Quem viu a lua nova e não pode caminhar é conduzido em jumento, até mesmo em maca. — Ainda que fisicamente incapaz de percorrer o trajeto até Jerusalém, aquele que testemunhou a lua nova não fica dispensado de comparecer: pode ser transportado montado em um jumento, ou, se sua condição for ainda mais debilitada, carregado deitado em uma maca — mesmo que isso implique violar o Shabat pelo trajeto.
E se houver quem os emboscar, levam bastões em suas mãos. — Sabendo que grupos hostis, como os saduceus, costumavam armar emboscadas para impedir que as testemunhas chegassem a tempo e assim confundir os sábios quanto à fixação do calendário, era permitido às testemunhas portar bastões de defesa durante o trajeto, mesmo em Shabat.
E se o caminho for longo, levam mantimentos em suas mãos, pois por um trajeto de um dia e uma noite se profana o Shabat e se sai para testemunhar sobre a lua nova, como está dito: "Estas são as festas do Eterno, que convocareis em seu tempo". — Quando a distância exigia mais tempo de viagem, era permitido carregar comida, ainda que normalmente proibido carregar objetos em Shabat, pois toda essa cadeia de permissões — cavalgar, levar bastões, carregar mantimentos — deriva do mesmo princípio bíblico: as festas devem ser fixadas exatamente em seu tempo determinado, e esse mandamento tem prioridade sobre o repouso sabático.
É o mesmo verso citado na mishná que fundamenta toda a cadeia de permissões que ela lista: cavalgar, portar bastões, carregar mantimentos — tudo em nome de garantir que as festas caiam "em seu tempo determinado". A tradição lê "em seu tempo" como um mandamento tão determinante que se sobrepõe às proibições comuns do Shabat quando a própria fixação do calendário está em jogo — e por isso a mishná estende essa permissão até seus detalhes mais concretos e humanos: a testemunha idosa ou enferma que não consegue caminhar, o perigo de emboscada no caminho, a fome de quem viaja um dia e uma noite inteiros. Cada uma dessas permissões práticas é, em última análise, uma extensão do mesmo princípio: nenhum obstáculo, físico ou humano, deve impedir que o testemunho da lua nova chegue a tempo ao tribunal.
O Rambam remete o princípio de que a palavra "moed" sempre implica prioridade sobre o Shabat à discussão paralela do tratado de Pessachim; Bartenura detalha o sentido de "emboscar" e a base bíblica de cada moed.
"Quem viu a lua nova e não pode caminhar é conduzido etc." — já explicamos para ti no sexto capítulo do tratado de Pessachim que em todo lugar onde aparece a palavra "moed" na Escritura, quer-se dizer que o mandamento vale mesmo em Shabat, sobrepondo-se ao repouso sabático quando necessário para seu cumprimento em seu devido tempo.
"E se houver quem os emboscar" — "tzodê" significa emboscar, como em "e tu me emboscas [tzodê] a alma para tomá-la". "Como está dito: estas são as festas do Eterno" — e em todo lugar em que se diz "moed", "em seu tempo determinado", isso indica que o cumprimento pontual daquela mitzvá afasta a proibição do Shabat.
Rashi, no mesmo daf, explica o transporte em maca e identifica os grupos que armavam emboscadas contra as testemunhas.
"A mishná: quem viu a lua nova etc." — "conduzem-no" — mesmo em Shabat, montado sobre o animal ou carregado em maca, sem que isso constitua transgressão, pois a mitzvá do testemunho pontual sobrepõe-se à proibição comum. "E se houver quem os emboscar" — se houvesse pessoas à espreita no caminho, do verbo usado no versículo "e tu me emboscas a alma"; e eram os beitusim e os cutim que costumavam emboscá-los, para detê-los e assim induzir os sábios ao erro quanto à fixação correta do calendário.
Aqui se completa o Perek Alef — nove mishnayot dedicadas aos quatro inícios de ano e aos quatro momentos de julgamento do mundo (1:1-1:2), ao sistema de mensageiros que anunciavam o novo mês (1:3-1:4), à clareza da visão da lua e ao episódio de Rabi Akiva com as testemunhas excedentes (1:5-1:6), e às regras de testemunho sobre a lua nova — parentesco, desqualificação e as condições práticas da viagem até Jerusalém (1:7-1:9). O tratado prossegue no Perek Bet, sobre o exame das testemunhas pelo tribunal.