Seder Nashim · Massechet Nedarim · Perek Tet · Mishná 9 de 10

Abrindo pela própria honra: o marido que expulsa esposas e a reputação das filhas

פּוֹתְחִין לָאָדָם בִּכְבוֹד עַצְמוֹ וּבִכְבוֹד בָּנָיו
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Voltando ao tema da honra que abriu o perek — mas agora a própria honra do votante, não a de seus pais —, a mishná trata do marido que jurou expulsar ou divorciar-se e mostra como lembrá-lo da reputação futura que ele e suas filhas carregarão.

Abre-se para a pessoa pela honra de si mesmo e pela honra de seus filhos. Dizem-lhe: "Se soubesses que amanhã dirão a teu respeito: assim é o costume de fulano, expulsa suas esposas — e de tuas filhas dirão: são filhas de divorciadas, o que viu a mãe destas para ser expulsa?" — e disse, "Se eu soubesse que era assim, eu não teria feito o voto" — eis que este fica permitido.Esta abertura completa, em espelho, a primeira mishná do capítulo: lá a honra invocada era a dos pais do votante; aqui é a sua própria honra e a de seus filhos. O sábio pinta ao marido a imagem concreta de sua futura reputação de "homem que expulsa esposas" e o estigma social que suas filhas herdarão por isso, mesmo sem culpa própria — a suspeita de que algo estava errado com a mãe delas. Diferente da abertura pela honra dos pais na primeira mishná, aqui os sábios não levantam objeção: talvez porque a preocupação com o próprio nome e com o futuro dos filhos seja considerada mais confiável do que a alegação de vergonha alheia.

פּוֹתְחִין לָאָדָם בִּכְבוֹד עַצְמוֹ וּבִכְבוֹד בָּנָיו. אוֹמְרִים לוֹ, אִלּוּ הָיִיתָ יוֹדֵעַ שֶׁלְּמָחָר אוֹמְרִין עָלֶיךָ כָּךְ הִיא וִסְתּוֹ שֶׁל פְּלוֹנִי, מְגָרֵשׁ אֶת נָשָׁיו, וְעַל בְּנוֹתֶיךָ יִהְיוּ אוֹמְרִין בְּנוֹת גְּרוּשׁוֹת הֵן, מָה רָאֲתָה אִמָּן שֶׁל אֵלּוּ לְהִתְגָּרֵשׁ, וְאָמַר, אִלּוּ הָיִיתִי יוֹדֵעַ שֶׁכֵּן, לֹא הָיִיתִי נוֹדֵר, הֲרֵי זֶה מֻתָּר:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A preocupação da mishná com a reputação transmitida às filhas ecoa o valor bíblico atribuído a um bom nome, mais precioso do que a riqueza — o mesmo bem que o marido arrisca destruir, para si e para seus descendentes, ao tornar-se conhecido como quem expulsa esposas.

Mishlei (Provérbios) 22:1
נִבְחָר שֵׁם מֵעֹשֶׁר רָב, מִכֶּסֶף וּמִזָּהָב חֵן טוֹב
Mais desejável é o bom nome do que a grande riqueza; e a boa estima é melhor do que a prata e o ouro.

O princípio de que o bom nome é mais precioso do que qualquer riqueza é a base emocional pela qual esta abertura funciona: o sábio não apela a nenhum argumento financeiro ou legal, apenas ao próprio valor que o marido atribui à sua reputação e à de seus filhos. O detalhe da mishná é particularmente agudo — não é apenas a honra do próprio marido que está em jogo, mas a de suas filhas, que carregarão, sem culpa alguma, a suspeita gerada pela fama do pai; e é precisamente esse alcance da mácula, que se estende à geração seguinte, que revela ao votante o verdadeiro peso do que está fazendo.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, confirma que também esta abertura, como as demais aceitas no capítulo, exige a consulta formal a um sábio para se tornar efetiva.

Rambam · Perush HaMishná, Nedarim 9:9
פּוֹתְחִין לָאָדָם בִּכְבוֹד עַצְמוֹ וּבִכְבוֹד בָּנָיו... וְצָרִיךְ בְּכָל זֶה הֲפָרָה אַחַר שְׁאֵלָה לְחָכָם

Rambam confirma brevemente que, apesar de esta abertura ser aceita sem disputa, ela ainda segue a regra geral de todas as aberturas do capítulo: não basta que o votante reconheça seu erro — é necessária a consulta formal a um sábio, seguido do ato próprio de hafará (anulação), para que o voto efetivamente deixe de valer.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica o cenário concreto por trás da mishná — o voto de divórcio e o estigma da suspeita — completando o quadro já traçado por Rambam sobre o requisito processual da hatará.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nedarim 9:9
פּוֹתְחִין לָאָדָם בִּכְבוֹד עַצְמוֹ וּבִכְבוֹד בָּנָיו כוּ׳, וְצָרִיךְ בְּכָל זֶה הֲפָרָה אַחַר שְׁאֵלָה לְחָכָם

Rambam registra que, apesar da mishná anterior sobre a ketubá e esta sobre a honra própria não gerarem disputa entre os sábios — ao contrário das duas primeiras mishnayot do capítulo —, todas seguem o mesmo requisito processual: a hafará formal, precedida da consulta ao sábio, é sempre necessária para que a abertura se converta em anulação efetiva do voto.

Bartenura · רע"ב
Nedarim 9:9
פּוֹתְחִין לָאָדָם בִּכְבוֹד עַצְמוֹ וּבִכְבוֹד בָּנָיו. אִם נָדַר לְגָרֵשׁ אֶת אִשְׁתּוֹ: מָה רָאֲתָה אִמָּן לְהִתְגָּרֵשׁ. אִם לֹא שֶׁנִּמְצָא בָהּ עֶרְוַת דָּבָר, וְנִמְצָא פּוֹגֵם אֶת בָּנָיו. וְלֹא חָיְשִׁינַן שֶׁמָּא יְשַׁקֵּר, שֶׁהוּא אֵינוֹ מִתְחָרֵט אֶלָּא שֶׁהוּא בּוֹשׁ לוֹמַר שֶׁאֵינוֹ חוֹשֵׁשׁ לִכְבוֹד בָּנָיו

Bartenura esclarece que o cenário desta mishná é o marido que jurou divorciar-se da esposa. A frase "o que viu a mãe destas para ser expulsa" implica publicamente que algo impróprio foi encontrado nela — e é essa mácula, projetada sobre as próprias filhas do casal, que fere o marido de forma mais aguda do que qualquer vergonha pessoal. Bartenura nota também, em paralelo à primeira mishná do capítulo, que aqui os sábios não temem que o marido esteja mentindo ao admitir seu arrependimento: ele não está fingindo remorso por vergonha alheia, mas apenas admitindo, sem embaraço, que não havia pensado nas consequências para seus próprios filhos.