Seder Zeraim · Massechet Orlá · Perek Guimel · Mishná 3

"O que tece lã de bechor"

הָאוֹרֵג מְלֹא הַסִּיט מִצֶּמֶר הַבְּכוֹר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná estende o padrão das duas anteriores — tecido contaminado por material proibido em quantidade mínima — a três novos casos fora do domínio de orlá: lã de um animal primogênito com defeito, pelo de um nazireu, e pelo de um asno primogênito não resgatado, todos proibidos em proveito; e conclui com a regra geral de que objetos consagrados (hekdesh) proíbem em qualquer quantidade, sem necessidade de proporção alguma

O que tece um fio de tamanho mínimo de lã de bechor numa roupa, a roupa será queimada (bechor, animal primogênito com defeito físico que o desqualifica para sacrifício — sua lã é proibida em proveito, tal como a orlá, pela mesma lógica de contaminação de um tecido inteiro). E de pelo de nazireu e de asno primogênito, num saco, o saco será queimado (pelo de nazireu — os cabelos que o nazireu deve raspar e queimar ao final de seu voto — e pelo de um asno primogênito não resgatado são igualmente proibidos em proveito; a mishná usa "saco" em vez de "roupa" por ser o produto têxtil típico tecido a partir de pelo, em vez de lã). E, em objetos consagrados, santificam em qualquer quantidade (regra geral distinta: quando o material contaminante é hekdesh — propriedade consagrada ao Templo —, ele proíbe o todo mesmo na menor quantidade imaginável, sem exigir sequer o melo hasit que os casos anteriores requerem).

הָאוֹרֵג מְלֹא הַסִּיט מִצֶּמֶר הַבְּכוֹר בְּבֶגֶד, יִדָּלֵק הַבֶּגֶד. וּמִשְּׂעַר הַנָּזִיר וּמִפֶּטֶר חֲמוֹר בְּשַׂק, יִדָּלֵק הַשָּׂק. וּבְמֻקְדָּשִׁין, מְקַדְּשִׁין כָּל שֶׁהֵן:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A mishná se afasta pela primeira vez do tema estrito de orlá, mas aplica ao bechor, ao nazireu e ao peter chamor as mesmas fontes bíblicas de proibição de proveito já vistas.

Devarim (Deuteronômio) 15:19 · Bemidbar (Números) 6:18
כָּל הַבְּכוֹר אֲשֶׁר יִוָּלֵד בִּבְקָרְךָ וּבְצֹאנְךָ הַזָּכָר, תַּקְדִּישׁ לַה׳ אֱלֹהֶיךָ... לֹא תַעֲבֹד בִּבְכֹר שׁוֹרֶךָ, וְלֹא תָגֹז בְּכוֹר צֹאנֶךָ. וְגִלַּח הַנָּזִיר פֶּתַח אֹהֶל מוֹעֵד אֶת רֹאשׁ נִזְרוֹ, וְלָקַח אֶת שְׂעַר רֹאשׁ נִזְרוֹ וְנָתַן עַל הָאֵשׁ אֲשֶׁר תַּחַת זֶבַח הַשְּׁלָמִים.
A Torá proíbe explicitamente tosquiar a lã de um animal primogênito ("não tosquiarás o primogênito de teu rebanho") — daí a proibição de proveito de sua lã. Quanto ao nazireu, a Torá ordena que, ao final de seu voto, ele raspe os cabelos que deixou crescer e os queime sob o sacrifício de paz — um ato que a tradição rabínica entende como consagrando esses cabelos, proibindo qualquer outro uso deles. E o pai do jumento (peter chamor), quando não resgatado por um cordeiro, deve ter a nuca quebrada (Shemot 13:13) — sendo então, segundo a mishná, comparado à égua sacrificada por decapitação (eglá arufá), proibida em proveito.

Por que a mishná, dedicada a orlá, se estende a temas tão distintos como bechor, nazireu e pether chamor? A resposta está no critério comum que une todos esses casos: a proibição de proveito (issur hana'á), independentemente de sua origem — seja agrícola (orlá, kilei hakerem), seja relacionada a animais consagrados ou votivos. O Perek Guimel usa esse denominador comum para expandir o escopo prático do princípio de anulação por proporção estabelecido no Perek Bet, mostrando que ele se aplica a toda proibição de proveito misturada em tecido — não apenas à de orlá. A mishná também introduz aqui, pela primeira vez no capítulo, a categoria oposta: hekdesh, que não se submete a proporção alguma, preparando o terreno para a discussão mais ampla das mishnayot 7-8 sobre o que "santifica em qualquer quantidade".

Halachot · הֲלָכוֹת

Como esta mishná se afasta do tema estrito de orlá, registra-se honestamente que não localizamos, nas obras diretamente associadas a este tratado, uma halachá dedicada e paralela do Rambam cobrindo especificamente bechor, nazireu e pether chamor tecidos em tecido — esses temas pertencem principalmente a Hilchot Bechorot, Hilchot Nezirut e Hilchot Bikurim.

Nota editorial
O Rambam codifica as proibições de proveito da lã do bechor com defeito, do pelo do nazireu e do pether chamor em Hilchot Bechorot, Hilchot Nezirut e Hilchot Bikurim, respectivamente — fora do escopo direto de Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva ou Hilchot Maachalot Assurot, associadas a este tratado. Não localizamos, nessas obras mais próximas de Orlá, uma halachá que trate especificamente do caso combinado — tecido contaminado por esses materiais em quantidade mínima — como faz esta mishná. A explicação halachica do caso específico de mistura em tecido permanece registrada no perush do Rambam à própria mishná, citado abaixo, que remete a essas outras áreas do Mishné Torá.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná, que estende o tema a bechor, nazireu, pether chamor e hekdesh.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Orlá 3:3
צֶמֶר הַבְּכוֹר צִוָּה הַשֵּׁם יִתְבָּרַךְ שֶׁלֹּא לִגְזֹז הַבְּכוֹר, שֶׁנֶּאֱמַר לֹא תָגֹז בְּכוֹר צֹאנֶךָ. וּשְׂעַר הַנָּזִיר צִוָּה לְשָׂרְפוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר וְלָקַח אֶת שְׂעַר רֹאשׁ נִזְרוֹ וְנָתַן עַל הָאֵשׁ. וּפֶטֶר חֲמוֹר כְּשֶׁנֶּעֱרַף יִקָּבֵר, וְכָל אֵלּוּ מִכְּלַל אִסּוּרֵי הֲנָאָה, כְּמוֹ שֶׁנִּתְבָּאֲרוּ רְאָיוֹתֵיהֶם בְּזוּלַת זֶה הַמָּקוֹם. וְשַׂק נִקְרָא הַבֶּגֶד הָאָרוּג מִן הַשֵּׂעָר, וְלֹא נֶאֱמַר בָּזוּ תַּעֲלֶה, לְפִי שֶׁלֹּא נָתַן בָּהֶם הַכָּתוּב שִׁעוּר בְּשׁוּם פָּנִים.

A lã do bechor, o Eterno ordenou que não se tosquiasse o bechor, como está dito: "não tosquiarás o primogênito de teu rebanho". E o pelo do nazireu ordenou que se queimasse, como está dito: "e tomará o cabelo de sua cabeça consagrada e o dará sobre o fogo". E o pether chamor, quando decapitado, será enterrado (o Rambam explica que, após a nuca quebrada, o corpo do animal deve ser enterrado, não aproveitado), e todos estes pertencem à categoria das proibições de proveito, como já se explicaram suas provas em outro lugar (remetendo a tratados dedicados a cada tema — Bechorot, Nazir). E "saco" chama-se a roupa tecida de pelo, e não se disse a respeito deste "sobe [em proporção]", porque a Escritura não lhes deu medida de nenhum modo (o ponto central do Rambam: diferente da lã de orlá ou de kilei hakerem, que têm uma proporção explícita de anulação — 1:200 —, esses três materiais não têm base bíblica para uma medida de anulação específica, permanecendo proibidos sem uma regra clara de diluição por proporção — questão que a mishná deixa em aberto e que o próprio Rambam reconhece como sem "medida" definida).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Orlá 3:3
מִצֶּמֶר הַבְּכוֹר. וְאָסוּר לִגְזֹז בְּכוֹר, שֶׁנֶּאֱמַר וְלֹא תָגֹז בְּכוֹר צֹאנֶךָ. וּבִבְכוֹר בַּעַל מוּם אַיְרֵי, וּלְהָכִי בָּעֵי מְלֹא הַסִּיט, דְּאִלּוּ בְּכוֹר תָּם הֲרֵי הוּא מֻקְדָּשִׁים, וּתְנַן וּבַמֻּקְדָּשִׁים מְקַדְּשִׁים כָּל שֶׁהוּא: מִשְּׂעַר הַנָּזִיר. וּשְׂעָרוֹ אָסוּר בַּהֲנָאָה שֶׁנֶּאֱמַר קָדוֹשׁ יִהְיֶה גַּדֵּל פֶּרַע, גִּדּוּלוֹ שֶׁל פֶּרַע יִהְיֶה קָדוֹשׁ: וּמִפֶּטֶר חֲמוֹר. לְאַחַר עֲרִיפָה כֻּלֵּי עַלְמָא מוֹדוּ דְּאָסוּר בַּהֲנָאָה, דְּגָמְרִינַן עֲרִיפָה עֲרִיפָה מֵעֶגְלָה עֲרוּפָה: בְּשַׂק. גַּבֵּי צֶמֶר תְּנָא בֶּגֶד וְגַבֵּי שֵׂעָר תְּנָא שַׂק דְּהָכִי אוֹרְחֵיהּ:

"De lã de bechor": e é proibido tosquiar um bechor, como está dito "não tosquiarás o primogênito de teu rebanho". E trata-se aqui de um bechor com defeito físico (baal mum, desqualificado para o altar), e por isso a mishná exige o "melo hasit" — pois um bechor sem defeito (tam) já é consagrado, e ensinamos que em objetos consagrados santificam em qualquer quantidade (o Bartenura explica a razão pela qual a mishná precisa desta medida mínima apenas para o bechor com defeito: só ele, por não ser hekdesh pleno, segue a regra comum de melo hasit; o bechor sem defeito já cai sob a regra final da própria mishná). "De pelo de nazireu": e seu pelo é proibido em proveito, como está dito "santo será, deixará crescer livremente a cabeleira de sua cabeça" — o crescimento livre de sua cabeleira será santo. "E de asno primogênito": depois da decapitação, todos concordam que é proibido em proveito, pois aprendemos [por analogia] "decapitação" e "decapitação" da égua decapitada (eglá arufá, Devarim 21, cujo ritual de decapitação por homicídio não resolvido serve de modelo textual para o pether chamor). "Em saco": a respeito da lã, a mishná ensinou "roupa", e a respeito do pelo, ensinou "saco", porque assim é seu uso costumeiro (distinção prática de vocabulário, não de substância — lã tende a ser tecida em roupas, pelo em sacos).

Massechet Orlá não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi foi omitido em todas as mishnayot deste tratado.