Seder Tehorot · Massechet Ohalot · Perek Yud-Alef · Mishná 9 de 9

Vasos entre as bordas do cesto e da adega

כֵּלִים שֶׁבֵּין שִׂפְתֵי כְפִישָׁה לְבֵין שִׂפְתֵי הֶחָדוּת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Fecha o Perek Yud-Alef completando o caso da adega e do candelabro: vasos entre as bordas do cesto e da adega permanecem puros; a impureza dentro da adega torna a casa impura; a impureza na casa só afeta os vasos nas paredes da adega quando falta ali o vão mínimo de um palmo cúbico; e adegas de paredes mais largas que as da casa protegem em qualquer caso

Vasos que estão entre as bordas do cesto e as bordas da adega, mesmo até o abismo, permanecem puros. Se a impureza está ali, a casa fica impura. Se a impureza está na casa, os vasos que estão nas paredes da adega, se há em seu lugar um palmo por um palmo na altura de um palmo, permanecem puros; e se não, ficam impuros. Se as paredes da adega são mais largas que as da casa, de um modo ou de outro permanecem puros.

Esta mishná final do Perek Yud-Alef completa o caso da adega e do candelabro, tratando agora dos vasos que ficam no espaço estreito entre as bordas do cesto e as bordas da própria adega: mesmo que esse espaço desça até grandes profundezas, os vasos ali permanecem puros, protegidos pela combinação do cesto por cima e das paredes da adega ao redor. Se, porém, a própria impureza estiver nesse espaço, dentro da adega, a casa toda fica impura, pois não existe, contra a impureza, uma tampa capaz de contê-la uma vez que ela já está lá dentro. A mishná passa então ao caso inverso, em que a impureza está na casa, não na adega: os vasos guardados nas próprias paredes da adega permanecem puros apenas se o espaço onde estão tiver, no mínimo, um palmo por um palmo na altura de um palmo — o vão cúbico mínimo, já familiar de capítulos anteriores, que basta para salvá-los, como um cano coberto sob a casa. Sem esse vão mínimo, eles ficam impuros. E se as paredes da adega forem mais largas que as da própria casa — de modo que a adega se estenda para além dos limites da casa —, os vasos ali guardados permanecem puros em qualquer caso, pois deixam de ser considerados parte da casa e passam a constituir, eles mesmos, um vaso independente.

כֵּלִים שֶׁבֵּין שִׂפְתֵי כְפִישָׁה לְבֵין שִׂפְתֵי הֶחָדוּת, אֲפִלּוּ עַד הַתְּהוֹם, טְהוֹרִים. טֻמְאָה שָׁם, הַבַּיִת טָמֵא. טֻמְאָה בַבַּיִת, כֵּלִים שֶׁבְּכָתְלֵי הֶחָדוּת, אִם יֵשׁ בִּמְקוֹמָן טֶפַח עַל טֶפַח עַל רוּם טֶפַח, טְהוֹרִים. וְאִם לָאו, טְמֵאִים. אִם הָיוּ כָתְלֵי הֶחָדוּת רְחָבִים מִשֶּׁל בַּיִת, בֵּין כָּךְ וּבֵין כָּךְ טְהוֹרִים:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Ohalot 11:9
טֻמְאָה שָׁם הַבַּיִת טָמֵא…

Sobre “a impureza ali, a casa fica impura”: isto é, quando a impureza estava entre a borda da adega e as bordas do cesto, a casa fica impura, pois já explicamos várias vezes, no que precedeu, que tudo o que salva, na tenda do morto, as coisas puras para que não se tornem impuras, isso mesmo não as salva de transmitir impureza quando elas próprias já estão impuras.

E já sabes que a adega é uma construção, sendo uma cavidade elevada sobre o chão; e quando havia vasos em seus lados, e seu lugar era de um palmo por um palmo, separado da casa, então a regra da adega era que, assim como ela salva tudo o que está dentro dela, também salva o que está em seus lados. Porém, se seus lados eram mais largos que as paredes da casa, então os vasos que estivessem dentro das paredes da adega permaneceriam puros, ainda que seu lugar não tivesse um palmo por um palmo, e não se aplicaria a eles a regra de “metade por metade”, conforme se esclareceu no sexto capítulo deste tratado.

E na Tosefta (cap. 12) disseram que, nas paredes da adega, os vasos permanecem puros, e que, nas paredes da casa, aplica-se a regra de “metade por metade” — sendo que as paredes da adega, por serem mais largas, como que não entram de modo algum na categoria das paredes da casa, mas constituem, elas mesmas, um vaso à parte.

Bartenura · Ohalot 11:9
טֻמְאָה שָׁם. בְּתוֹךְ הַדּוּת…

Sobre “a impureza ali”: dentro da adega, ainda que o cesto esteja por cima dela.

Sobre “a casa fica impura”: pois não há tampa vedada eficaz contra a impureza.

Sobre “a impureza na casa”: agora se trata de uma adega aberta, sobre a qual não há cesto.

Sobre “permanecem puros”: os vasos, já que há em seu lugar um palmo por um palmo na altura de um palmo, pois ali são salvos como um cano coberto sob a casa, conforme ensinamos acima, no Perek Guimel, mishná 7: “impureza na casa, o que está dentro dele permanece puro”.

Sobre “mais largas que as da casa”: por exemplo, quando o vão da adega se alarga e se estende sob a parede da casa, e a parede da adega está construída fora da parede da casa, e os vasos estão ali.

Sobre “de um modo ou de outro”: pois, mesmo que não haja em seu lugar um palmo por um palmo na altura de um palmo, permanecem puros.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Ohalot não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraico que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste capítulo.
אֵין צָמִיד פָּתִיל לַטֻּמְאָה

Com esta nona mishná, encerra-se o Perek Yud-Alef de Massechet Ohalot, um capítulo que abandona a claraboia do capítulo anterior para explorar um leque variado de estruturas e situações em que a impureza de ohel se transmite ou se interrompe.

O capítulo abriu (11:1–11:2) com a casa e a varanda que se racham em duas metades, onde a direção natural da impureza — que tende a sair, não a entrar — e a largura mínima da fenda determinam se os vasos do lado oposto permanecem puros. A mishná 11:3 introduziu o objeto grosso e a pessoa colocados sob essa fenda, abrindo a controvérsia central do capítulo: se o corpo humano, sendo oco, forma por si só uma tenda, como sustenta Bet Hilel, ou se, como sustenta Bet Shamai, seu vão interno não conta para esse fim. As mishnayot 11:4–11:6 aplicaram essa mesma controvérsia a três cenários sucessivos — a pessoa que olha pela janela e dá sombra aos que carregam um morto, a pessoa deitada sobre o umbral que recebe essa mesma sombra, e o caso invertido em que é a impureza da própria casa que sobe através do corpo deitado até alcançar quem lhe faz sombra por fora. A mishná 11:7, a mais longa e elaborada do capítulo, deslocou a discussão do ser humano para o animal: um cachorro morto que comeu carne de cadáver, com quatro critérios sucessivos e divergentes — a espessura do pescoço segundo Rabi Meir, a localização exata da impureza segundo Rabi Yossei, a direção da boca segundo Rabi Eliezer, e a certeza de que ela sai por qualquer extremidade segundo Rabi Yehudá ben Beteira —, encerrando com a medida exata do tempo em que a carne permanece contaminante nas entranhas de um cão, de aves ou de peixes. E, por fim, as mishnayot 11:8–11:9 voltaram ao princípio das coberturas protetoras já visto no Perek Hei, agora aplicado à adega com o candelabro e o cesto que a tampa, aos vasos guardados entre suas bordas, e à condição exata — o vão de um palmo cúbico — que decide se os vasos junto às suas paredes escapam da impureza que está na casa.

O estudo de Massechet Ohalot prossegue agora para o Perek Yud-Bet, que continuará a explorar, ao longo dos sete perakim que ainda restam, as inúmeras ramificações da impureza transmitida por ohel.