Seis coisas fez o rei Chizkiyahu: por três concordaram com ele, e por três não concordaram com ele. — Assim como a mishná anterior avaliou separadamente os seis costumes dos homens de Jericó, ela agora aplica o mesmo padrão a um personagem de peso muito maior: o próprio rei Chizkiyahu, reconhecido por sua piedade e por suas reformas religiosas. Mesmo um rei justo tem seus atos julgados individualmente pelos Sábios — três deles reconhecidos como corretos, três como equivocados.
Arrastou os ossos de seu pai sobre uma maca de cordas, e concordaram com ele. Triturou a serpente de cobre, e concordaram com ele. Escondeu o livro de curas, e concordaram com ele. — Seu pai, o rei Achaz, foi um idólatra notório; ao arrastar seus ossos numa simples maca de cordas, em vez de um funeral digno de rei, Chizkiyahu expôs publicamente sua rejeição à idolatria paterna — um gesto de honra a D'us feito às custas da honra póstuma do próprio pai. Triturar a serpente de cobre que Moshé havia erguido no deserto foi igualmente aprovado, pois o povo, em vez de vê-la como lembrança histórica, havia passado a tratá-la como objeto de culto. E esconder o livro de curas — um compêndio que ensinava remédios para doenças — também recebeu aprovação, pois o povo se apoiava nele em vez de voltar o coração a D'us diante da doença.
Por três não concordaram com ele: cortou as portas do Santuário e as enviou ao rei da Assíria, e não concordaram com ele. Tapou as águas superiores do Guichon, e não concordaram com ele. Intercalou Nissan em Nissan, e não concordaram com ele. — Ao contrário dos três primeiros, esses atos não receberam a aprovação dos Sábios. Cortar as portas de ouro do Templo para pagar tributo ao rei assírio demonstrou falta de confiança na proteção Divina, quando bastava confiar na promessa de que Jerusalém seria protegida. Tapar as águas do Guichon, a fonte que abastecia a cidade, mesmo tendo sido uma medida defensiva sensata do ponto de vista militar, também revelou insegurança em vez de fé. E intercalar o ano — acrescentando um segundo mês de Adar — depois que o mês de Nissan já havia efetivamente começado, contrariou a regra de que a intercalação deve ocorrer antes que o novo mês seja fixado como Nissan.
A serpente de cobre foi originalmente erguida por Moshé como instrumento de cura, para que quem a contemplasse voltasse o coração a D'us e vivesse — um sinal, não um objeto de poder próprio. Com o passar das gerações, porém, o próprio objeto que Moshé fizera por ordem Divina se transformou, aos olhos do povo, num ídolo em si — daí a decisão de Chizkiyahu de triturá-la, restaurando sua função original de sinal e removendo o risco de idolatria que ela havia passado a representar.
Embora esta mishná narre episódios históricos e não codifique lei aplicável a todas as gerações, o Rambam a trata no Perush HaMishná como fonte de princípios práticos — sobre a proibição de meios de cura ligados à idolatria, e sobre os limites da intercalação do ano.
E ainda se explicará que é permitido intercalar o ano durante todo o mês de Adar, tornando aquele ano de dois Adares. E entre os princípios que temos: o Adar próximo a Nissan é sempre deficiente [de vinte e nove dias]... E Chizkiyahu, no trigésimo dia, intercalou o ano e fez do mês que entrava um segundo Adar; e se não tivesse intercalado aquele ano, o trigésimo dia de Adar seria o primeiro dia de Nissan... E isso não é permitido, pois o princípio entre nós é que não se intercala o ano no trigésimo dia de Adar, já que esse dia é apto a ser fixado como Nissan.
Rambam observa que esta mishná é, na origem, uma beraita, mas justifica explicá-la por sua utilidade, e detalha longamente a natureza do "livro de curas"; Bartenura resume o motivo de cada um dos seis atos; Rashi, na Guemará, acrescenta o versículo bíblico por trás de cada decisão de Chizkiyahu.
"Seis coisas fez o rei Chizkiyahu, por três, etc.": esta lei é, na origem, uma tosefta, mas achei por bem explicá-la, pois há nela proveito.
"Livro de curas" — era um livro cujo assunto era curar-se por meios que a Torá não permitiu para cura... E quando as pessoas corromperam seu caminho e passaram a se curar por meio desses meios, ele os removeu e os escondeu.
"Arrastou os ossos de seu pai" — por causa de expiação, e não o sepultou com sua honra devida sobre uma maca digna, para que se envergonhasse de sua maldade e os ímpios se corrigissem.
"Triturou a serpente de cobre" — conforme está escrito em Divré HaYamim, porque erravam atrás dela. "E escondeu o livro de curas" — porque seu coração não se humilhava diante da doença, mas se curavam de imediato.
"Intercalou Nissan em Nissan" — depois que Nissan já havia entrado, reconsiderou e fez um segundo Adar. E o versículo diz "este mês para vós" — este é Nissan, e não outro é Nissan. Mas Chizkiyahu não intercalou depois que Nissan de fato havia entrado; antes, no trigésimo dia de Adar intercalou o ano — e nós entendemos que não se intercala o ano no trigésimo dia de Adar, já que esse dia é apto a ser fixado como Nissan.
"Arrastou os ossos de seu pai" — por causa de expiação, e não o sepultou com honra em leito e maca digna, e por causa da santificação do Nome, para que se envergonhasse de sua maldade e os ímpios se corrigissem.
"Triturou a serpente de cobre" — porque erravam atrás dela. "E escondeu o livro de curas" — conforme está escrito "e o bom e reto a teus olhos fiz", e dizemos em Berachot que escondeu o livro de curas porque o coração deles não se humilhava diante dos doentes, mas se curavam de imediato.
"Tapou as águas do Guichon" — conforme está escrito "para que não venham os reis da Assíria e encontrem água para beber". "E não concordaram com ele" — pois deveria ter confiado no Santo, bendito seja, que disse "e protegerei esta cidade para salvá-la".