Rabi Meir diz: todo trabalho que a pessoa começou antes de catorze, ela o termina em catorze; mas não o começa desde o início em catorze, ainda que possa terminá-lo. — Para Rabi Meir, o critério decisivo não é se há tempo suficiente para concluir o trabalho antes do meio-dia, mas o momento em que ele foi iniciado. Um trabalho começado nos dias anteriores pode ser concluído em catorze, pois interrompê-lo no meio causaria prejuízo; mas iniciar algo totalmente novo nesse dia — mesmo que a tarefa seja rápida o bastante para terminar antes do meio-dia — está fora de questão, pois marcaria visivelmente esse dia como um dia comum de trabalho.
E os Sábios dizem: três ofícios trabalham nas vésperas de Pessach até o meio-dia, e estes são eles: os alfaiates, os barbeiros e os lavandeiros. — Ao contrário de Rabi Meir, os Sábios não olham para o momento em que o trabalho começou, mas para o tipo de ofício exercido. Esses três — alfaiates, barbeiros e lavandeiros — têm precedente de leniência mesmo nos dias intermediários da festa, quando alguém que retorna de viagem ou sai da prisão precisa cortar o cabelo, lavar as roupas ou consertar uma peça de roupa; por isso, no dia catorze, mais leve que o próprio chol hamoed, esses ofícios são permitidos a todos, em qualquer lugar.
Rabi Yossi bar Yehudá diz: também os sapateiros. — Rabi Yossi bar Yehudá justifica sua adição com a mesma lógica dos Sábios: assim como os peregrinos que sobem a Jerusalém para a festa consertam seus sapatos e sandálias nos dias intermediários, também os sapateiros deveriam ter permissão de trabalhar na véspera de Pessach até o meio-dia, para atender a essa mesma necessidade.
Este versículo, que trata dos dias de festa propriamente ditos, permite o trabalho de preparo de alimentos mesmo em dia proibido de trabalho — o princípio de "ochel nefesh" que serve de modelo para toda leniência ligada à necessidade imediata da festa. A mishná aplica um raciocínio análogo ao dia catorze, que tem apenas uma proibição rabínica de trabalho a partir do meio-dia: os ofícios que atendem a necessidades diretamente ligadas à preparação da festa — vestir-se, cortar o cabelo, calçar-se — recebem tratamento especial, seja pelo critério de continuidade de Rabi Meir, seja pela lista fixa dos Sábios.
O Rambam decide a halachá conforme os Sábios, listando os três ofícios permitidos e detalhando a razão de cada um segundo a mesma lógica do chol hamoed.
E mesmo em lugar onde costumavam realizar trabalho, não se começa desde o início um trabalho em catorze, ainda que se possa terminá-lo antes do meio-dia. Mas há apenas três ofícios nos quais é permitido começar trabalho em catorze até o meio-dia, em qualquer lugar: e estes são eles, os alfaiates, os barbeiros e os lavandeiros.
Rambam remete ao tratado Moed Katan sobre o precedente do leigo que costura e do que sai da prisão; Bartenura explica a razão de cada um dos três ofícios e a posição de Rabi Yossi bar Yehudá; Rashi, na Guemará, discute se a permissão dos Sábios vale apenas para necessidade da festa ou também fora dela.
"Rabi Meir diz: todo trabalho que a pessoa começou antes de catorze, etc.": ainda se explicará no tratado Moed Katan que o leigo costura, e assim quem sai da prisão corta o cabelo e lava a roupa; por isso os Sábios permitiram que esses três trabalhos se comecem em catorze, mas apenas em lugar onde costumavam.
E Rabi Meir diz que mesmo em lugar onde costumavam, não se realiza trabalho desde o início de forma alguma. E Rabi Yossi diz também os sapateiros, pois ele afirma que os peregrinos consertam seus sapatos e sandálias para subir à festa nos dias intermediários. E a halachá é conforme os Sábios.
"Os alfaiates" — permitidos em catorze em qualquer lugar, pois encontramos neles, nos dias intermediários, uma leniência maior que nos demais ofícios: o leigo que não é especialista costura como de costume; por isso, em catorze, mais leve que o chol hamoed, até o especialista também é permitido.
"E os barbeiros e os lavandeiros" — pois quem chega do exterior e quem sai da prisão cortam o cabelo e lavam a roupa nos dias intermediários; e já que encontramos neles um lado de permissão no chol hamoed, em catorze, mais leve, são permitidos a todos.
"Também os sapateiros" — pois os peregrinos consertam seus sapatos nos dias intermediários. Mas os Sábios entendem que não se aprende o início do trabalho dos sapateiros, que fazem sapatos novos desde o começo, a partir do fim do trabalho, que é o conserto de sapatos dos peregrinos. E a halachá é conforme os Sábios.
"A mishná: três ofícios trabalham" — em qualquer lugar, e o motivo se explica na Guemará. "Sapateiros" — os que fazem calçados.
"A Guemará pergunta: ensinamos a regra de Rabi Meir apenas para trabalho necessário à festa, ou talvez a tenhamos ensinado mesmo para trabalho não necessário à festa, e por isso não se pode começar — mas para trabalho necessário à festa, até começar seria permitido?" A Guemará explora essa distinção como possível chave para entender os limites exatos da opinião de Rabi Meir sobre o que pode, e o que não pode, ser iniciado em catorze.