Dostai, homem de Kfar Yitmá, era dos discípulos de Beit Shamai (identificação do transmissor: um sábio que se identificava com a escola de Shamai, e por isso sua testemunha sobre o próprio fundador da escola tem peso especial), e disse: ouvi de Shamai o Velho, que disse (uma tradição oral direta, atribuída à fonte primária da escola, e não a uma formulação posterior de "Beit Shamai" como escola): nunca torna impuro, a menos que haja nele o volume de um ovo (a mesma posição que a mishná anterior atribuiu a Beit Hilel — sugerindo que a posição original do próprio Shamai coincidia, neste ponto específico, com a de Hilel, e que a disputa reportada em 2:4 talvez reflita uma evolução ou uma versão distinta da tradição da escola de Shamai).
Esta mishná não introduz um novo tema halachico, mas uma tradição de transmissão sobre a mishná anterior — por isso não há fonte bíblica adicional além da já discutida em 2:4.
Por que a mishná preserva um testemunho que parece contradizer a atribuição da mishná anterior? A tradição rabínica valoriza a preservação de vozes divergentes, mesmo quando colocam em xeque a exatidão de uma atribuição escolar. O testemunho de Dostai, ao citar diretamente as palavras do fundador da escola, serve de alerta metodológico: a atribuição de uma posição a "Beit Shamai" como coletivo pode não refletir com precisão o que o próprio Shamai ensinou pessoalmente aos seus primeiros discípulos. Esta mishná, portanto, funciona quase como uma nota de rodapé histórica dentro do próprio texto da Mishná — um caso em que a tradição registra sua própria incerteza sobre a atribuição precisa de uma opinião.
Não há uma halachá dedicada específica do Rambam para este testemunho de transmissão — a halachá prática já foi fixada na mishná anterior (2:4), seguindo a posição de Beit Hilel (o volume de um ovo), e é essa mesma posição que Dostai atesta aqui como remontando ao próprio Shamai o Velho. Por isso, não há aqui um novo dispositivo halachico do Rambam a registrar, além do já citado em 2:4.
O que os comentadores dizem sobre esta breve mishná de transmissão.
Já sabes o princípio de que a impureza de alimentos [se dá] no volume de um ovo, seja quem for que o disse (o Rambam comenta com brevidade proposital: como o princípio em si — a medida de "ovo" — já foi estabelecido e explicado na mishná anterior, não há necessidade de repetir a explicação técnica; o que esta mishná acrescenta é apenas a questão da atribuição da tradição, não um novo conteúdo halachico).
O Bartenura não comenta esta mishná especificamente — provavelmente por considerá-la autoexplicativa em seu conteúdo (idêntico ao da posição de Beit Hilel na mishná anterior), restando apenas a questão de atribuição histórica, já suficientemente clara no texto da própria mishná.