Seder Zeraim · Massechet Orlá · Perek Bet · Mishná 6

"E por que disseram: todo o que fermenta..."

וּלְמָה אָמְרוּ כָּל הַמְחַמֵּץ וְהַמְתַבֵּל וְהַמְדַמֵּעַ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná volta ao princípio de 2:4 para esclarecer uma condição essencial que ali ficara implícita: a regra de que "fermentar e temperar proíbe em qualquer quantidade" só se aplica quando o alimento proibido é do mesmo tipo do permitido (mesmo grão); quando os tipos são diferentes, rege outro critério — o sabor perceptível — que ora facilita, ora dificulta a anulação

E por que disseram: todo o que fermenta, e tempera, e mistura, para ser mais rigoroso? (a mishná retoma a regra de 2:4 — que qualquer quantidade de fermento ou tempero proibido torna tudo proibido — e pergunta pelas condições exatas dessa aplicação) Tipo com seu próprio tipo (a resposta: essa regra rigorosa de "qualquer quantidade" vale apenas quando o fermento ou tempero proibido é do mesmo tipo de grão ou alimento que o permitido no qual caiu). Para ser mais leniente e mais rigoroso, tipo com tipo diferente (quando os tipos são diferentes, aplica-se um critério distinto — às vezes mais leniente, às vezes mais rigoroso, dependendo do sabor perceptível). Como assim? Fermento de trigo que caiu dentro de uma massa de trigo (exemplo do primeiro caso: mesmo tipo com mesmo tipo), e há nele o suficiente para fermentar, seja havendo nele o suficiente para subir em um e cem, seja não havendo nele o suficiente para subir em um e cem, é proibido (quando os tipos são idênticos, a proibição de "qualquer quantidade" prevalece incondicionalmente sobre o critério de proporção). Não havendo nele o suficiente para subir em cem e um, seja havendo nele o suficiente para fermentar, seja não havendo nele o suficiente para fermentar, é proibido (mesmo sem capacidade de fermentar ativamente, a proporção insuficiente de cem-e-um já basta, por si só, para proibir — reafirmando que, no caso de mesmo tipo, há dois caminhos independentes e cumulativos para a proibição: o efeito de fermentação, ou a simples insuficiência da proporção).

וּלְמָה אָמְרוּ כָּל הַמְחַמֵּץ וְהַמְתַבֵּל וְהַמְדַמֵּעַ לְהַחֲמִיר, מִין בְּמִינוֹ. לְהָקֵל וּלְהַחֲמִיר, מִין בְּשֶׁאֵינוֹ מִינוֹ. כֵּיצַד, שְׂאֹר שֶׁל חִטִּים שֶׁנָּפַל לְתוֹךְ עִסַּת חִטִּים, וְיֵשׁ בּוֹ כְדֵי לְחַמֵּץ, בֵּין שֶׁיֵּשׁ בּוֹ לַעֲלוֹת בְּאֶחָד וּמֵאָה וּבֵין שֶׁאֵין בּוֹ לַעֲלוֹת בְּאֶחָד וּמֵאָה, אָסוּר. אֵין בּוֹ לַעֲלוֹת בְּמֵאָה וְאֶחָד, בֵּין שֶׁיֵּשׁ בּוֹ כְדֵי לְחַמֵּץ, בֵּין שֶׁאֵין בּוֹ כְדֵי לְחַמֵּץ, אָסוּר:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A mishná continua a desenvolver, sem nova fonte bíblica direta, a distinção entre proibições que agem por efeito (fermentar/temperar) e proibições regidas por proporção volumétrica.

Bemidbar (Números) 18:29 — base da proporção de trumá
מִכֹּל מַתְּנֹתֵיכֶם תָּרִימוּ אֵת כָּל תְּרוּמַת ה׳... אֶת מִקְדְּשׁוֹ מִמֶּנּוּ.
A base bíblica da proporção de cem-para-um da trumá, já discutida em 2:1, agora aplicada especificamente ao caso de "tipo com seu próprio tipo" — quando o fermento de trumá e a massa comum são do mesmo grão (trigo com trigo), de modo que a proporção numérica de cem se torna relevante como critério adicional, cumulativo ao critério de "fermentar".

Por que a distinção entre "mesmo tipo" e "tipo diferente" é tão importante a ponto de merecer uma mishná dedicada? Porque ela evita um mal-entendido crítico sobre a regra de 2:4. Sem esta mishná, poder-se-ia pensar que "fermentar ou temperar proíbe em qualquer quantidade" é uma regra absoluta, válida mesmo quando os dois alimentos são de tipos completamente diferentes (por exemplo, um tempero de gergelim caindo num prato de carne). A mishná esclarece que não é assim: a regra da "quantidade zero" vale apenas quando ambos os elementos compartilham o mesmo tipo — pois aí o efeito de fermentação e a proximidade de tipo se reforçam mutuamente. Quando os tipos diferem, o critério muda para o sabor perceptível (noten taam), que será explicado com exemplo próprio na mishná seguinte.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam sintetiza esta distinção geral em Hilchot Maachalot Assurot 15:1 e 16:1-2.

Rambam · Hilchot Maachalot Assurot 15:1
דָּבָר אָסוּר שֶׁנִּתְעָרֵב בְּדָבָר מֻתָּר, מִין בְּשֶׁאֵינוֹ מִינוֹ בְּנוֹתֵן טַעַם. וּמִין בְּמִינוֹ שֶׁאִי אֶפְשָׁר לַעֲמֹד עַל טַעֲמוֹ יִבָּטֵל בְּרֹב.
Uma coisa proibida que se misturou com uma coisa permitida: tipo com tipo diferente, [o critério é] o sabor perceptível. E tipo com seu próprio tipo, quando não é possível discernir seu sabor, anula-se pela maioria (o princípio geral que fundamenta esta mishná: quando os tipos são diferentes, o paladar consegue, em teoria, distinguir o sabor do elemento proibido, por isso o critério é justamente esse sabor; quando os tipos são idênticos, o paladar não consegue distinguir, e por isso o critério passa a ser a proporção — exceto quando, como no caso do fermento, o próprio efeito ativo do elemento proibido já denuncia sua presença, dispensando também a proporção).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Orlá 2:6
לְפִי שֶׁאָמַר בְּמַה שֶּׁקָּדַם הַמְחַמֵּץ וְהַמְתַבֵּל וְהַמְדַמֵּעַ, לֹא בֵּאַר שֶׁזֶּה הוּא בְּמִינוֹ בִּלְבַד, שָׁאַל וְאָמַר וּלְמָה אָמְרוּ כָּל הַמְחַמֵּץ וְכוּ', וְהַתְּשׁוּבָה מֻבְלַעַת בַּדִּמְיוֹן, רְצוֹנִי לוֹמַר בְּאָמְרָם כֵּיצַד.

Porque disse, no que precedeu, "o que fermenta, tempera e mistura", [a mishná anterior] não esclareceu que isto se aplica apenas a [mesmo] tipo, [esta mishná] pergunta e diz "e por que disseram: todo o que fermenta etc." — e a resposta está embutida no exemplo, ou seja, em dizerem "como assim" (o Rambam nota a estrutura retórica: a mishná formula uma pergunta explícita sobre a mishná anterior, e sua resposta vem não como uma declaração abstrata, mas através do próprio exemplo prático que se segue — o fermento de trigo em massa de trigo).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Orlá 2:6
וּלְמָה אָמְרוּ. כְּמוֹ וּבַמֶּה אָמְרוּ, כְּלוֹמַר בְּאֵיזֶה עִנְיָן אָמְרוּ שֶׁהַמְחַמֵּץ חֻלִּין בִּשְׂאֹר שֶׁל תְּרוּמָה... שֶׁאָנוּ הוֹלְכִים הַכֹּל לְהַחֲמִיר, וּמְשַׁנֵּי מִין בְּמִינוֹ.

"E por que disseram": como se dissesse "e em que assunto disseram" — ou seja, em que circunstância disseram que quem faz fermentar o alimento comum com fermento de trumá... segue-se sempre para o rigor, e ele responde: [quando é] tipo com seu próprio tipo (o Bartenura confirma a leitura do Rambam: a pergunta da mishná busca precisamente as condições — "em que circunstância" — sob as quais a regra rigorosa de 2:4 se aplica sem exceção).

Massechet Orlá não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi foi omitido em todas as mishnayot deste tratado.