Seder Zeraim · Massechet Orlá · Perek Guimel · Mishná 2

"O que tinge um fio com cascas de orlá"

הַצּוֹבֵעַ מְלֹא הַסִּיט בִּקְלִפֵּי עָרְלָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Continuando o tema da mishná anterior, este caso reduz a quantidade tingida a um fio de tamanho mínimo — melo hasit — tecido numa roupa maior, sem que se saiba em qual parte do tecido ele está; a mesma disputa entre Rabi Meir e os Sábios se repete, agora sobre uma quantidade proibida ainda menor, ilustrando que o critério de "objeto que costuma ser contado" não depende do tamanho da porção proibida, mas de sua identidade

O que tinge um fio de tamanho mínimo (melo hasit, uma medida técnica mínima de comprimento de fio, suficiente para ser considerada uma porção significativa de tingimento) com cascas de orlá, e o teceu numa roupa, e não se sabe qual é ele (o fio tingido se perdeu, indistinguível, entre os demais fios da roupa tecida), Rabi Meir diz: a roupa será queimada (mantendo sua posição da mishná anterior: um item identificável e "que costuma ser contado" — mesmo reduzido a um único fio — não se anula por proporção, e proíbe toda a peça em que se perdeu). E os Sábios dizem: sobe em um e duzentos (mantendo igualmente sua posição: mesmo esse fio individual se submete à regra padrão de anulação de proibições vedadas em proveito).

הַצּוֹבֵעַ מְלֹא הַסִּיט בִּקְלִפֵּי עָרְלָה, וַאֲרָגוֹ בְבֶגֶד, וְאֵין יָדוּעַ אֵיזֶה הוּא, רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר, יִדָּלֵק הַבֶּגֶד. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, יַעֲלֶה בְאֶחָד וּמָאתָיִם:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A mesma base bíblica da mishná anterior — a proibição de proveito de orlá — sustenta este segundo caso, que reduz a escala do exemplo sem alterar o princípio.

Vayikrá (Levítico) 19:23
וְכִי תָבֹאוּ אֶל הָאָרֶץ וּנְטַעְתֶּם כָּל עֵץ מַאֲכָל, וַעֲרַלְתֶּם עָרְלָתוֹ אֶת פִּרְיוֹ, שָׁלֹשׁ שָׁנִים יִהְיֶה לָכֶם עֲרֵלִים, לֹא יֵאָכֵל.
A mesma proibição bíblica de proveito discutida na mishná anterior. Aqui, a mishná testa o limite mínimo do princípio: mesmo um único fio tingido — a menor unidade prática de tingimento reconhecida pela Halachá — carrega a mesma proibição de proveito de um lote inteiro de cascas, e gera a mesma disputa sobre se objetos identificáveis se anulam por proporção.

Por que a mishná repete quase literalmente a estrutura da anterior, mudando apenas a escala? A repetição deliberada demonstra que o critério de Rabi Meir — "objeto que costuma ser contado" — não é uma função do tamanho da porção proibida, mas de sua natureza. Um fio único, por menor que seja, ainda é uma unidade individualizável dentro do tecido; por isso a disputa entre Rabi Meir e os Sábios se mantém idêntica, independentemente de se tratar de uma roupa inteira tingida (mishná 1) ou de um único fio tecido dentro dela (mishná 2). A mishná prepara, assim, o terreno para a mishná seguinte, que aplicará esse mesmo debate a lã e pelo de origem sacrificial ou consagrada.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam trata deste caso em conjunto com o da mishná anterior, em Hilchot Maachalot Assurot, capítulo 16, halachá 21, também adotando a posição dos Sábios.

Rambam · Hilchot Maachalot Assurot 16:21
וְכֵן בֶּגֶד שֶׁאָרַג בּוֹ מְלֹא הַסִּיט שֶׁצְּבָעוֹ בָּעָרְלָה וְאֵין יָדוּעַ אֵי זֶה הוּא יַעֲלֶה בְּאֶחָד וּמָאתַיִם. נִתְעָרְבוּ סַמָּנֵי עָרְלָה בְּסַמָּנֵי הֶתֵּר יַעֲלוּ בְּאֶחָד וּמָאתַיִם.
E, do mesmo modo, uma roupa em que se teceu um fio de tamanho mínimo tingido com orlá, e não se sabe qual é ele, sobe em um e duzentos (o Rambam estende explicitamente a regra da mishná anterior a este caso, confirmando a posição dos Sábios contra Rabi Meir). Se os corantes de orlá se misturaram com corantes permitidos, sobem em um e duzentos (o Rambam acrescenta um caso correlato, não explícito na mishná: mesmo antes do tingimento, uma mistura de corantes de orlá com corantes comuns já se submete à mesma proporção, reforçando que o critério relevante é sempre a proporção, e não a identidade do objeto final).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná, incluindo a definição técnica de melo hasit.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Orlá 3:2
הַסִּיט הוּא שְׁתוּת הַזֶּרֶת וְרָאִיתִי בָּזוּ הַמִּלָּה פֵּרוּשִׁים הַרְבֵּה, וְזָכַרְתִּי מֵהֶם פָּחוֹת שֶׁבַּשִּׁעוּרִים לְחֻמְרָא, וְנִתְחַזֵּק אֶצְלִי זֶה הַפֵּרוּשׁ מִפְּנֵי שֶׁהוּא פֵּרוּשׁ הַקַּדְמוֹנִים, וְהַקַּדְמוֹן הוּא יוֹתֵר חָכָם בַּלָּשׁוֹן מִן הָאַחֲרוֹן. וְהִשְׁמִיעָנוּ בַּהֲלָכָה הַקּוֹדֶמֶת קֻלָּא לַחֲכָמִים אֲפִלּוּ בְּבֶגֶד שֶׁנִּצְבַּע כֻּלּוֹ יַעֲלֶה, וּבָזוּ הַהֲלָכָה הִשְׁמִיעָנוּ חֻמְרָא לְרַבִּי מֵאִיר שֶׁאָמַר אֲפִלּוּ חוּט אֶחָד כְּשֶׁנִּצְבַּע בְּבֶגֶד יִשָּׂרֵף כֻּלּוֹ, וְהֲלָכָה כַּחֲכָמִים.

O "sit" é um sexto do "zeret" (zeret é uma medida de comprimento entre o polegar e o dedo indicador esticados; o Rambam define hasit como uma fração dessa medida), e vi nesta palavra muitas explicações, e mencionei delas a menor entre as medidas, para a estringência, e este entendimento se fortaleceu para mim porque é a explicação dos antigos, e o antigo é mais sábio na língua do que o posterior (o Rambam explica sua metodologia: entre as várias definições possíveis de hasit, prefere a mais rigorosa por refletir a tradição lexical mais antiga). E a halachá anterior nos ensinou uma leniência para os Sábios — que mesmo numa roupa inteiramente tingida, sobe [na proporção] —, e esta halachá nos ensinou uma estringência para Rabi Meir, que disse que mesmo um único fio, quando tecido numa roupa, faz com que ela toda seja queimada; e a halachá segue os Sábios (o Rambam nota o paralelo estrutural entre as duas mishnayot consecutivas: cada uma ilustra o mesmo debate a partir de um extremo diferente — o caso máximo, mishná 1, e o caso mínimo, mishná 2).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Orlá 3:2
מְלֹא הַסִּיט. הוּא כְּדֵי הֶפְסֵק שֶׁיֵּשׁ בֵּין אַמָּה לְאֶצְבַּע, כָּל מַה שֶּׁיָּכוֹל לְהַרְחִיבוֹ. וְהֶפְסֵק שֶׁיֵּשׁ בֵּין הָאֲגֻדָּל לָאֶצְבַּע כָּל מַה שֶׁיּוּכַל לְהַרְחִיבוֹ הוּא הַסִּיט כָּפוּל, לְפִי שֶׁהוּא כָּפוּל מִמַּה שֶּׁיֵּשׁ בֵּין אַמָּה לָאֶצְבַּע. וּמְלֹא הַסִּיט הוּא שִׁעוּר חָשׁוּב לְאִסּוּר, הִלְכָּךְ כְּשֶׁאֲרָגוֹ בְבֶגֶד וְאֵין יָדוּעַ אֵיזֶה הוּא, רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר יִדָּלֵקוּ, לְטַעֲמֵיהּ, וַחֲכָמִים אוֹמְרִים יַעֲלוּ בְאֶחָד וּמָאתָיִם לְטַעֲמַיְהוּ, כִּפְלֻגְתָּא דִלְעֵיל:

"Melo hasit": é o espaço que há entre o dedo médio e o indicador, todo o quanto se pode abri-lo. E o espaço entre o polegar e o indicador, todo o quanto se pode abri-lo, é o "sit dobrado", pois é o dobro do que há entre o dedo médio e o indicador (o Bartenura oferece uma definição gestual concreta, alternativa à do Rambam, mas convergente na ideia de uma medida mínima e reconhecível). E "melo hasit" é uma medida considerável para efeito de proibição (apesar de pequena, essa quantidade de fio já é suficiente para carregar a proibição de orlá); por isso, quando o teceu numa roupa e não se sabe qual é ele, Rabi Meir diz que será queimada, segundo sua linha de raciocínio, e os Sábios dizem que sobe em um e duzentos, segundo a sua — como a disputa anterior (o Bartenura confirma que se trata exatamente da mesma disputa da mishná 1, apenas aplicada a uma quantidade menor).

Massechet Orlá não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi foi omitido em todas as mishnayot deste tratado.