A orlá eleva o kilayim, e o kilayim a orlá, e a orlá a orlá (três variações do mesmo mecanismo: qualquer uma destas proibições, já anulada numa mistura, pode servir de base para anular uma segunda, de nome diferente — ou até do mesmo nome, no caso de neta revai, entendido aqui como uma segunda forma de "orlá" — caída na mesma mistura). Como assim? Uma medida de orlá que caiu em duzentos (de alimento comum, ficando assim anulada, pois duzentos é a proporção que anula orlá), e depois caiu uma medida e mais de orlá, ou uma medida e mais de kilei hakerem (uma quantidade que, isolada, seria maior que a proporção mínima necessária para ser anulada por duzentos, mas que, somada à medida original já anulada, permanece dentro da proporção), este é o caso em que a orlá eleva o kilayim, e o kilayim a orlá, e a orlá a orlá (o princípio se aplica nas três direções: a primeira proibição, uma vez neutralizada, participa da massa que absorve e neutraliza a segunda, seja ela kilei hakerem ou uma nova ocorrência de orlá).
A mishná continua a desenvolver, sem nova fonte bíblica direta, o mecanismo de elevação recíproca entre proibições de proporção duzentos-para-um.
Por que a mishná precisaria dizer "a orlá eleva a orlá", se orlá é um único nome — ela não poderia simplesmente se anular a si mesma por definição? Como explicam Rambam e Bartenura, duas ocorrências do mesmo nome de proibição normalmente não se ajudam mutuamente a anular — pois, se ambas são "orlá" no sentido estrito, elas apenas se somam para tornar a proibição maior, nunca menor. Por isso, os comentadores entendem que uma das duas ocorrências mencionadas aqui deve necessariamente ser neta revai — tecnicamente chamada de "orlá" por sua origem comum, mas halachicamente um "segundo nome" distinto o suficiente para poder servir de base de anulação recíproca com a orlá propriamente dita.
O Rambam codifica este terceiro caso de elevação recíproca em Hilchot Maachalot Assurot 16:19.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná, especialmente sobre o sentido de "a orlá eleva a orlá".
Quando caiu uma medida de orlá em duzentas de comum, ficando o total duzentas e uma, e depois caiu, nestas duzentas e uma, uma medida e mais de kilei hakerem... então o kilei hakerem sobe em um e duzentos, porque contamos a medida de orlá [como parte da massa diluidora], e o kilei hakerem se torna uma fração das duzentas medidas que são comum mais a medida de orlá (o Rambam explica passo a passo a mecânica aritmética: a medida original de orlá, apesar de originalmente proibida, uma vez anulada nas duzentas de comum, passa a ser contada, para efeitos do cálculo seguinte, como parte da massa "permitida" que ajudará a diluir o kilei hakerem caído depois).
"E a orlá a orlá": é necessário dizer que uma delas é neta revai, pois são dois nomes [tecnicamente distintos], já que não é possível que uma proibição de um único nome anule parte de si mesma com outra parte de si mesma (o esclarecimento central do Bartenura: as duas ocorrências de "orlá" no texto da mishná não podem ser literalmente duas porções da mesma proibição, pois neste sistema uma proibição nunca se autoanula — ela precisa de um segundo nome, tecnicamente diferente, para funcionar como base de diluição). E o tanna chama a neta revai de "orlá", pois provém da orlá (a razão da nomenclatura: o fruto do quarto ano de uma árvore é, na origem, o "sucessor" imediato do período de orlá — a mesma árvore, um ano depois — por isso herda o nome, ainda que sua halachá seja distinta: santidade a ser resgatada, e não proibição absoluta).