Seder Tehorot · Massechet Negaim · Perek Alef · Mishná 6 de 6 — última do capítulo

Como leva ao rigor

כֵּיצַד לְהַחְמִיר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Mishná final do Perek Alef: a lista espelhada da mishná anterior — as mesmas categorias de mudança, agora na direção oposta, pelas quais o intervalo forçado pelo Shabat entre um exame e outro leva ao rigor, certificando impuro quem, sem o adiamento, seria julgado com mais leniência

Como leva ao rigor? Se não havia nele pêlo branco e nasceu pêlo branco; se eram pretos e embranqueceram; um preto e um branco, e ambos embranqueceram; se eram curtos e alongaram; um curto e um longo, e ambos alongaram; se a chaga se aproximou de ambos ou de um deles, se a chaga cercou ambos ou um deles, ou se a chaga, a carne viva da chaga, a queimadura, a carne viva da queimadura ou a mancha esbranquiçada os dividiu, e depois desapareceram; se não havia nela carne viva e nasceu carne viva; se era redonda ou alongada e se tornou quadrada; se estava de lado e passou a ficar cercada; se era dispersa e se reuniu, e veio a chaga e entrou nela; se a chaga, a carne viva da chaga, a queimadura, a carne viva da queimadura ou a mancha esbranquiçada a cercou, a dividiu ou a diminuiu, e depois desapareceram; se não havia nela propagação e nasceu propagação; se a chaga, a carne viva da chaga, a queimadura, a carne viva da queimadura ou a mancha esbranquiçada se interpôs entre a mancha original e a propagação, e depois desapareceram — eis que estes levam ao rigor.

Esta mishná espelha exatamente a estrutura da anterior, invertendo cada cláusula: onde ali um sinal de impureza desaparecia no intervalo do Shabat (a favor do portador da praga), aqui o mesmo sinal nasce nesse intervalo (contra ele); e onde ali algo se interpunha entre a mancha original e a propagação impedindo a certificação, aqui esse obstáculo desaparece, permitindo-a. Juntas, as mishnayot 5 e 6 ilustram de modo exaustivo o princípio enunciado ao final da mishná 4: a norma de nunca examinar uma praga em Shabat, ainda que protegendo o santo dia do descanso de qualquer aparência de julgamento, tem consequências reais e imprevisíveis para o portador da praga — ora a seu favor, ora contra ele — conforme o acaso da fisiologia da praga durante o dia de espera.

כֵּיצַד לְהַחְמִיר. לֹא הָיָה בוֹ שֵׂעָר לָבָן וְנוֹלַד לוֹ שֵׂעָר לָבָן, הָיוּ שְׁחוֹרוֹת וְהִלְבִּינוּ, אַחַת שְׁחוֹרָה וְאַחַת לְבָנָה וְהִלְבִּינוּ שְׁתֵּיהֶן, קְצָרוֹת וְהֶאֱרִיכוּ, אַחַת קְצָרָה וְאַחַת אֲרֻכָּה וְהֶאֱרִיכוּ שְׁתֵּיהֶן, נִסְמַךְ הַשְּׁחִין לִשְׁתֵּיהֶן אוֹ לְאַחַת מֵהֶן, הִקִּיף הַשְּׁחִין אֶת שְׁתֵּיהֶן אוֹ אֶת אַחַת מֵהֶן, אוֹ חִלְּקוֹ הַשְּׁחִין וּמִחְיַת הַשְּׁחִין וְהַמִּכְוָה וּמִחְיַת הַמִּכְוָה וְהַבֹּהַק וְהָלְכוּ לָהֶם, לֹא הָיְתָה בוֹ מִחְיָה וְנוֹלְדָה לוֹ מִחְיָה, הָיְתָה עֲגֻלָּה אוֹ אֲרֻכָּה וְנַעֲשֵׂית מְרֻבַּעַת, מִן הַצַּד וְנַעֲשֵׂית מְבֻצֶּרֶת, מְפֻזֶּרֶת וְנִתְכַּנְּסָה וּבָא הַשְּׁחִין וְנִכְנַס בְּתוֹכָהּ, הִקִּיפָהּ, חִלְּקָהּ, אוֹ מִעֲטָהּ הַשְּׁחִין אוֹ מִחְיַת הַשְּׁחִין וְהַמִּכְוָה וּמִחְיַת הַמִּכְוָה וְהַבֹּהַק וְהָלְכוּ לָהֶן, לֹא הָיָה בוֹ פִסְיוֹן וְנוֹלַד בּוֹ פִסְיוֹן, הַשְּׁחִין וּמִחְיַת הַשְּׁחִין וְהַמִּכְוָה וּמִחְיַת הַמִּכְוָה וְהַבֹּהַק חוֹלְקִין בֵּין הָאוֹם לַפִּסְיוֹן וְהָלְכוּ לָהֶן, הֲרֵי אֵלּוּ לְהַחְמִיר:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Negaim 1:6
זאת ההלכה כולה מבוארת כאשר הבנת מה שקדם מהמאמר…

Toda esta halachá já está explicada, se você entendeu o que precedeu neste discurso — pois a intenção é que, sendo o sétimo dia visto num Shabat, e surgindo na manhã de domingo algo que obrigue a impureza — como o surgimento de carne viva, pêlo branco ou propagação — ou faltando um destes elementos que o teriam salvado, tal como ocorreria no dia de Shabat (por exemplo, o furúnculo estar próximo à baheret, e as demais coisas que explicamos que o salvariam), e depois estas salvações desaparecerem — este é o sentido de “e desapareceram”, isto é, que foram removidas no restante do dia de Shabat, sendo a causa de que a manhã de domingo seja impura; e isto é para o rigor.

E já se explicou, desta halachá e da anterior, que o pêlo branco não é sinal de impureza a menos que esteja na própria praga; mas quando havia furúnculo ou queimadura dentro da praga, e pêlo branco nesse furúnculo ou queimadura, não é sinal de impureza — e por isso se diz “a chaga se aproximou de ambos ou de um deles”, etc.

E o que convém que você saiba é que a carne viva não é sinal de impureza a menos que apareça dentro da baheret, com a praga a circundando por todos os lados, e também que esteja unida; mas se a carne viva estivesse do lado, como uma tira de carne viva já estendida e penetrando dentro da praga, sem que a praga a circunde por todos os lados, não é sinal de impureza — e isto se explicará totalmente. E do mesmo modo, quando a carne viva estava espalhada dentro da praga, não é sinal de impureza. E sendo isto assim, já se explicou que os termos “fortificada” e “tornou-se do lado”, “reunida” e “dispersou-se”, todos são condições da carne viva; e do mesmo modo tudo o que se segue neste discurso, ao dizer “a cercou a chaga, a dividiu ou a diminuiu”, e o mais que se segue, são todos condições da carne viva, como se explicou na halachá anterior a esta — e este é o resumo de todos os princípios sobre os quais se constrói este discurso.

Bartenura · Negaim 1:6
נִסְמַךְ הַשְּׁחִין. בְּשַׁבָּת…

Sobre “a chaga se aproximou”: em Shabat.

Sobre “de ambos”: dos dois pêlos — pois agora não são mais sinal de impureza, já que o pêlo branco só é sinal de impureza quando está na própria praga, e não dentro da chaga ou da queimadura.

Sobre “ou a chaga cercou”, etc.: pois se o sacerdote o tivesse visto em Shabat, não o teria certificado impuro.

Sobre “e desapareceram”: depois do Shabat, quando o lugar da chaga e da queimadura se tornou uma cicatriz, sendo então como pele da carne comum, e restando a pele da carne com a praga como no início, junto com o pêlo branco — e o sacerdote o certifica impuro; isto leva ao rigor.

Sobre “dividem entre a mancha original e a propagação”: quando, no Shabat, algo se interpunha entre o núcleo da praga e a propagação.

Sobre “e desapareceram”: depois do Shabat, e já não há nada que os separe — eis que isto leva ao rigor.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Negaim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraico que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido em todas as mishnayot deste capítulo.
הֲדַרָן עֲלָךְ מַרְאוֹת נְגָעִים

Com esta sexta mishná, encerra-se o Perek Alef de Massechet Negaim — o perek que estabeleceu, de uma só vez, todo o vocabulário técnico e as quatro tonalidades de branco sobre as quais se ergue o tratado inteiro. As mishnayot 1 e 2 definiram as quatro aparências — baheret, se’et e suas secundárias — lisas e mescladas de vermelho. A mishná 3 mostrou que essas quatro aparências, apesar de distintas, se combinam como uma só para os três veredictos do sacerdote: isentar, certificar impuro, ou enclausurar. A mishná 4 ampliou a contagem para as demais categorias de pragas — furúnculo, queimadura, calvície, tinha, roupas e casas — e introduziu a regra sobre o exame não coincidir com o Shabat. E as mishnayot 5 e 6, espelhadas uma na outra, esgotaram exaustivamente as consequências práticas — leniência e rigor — desse mesmo adiamento forçado pelo dia sagrado.

O estudo da Mishná prossegue agora para o Perek Bet de Massechet Negaim, que tratará da autoridade para examinar as pragas — quem pode julgá-las e quem não pode — e das partes do corpo em que a tzaraat não se examina.