"Até o verão", "até que seja verão" — até que o povo comece a recolher nos cestos. "Até que passe o verão" — até que dobrem as esteiras. "Até a colheita" — até que o povo comece a colher, colheita de trigo, mas não colheita de cevada. Tudo segue o lugar do voto: se estava no monte, segue o monte; se estava no vale, segue o vale. — "Verão" (kayitz), na linguagem corrente, não designa a estação climática em geral, mas especificamente a época de amadurecimento dos figos — por isso tanto "até o verão" quanto "até que seja verão" (formulações que, segundo a regra da mishná anterior, deveriam divergir por não ter tempo fixo) convergem para o mesmo marco prático: o início da colheita dos figos, quando o povo começa a enchê-los em cestos. "Até que passe o verão" aponta para o fim inteiro da estação, marcado pelo dobrar das esteiras onde os figos secam ao sol. "Até a colheita", dito sem outra especificação, refere-se ao trigo — cuja colheita é mais tardia e mais central economicamente —, não à cevada, que amadurece antes. E o marco final da mishná esclarece que todos esses tempos agrícolas variam conforme a topografia: no monte a colheita chega mais tarde que no vale, e o voto segue o calendário agrícola do lugar exato onde foi pronunciado, não uma data uniforme para toda a terra.
A distinção entre a colheita de trigo e a de cevada, central nesta mishná, vem da própria Torá, que fixa a Omer de cevada logo após o Pessach e Shavuot — a festa do trigo — sete semanas depois.
A Torá nomeia Shavuot precisamente como "bikurei ketzir chitim" — os primeiros frutos da colheita do trigo —, marcando o trigo, e não a cevada, como a colheita definidora dessa estação; a cevada, colhida mais cedo, é a base do korban Ha'omer trazido logo após o Pessach, mas nunca dá nome a uma festa própria. É exatamente essa hierarquia bíblica entre as duas colheitas que a mishná reflete ao afirmar que "até a colheita", dito sem qualificação, sempre se refere ao trigo — o grão que a própria Torá associa à festa e que, por isso, domina o uso corrente da palavra "katzir" no vocabulário de quem formula um voto.
Rambam, no Perush HaMishná, explica os termos técnicos "kalkalot" e "maktzuot"; e o Talmud relata, a propósito desta mishná, o episódio de Rabi Tarfon e os figos que ele comeu por engano, ilustrando os limites do que se considera "hefker" (abandonado).
Rambam explica que a palavra "kayitz" na linguagem geral significa os dias de calor intenso, mas entre o povo daquela época havia se tornado o nome corrente e reconhecido especificamente para a época em que os figos amadurecem e se tornam próprios para comer. As "kalkalot" são os cestos usados para colher os figos, e as "makutzuot" são as esteiras de palha estendidas ao sol onde os figos colhidos são postos a secar até murcharem por completo.
Bartenura explica que "tudo segue o lugar do voto" tem dois níveis: primeiro, se a maioria dos cultivos daquela região é de trigo, "até a colheita" se refere à colheita do trigo; se predomina cevada, refere-se à colheita da cevada. Segundo, a própria época da colheita muda conforme a altitude — no monte, mais fria, ela chega mais tarde; no vale, mais quente, chega mais cedo — e o voto sempre segue o calendário agrícola específico do lugar exato onde foi pronunciado.
Rashi acompanha a mishná e a sugiá seguinte, que narra como Rabi Tarfon foi confundido com um ladrão ao comer figos que julgava abandonados — episódio ligado à discussão sobre quando os figos remanescentes se tornam hefker.
Rashi explica que "kayitz", tanto na forma "até o verão" quanto "até que seja verão", converge sempre para o mesmo início prático: o momento em que o povo passa a colher figos em cestos. A gemara acrescenta que, depois de dobradas a maioria das esteiras de secagem, os figos remanescentes nas árvores e nos campos passam a ser considerados abandonados pelos donos — permitidos a qualquer um sem violar a proibição de roubo, e isentos do dízimo, justamente por serem hefker. É a esse ponto que se liga o episódio talmúdico de Rabi Tarfon, que foi surpreendido comendo desses figos remanescentes por um vigia que não sabia que já estavam abandonados, e que, por respeito à própria dignidade da Torá que carregava, preferiu calar-se a se identificar como sábio para se livrar da acusação — revelando o cuidado extremo dos sábios em não usar seu status para benefício pessoal.
Rambam reforça que o uso corrente da palavra "kayitz" entre o povo se especializou para designar a época dos figos, ainda que seu sentido literal seja mais amplo — mais um exemplo do princípio geral, já citado no Perek Vav, de que em matéria de votos se segue sempre a linguagem viva do povo, e não a acepção técnica ou etimológica da palavra.
Bartenura confirma que as duas formulações sobre o verão convergem no mesmo marco prático — o início da grande colheita de figos em cestos —, e explica que as esteiras dobradas ao fim da estação são guardadas para reúso no ano seguinte, um detalhe caseiro que ilustra como a mishná está enraizada na vida agrícola concreta de seu tempo, e não em abstrações jurídicas distantes da experiência real.