Seder Zeraim · Massechet Orlá · Perek Bet · Mishná 1

"A trumá... sobe em um e cem"

הַתְּרוּמָה... עוֹלִים בְּאֶחָד וּמֵאָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Mishná de abertura do Perek Bet: o capítulo passa da definição de orlá (tema do Perek Alef) para as leis de anulação de misturas — quando um alimento proibido cai em quantidade permitida, a mishná estabelece as proporções que anulam trumá e seus equivalentes (1:100) versus orlá e kilei hakerem (1:200), com a disputa entre Rabi Shimon e Rabi Eliezer sobre a soma de proporções distintas

A trumá, e a trumá do dízimo de demai, a chalá e os primeiros frutos (quatro dons sacerdotais que, ao caírem misturados em alimento comum, se anulam pela mesma regra, por serem todos chamados "trumá" na Torá), sobem em um e cem (uma medida de qualquer um destes, caída em cem medidas de alimento comum, se anula — bastando separar uma medida equivalente para o cohen), e se juntam uns aos outros (para efeito de completar a proporção de cem, as quantidades de trumá, chalá e bicurim se somam entre si, mesmo vindas de fontes diferentes, pois compartilham o mesmo nome de "trumá"), e é necessário separar (mesmo depois de anulada a proibição para os demais, é preciso retirar do todo uma medida e entregá-la ao cohen, pois a trumá é propriedade dele). A orlá e o kilayim da vinha sobem em um e duzentos (por serem proibidas também em proveito, e não apenas em consumo, sua proporção de anulação é o dobro da trumá), e se juntam uma à outra (orlá e kilei hakerem, apesar de serem proibições distintas, se somam para completar a proporção de duzentos), e não é necessário separar (diferente da trumá, que pertence ao cohen e por isso precisa ser retirada e entregue a ele, orlá e kilei hakerem não pertencem a ninguém — uma vez anuladas na proporção, toda a mistura fica permitida sem necessidade de remoção). Rabi Shimon diz: não se juntam (discorda que orlá e kilei hakerem se somem entre si para completar a proporção de duzentos, por serem nomes de proibição diferentes). Rabi Eliezer diz: se juntam em dando sabor, mas não para proibir (posição intermediária: elas se combinam apenas para o efeito de que, se a mistura conjunta transmite sabor perceptível, isso não basta para tornar tudo proibido — mas não se somam para, ao contrário, criar uma proibição que nenhuma delas isoladamente causaria).

הַתְּרוּמָה, וּתְרוּמַת מַעֲשֵׂר שֶׁל דְּמַאי, הַחַלָּה וְהַבִּכּוּרִים, עוֹלִים בְּאֶחָד וּמֵאָה, וּמִצְטָרְפִין זֶה עִם זֶה, וְצָרִיךְ לְהָרִים. הָעָרְלָה וְכִלְאֵי הַכֶּרֶם, עוֹלִים בְּאֶחָד וּמָאתַיִם, וּמִצְטָרְפִין זֶה עִם זֶה, וְאֵין צָרִיךְ לְהָרִים. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, אֵינָן מִצְטָרְפִין. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, מִצְטָרְפִין בְּנוֹתֵן טַעַם, אֲבָל לֹא לֶאֱסֹר:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

O Perek Bet aplica à orlá o mesmo princípio de anulação de misturas que a tradição rabínica desenvolveu a partir das leis de trumá e de kilei hakerem, ambas com fontes bíblicas próprias.

Vayikrá (Levítico) 19:23-25
וְכִי תָבֹאוּ אֶל הָאָרֶץ וּנְטַעְתֶּם כָּל עֵץ מַאֲכָל, וַעֲרַלְתֶּם עָרְלָתוֹ אֶת פִּרְיוֹ, שָׁלֹשׁ שָׁנִים יִהְיֶה לָכֶם עֲרֵלִים, לֹא יֵאָכֵל. וּבַשָּׁנָה הָרְבִיעִת יִהְיֶה כָּל פִּרְיוֹ קֹדֶשׁ הִלּוּלִים לַה׳. וּבַשָּׁנָה הַחֲמִישִׁת תֹּאכְלוּ אֶת פִּרְיוֹ, לְהוֹסִיף לָכֶם תְּבוּאָתוֹ, אֲנִי ה׳ אֱלֹהֵיכֶם.
"E quando entrardes na terra e plantardes toda árvore frutífera, considerareis seu fruto como incircunciso: três anos ele será para vós como incircunciso, não se comerá. E no quarto ano, todo o seu fruto será santo, louvores ao Eterno. E no quinto ano comereis o seu fruto..." — a base da proibição de orlá, que a tradição rabínica entende como abrangendo não apenas o consumo, mas todo e qualquer proveito. Essa proibição de proveito é o que leva a mishná a igualar a proporção de anulação de orlá à de kilei hakerem [mistura de uva com cereal ou legume na vinha], proibição derivada de Devarim 22:9, também vedada em proveito, e a distinguir ambas da trumá — proibida apenas em consumo por não-cohanim, mas permitida em proveito.

Por que a mishná abre o Perek Bet com um tema aparentemente distante de orlá — as leis gerais de trumá? A resposta está na lógica comparativa da própria mishná: ela não trata da trumá por si mesma, mas para estabelecer, por contraste, a régua de medida da orlá. A trumá, embora sagrada, é permitida em proveito (pode-se, por exemplo, alimentar animais com ela ou usá-la para outros fins não alimentares) — por isso sua proibição de consumo se anula com uma proporção "simples" de 1:100. Orlá e kilei hakerem, proibidas também em proveito — um patamar de restrição mais severo — exigem o dobro: 1:200. A mishná está, assim, ensinando o critério geral por trás de toda a área temática que os Perakim Bet e Guimel de Orlá desenvolvem: misturas de proibido em permitido, e como e quando elas se anulam.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica a proporção de trumá em Hilchot Terumot 13:1, e a proporção — e a razão de ser o dobro — de orlá e kilei hakerem em Hilchot Maachalot Assurot, capítulo 15, halachot 13-16, no contexto mais amplo das leis gerais de anulação de misturas proibidas.

Rambam · Hilchot Maachalot Assurot 15:13-16
וְאֵלּוּ הֵן הַשִּׁעוּרִין שֶׁנָּתְנוּ חֲכָמִים. הַתְּרוּמָה וּתְרוּמַת מַעֲשֵׂר וְהַחַלָּה וְהַבִּכּוּרִים עוֹלִין בְּאֶחָד וּמֵאָה וְצָרִיךְ לְהָרִים וּמִצְטָרְפִין זֶה עִם זֶה... הָעָרְלָה וְכִלְאֵי הַכֶּרֶם עוֹלִין בְּאֶחָד וּמָאתַיִם וּמִצְטָרְפִין זֶה עִם זֶה וְאֵינוֹ צָרִיךְ לְהָרִים... וְלָמָּה צָרִיךְ לְהָרִים הַתְּרוּמָה וְלֹא יָרִים עָרְלָה וְכִלְאֵי הַכֶּרֶם. שֶׁהַתְּרוּמָה מָמוֹן כֹּהֲנִים... וְלָמָּה כָּפְלוּ שִׁעוּר עָרְלָה וְכִלְאֵי הַכֶּרֶם מִפְּנֵי שֶׁהֵן אֲסוּרִין בַּהֲנָיָה.
E estas são as proporções que os Sábios estabeleceram: a trumá, a trumá do dízimo, a chalá e os primeiros frutos sobem em um e cem, e é necessário separar, e se juntam uns aos outros (o Rambam codifica a mishná quase literalmente, confirmando a halachá segundo o tanna kama — a opinião anônima — contra Rabi Shimon). A orlá e o kilei hakerem sobem em um e duzentos, e se juntam um ao outro, e não é necessário separar. E por que é necessário separar a trumá, e não se separa orlá e kilei hakerem? Porque a trumá é dinheiro dos cohanim (a trumá tem dono — o cohen — que tem direito de recebê-la; por isso, mesmo depois de anulada para os demais, uma porção equivalente deve ser fisicamente retirada e entregue a ele, para que ele não seja lesado). E por que dobraram a proporção de orlá e kilei hakerem? Porque são proibidas em proveito (a explicação central da mishná: quanto mais abrangente a proibição — atingindo não só o consumo mas todo uso —, maior a proporção de diluição exigida para anulá-la).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná de abertura do Perek Bet.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Orlá 2:1
כְּבָר בֵּאַרְנוּ בְּמַסֶּכֶת תְּרוּמוֹת כִּי תְּרוּמָה עוֹלָה בְּאֶחָד וּמֵאָה, וּזְכַרְנוּ כִּי זֶה סָמְכוּ חֲכָמִים לְמַה שֶּׁאָמַר הַשֵּׁם יִתְבָּרַךְ בְּמַעֲשֵׂר מִן הַמַּעֲשֵׂר שֶׁהוּא אֶחָד מִמֵּאָה, אֶת מִקְדְּשׁוֹ מִמֶּנּוּ... וּלְפִי שֶׁכָּל אֵלּוּ יֵאָסְרוּ בְּמֵאָה, וְהִיא אֲסוּרָה בַּאֲכִילָה — רְצוֹנִי לוֹמַר לְזָרִים — וּמֻתֶּרֶת בַּהֲנָאָה, נָתְנוּ הָעָרְלָה וְהַכִּלְאַיִם, שֶׁהֵן אֲסוּרִין בַּאֲכִילָה וּבַהֲנָאָה, יַעֲלוּ בְּמָאתַיִם.

Já explicamos no tratado de Trumot que a trumá sobe em um e cem, e mencionamos que os Sábios apoiaram isto no que disse o Eterno sobre o dízimo do dízimo, que é um de cem: "seu consagrado dele" (Bemidbar 18:29 — a mesma medida da própria trumat maasser é usada como base para a regra de anulação: o que se separa de algo, se voltar a cair nele, o consagra novamente)... E porque todas estas [trumá, chalá, bicurim] se proíbem apenas em cem — e a trumá é proibida no consumo, ou seja, para os não-cohanim, mas permitida em proveito —, deram à orlá e ao kilayim, que são proibidos tanto em consumo quanto em proveito, [a proporção de] subir em duzentos (a lógica central: a severidade da proibição — abranger também o proveito — determina o dobro da medida de anulação).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Orlá 2:1
הַתְּרוּמָה. עוֹלִין בְּאֶחָד וּמֵאָה. אִם נָפְלָה סְאָה אַחַת מֵאֵלּוּ בְּמֵאָה סְאִין שֶׁל חֻלִּין, בְּטֵלָה וּמֻתָּרִים לְזָרִים... עוֹלִין בְּאֶחָד וּמָאתַיִם. דְּגַבֵּי תְּרוּמָה כְּתִיב מְלֵאָה, וּבְכִלְאֵי הַכֶּרֶם כְּתִיב מְלֵאָה... וּלְפִי שֶׁכָּפַל אִסּוּרוֹ, שֶׁהוּא אָסוּר בַּהֲנָאָה, כָּפְלוּ עֲלִיָּתוֹ וְצָרִיךְ מָאתַיִם.

"A trumá... sobe em um e cem": se caiu uma medida destes em cem medidas de comum, [a proibição] se anula e é permitido aos não-cohanim. Em menos de cem, tudo fica proibido aos não-cohanim (o limiar exato: cem medidas de comum são necessárias para anular uma de trumá). [Sobre a base bíblica] "sobe em um e duzentos": pois a respeito da trumá está escrito "cheia" [meleatecha, Shemot 22:28], e a respeito de kilei hakerem também está escrito "cheia" [pen tikdash hameleá, Devarim 22:9] (uma analogia textual — guezerá shavá — que liga as duas leis pela palavra comum "cheia", derivando de trumá a regra de anulação de kilei hakerem). E porque dobrou sua proibição, que é proibida em proveito, dobraram sua elevação, e precisa de duzentos (explicação idêntica à do Rambam: proibição mais severa exige proporção maior). E a orlá deriva-se do kilayim, por ser proibida em proveito como eles.

Massechet Orlá não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi foi omitido em todas as mishnayot deste tratado.