O morto na casa, e nela há muitas portas: todas são impuras. Se uma delas foi aberta, ela é impura e todas as demais são puras. Se pensou em tirá-lo por uma delas, ou por uma janela de quatro por quatro palmos, protegeu todas as portas. Bet Shamai diz: deve ter pensado nisso antes que o morto morresse. Bet Hilel diz: mesmo depois que morreu. Se uma porta estava tapada e decidiu-se abri-la: Bet Shamai diz, quando abrir quatro palmos. Bet Hilel diz, assim que começar. E concordam que, ao abrir pela primeira vez, deve abrir quatro palmos.
Esta terceira mishná trata de uma casa com um cadáver e várias portas para o exterior. Por decreto rabínico, todas as portas — e os vasos colocados sob seus umbrais — tornam-se impuras, mesmo fechadas, pois qualquer uma delas pode vir a ser a via de saída do morto. Se, porém, uma das portas é de fato aberta, apenas ela e a casa se tornam impuras, e as demais, ainda fechadas, voltam a ser puras — pois agora está claro que o corpo sairá por ali. O mesmo efeito se obtém sem abrir porta alguma: basta que alguém pense em retirar o morto por uma porta específica, ou por uma janela de quatro palmos por quatro palmos (a medida mínima considerada apta para a passagem de um cadáver), para que essa intenção já proteja todas as demais portas, do mesmo modo que a abertura real. Bet Shamai e Bet Hilel discordam sobre o momento em que essa intenção é eficaz: Bet Shamai exige que o pensamento tenha sido formado antes da morte, pois, uma vez que o decreto de impureza desce sobre as portas no momento da morte, ele só pode ser removido por um ato concreto, como a abertura efetiva; Bet Hilel permite que a intenção seja formada mesmo depois da morte, considerando que o pensamento por si só já redireciona o decreto — mas mesmo Bet Hilel reconhece que os vasos que já estavam sob as portas antes da intenção permanecem impuros. Já a porta que estava tapada com pedras, e cujo dono decide reabri-la: Bet Shamai exige que a abertura atinja quatro palmos para que as demais portas fiquem protegidas; Bet Hilel considera suficiente o mero início da abertura. E ambos concordam que, quando se trata de abrir um vão inteiramente novo numa parede que não tinha porta alguma, é necessário abrir os quatro palmos por quatro palmos completos para que as demais portas sejam protegidas.
Quando todas as portas estão fechadas, a casa inteira é considerada como um túmulo, e impurifica tudo o que a tocar — e é esta a expressão deles: “casa tapada impurifica tudo ao seu redor”. E, quando uma das portas é aberta, ou pensou-se em retirar o morto por uma porta determinada, mesmo que ainda não tenha sido aberta, ou havia entre as portas uma porta já construída por onde se pode retirar o morto membro por membro, ainda que isso seja proibido, ela já protegeu todas as demais portas. E, havendo entre elas uma porta trancada, aquele que se senta debaixo do umbral que se projeta sobre essa porta não se impurifica — e este é o sentido de que a porta já protege da impureza, conforme já explicamos no terceiro perek. E a razão disso é que a casa deixa de ser julgada como túmulo e volta a ser considerada casa, e não impurifica tudo ao seu redor; compreende isto bem.
E o sentido de “abrindo pela primeira vez” é abrir uma porta numa das paredes onde não havia porta alguma, e pensar em retirar o morto por ali; e já se estabeleceu no terceiro perek que a porta do morto tem quatro [palmos].
Sobre “todas são impuras”: todos os vasos colocados sob o umbral de cada porta, no espaço das portas por fora, são impuros, ainda que as portas estejam trancadas, pois os sábios decretaram impureza sobre o lugar que é o caminho de saída da impureza, já que o morto acabará saindo por ali.
Sobre “se pensou em tirá-lo por uma delas”: mesmo que ela ainda não tenha sido aberta.
Sobre “ou por uma janela que tem quatro”: pois foi nessa medida que os sábios estabeleceram o que é apto para a saída do morto.
Sobre “protegeu todas as portas”: as trancadas.
Sobre “deve ter pensado nisso antes que o morto morresse”: pois, desde que a condição de impureza desce sobre as portas com a morte do morto, ela não se retira mais delas por mero pensamento, senão por meio de um ato, como abrir a porta.
Sobre “e Bet Hilel diz, mesmo depois que morreu”: pois o pensamento anula a condição de impureza das portas dali em diante. Mas os vasos que já estavam nas portas antes do pensamento, Bet Hilel reconhece que são impuros.
Sobre “estava”: uma das portas tapada com pedras.
Sobre “tapada”: com pedras.
Sobre “quando abrir quatro palmos”: as demais portas ficaram protegidas.
Sobre “assim que começar”: a abrir, já ficaram protegidas as demais portas.
Sobre “ao abrir pela primeira vez”: como uma parede que não tinha porta alguma, e se decide fazer nela uma porta nova — as demais portas não ficam protegidas até que se abram quatro por quatro.