֵרָא נִנְהוּ

Rashi explica que "kayitz", tanto na forma "até o verão" quanto "até que seja verão", converge sempre para o mesmo início prático: o momento em que o povo passa a colher figos em cestos. A gemara acrescenta que, depois de dobradas a maioria das esteiras de secagem, os figos remanescentes nas árvores e nos campos passam a ser considerados abandonados pelos donos — permitidos a qualquer um sem violar a proibição de roubo, e isentos do dízimo, justamente por serem hefker. É a esse ponto que se liga o episódio talmúdico de Rabi Tarfon, que foi surpreendido comendo desses figos remanescentes por um vigia que não sabia que já estavam abandonados, e que, por respeito à própria dignidade da Torá que carregava, preferiu calar-se a se identificar como sábio para se livrar da acusação — revelando o cuidado extremo dos sábios em não usar seu status para benefício pessoal.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nedarim 8:4
קַיִץ שֵׁם לִימוֹת הַשָּׁרָב, אֲבָל הָיָה מְפֻרְסָם זֶה הַשֵּׁם אֶצְלָם עַל זְמַן בִּשּׁוּל הַתְּאֵנִים

Rambam reforça que o uso corrente da palavra "kayitz" entre o povo se especializou para designar a época dos figos, ainda que seu sentido literal seja mais amplo — mais um exemplo do princípio geral, já citado no Perek Vav, de que em matéria de votos se segue sempre a linguagem viva do povo, e não a acepção técnica ou etimológica da palavra.

Bartenura · רע"ב
Nedarim 8:4
עַד הַקַּיִץ עַד שֶׁיְּהֵא הַקַּיִץ. בֵּין אָמַר עַד הַקַּיִץ בֵּין אָמַר עַד שֶׁיְּהֵא הַקַּיִץ אֵינוֹ אָסוּר אֶלָּא עַד שֶׁיַּתְחִילוּ הָעָם לְהַכְנִיס בַּכַּלְכַּלּוֹת, כְּלוֹמַר שֶׁקּוֹצְצִים תְּאֵנִים הַרְבֵּה וּמַכְנִיסִים אוֹתָם בַּסַּלִּים: עַד שֶׁיְּקַפְּלוּ הַמַּקְצוּעוֹת. הַמַּחְצְלָאוֹת שֶׁמְּיַבְּשִׁים עֲלֵיהֶם הַתְּאֵנִים, לְאַחַר שֶׁנִּתְיַבְּשׁוּ מְקַפְּלִין אוֹתָן וּמַנִּיחִין אוֹתָן לַשָּׁנָה הַבָּאָה

Bartenura confirma que as duas formulações sobre o verão convergem no mesmo marco prático — o início da grande colheita de figos em cestos —, e explica que as esteiras dobradas ao fim da estação são guardadas para reúso no ano seguinte, um detalhe caseiro que ilustra como a mishná está enraizada na vida agrícola concreta de seu tempo, e não em abstrações jurídicas distantes da experiência real.