Seder Moed · Massechet Rosh Hashaná · Perek Bet · Mishná 5 de 9

Beit Yaazek, o pátio das testemunhas

חָצֵר גְּדוֹלָה הָיְתָה בִירוּשָׁלַיִם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Deixando o sistema de comunicação da diáspora, a mishná retorna a Jerusalém e descreve o local físico onde as testemunhas se reuniam e eram examinadas, além da instituição de Rabán Gamliel o Velho que resolveu o problema de quem chegava em Shabat tendo saído de fora do seu limite de caminhada.

Havia um grande pátio em Jerusalém, chamado Beit Yaazek, e ali todas as testemunhas se reuniam, e o tribunal as examinava ali. E faziam-lhes grandes banquetes, para que se acostumassem a vir.Um pátio específico em Jerusalém servia de ponto de encontro para todas as testemunhas da lua nova, onde o tribunal de setenta e um juízes as recebia e examinava; e, para incentivá-las a continuar vindo mesmo quando seu testemunho não fosse estritamente necessário, o tribunal lhes oferecia grandes banquetes.

No princípio, não se moviam dali o dia todo; instituiu Rabán Gamliel o Velho que caminhassem dois mil côvados para cada lado.Testemunhas que chegavam em Shabat, tendo saído de fora do limite permitido de caminhada de sua própria cidade, ficavam originalmente presas ao local todo o dia, restritas a quatro côvados; para não desencorajar sua vinda, Rabán Gamliel o Velho instituiu que lhes fosse concedido, a partir do ponto de chegada, o limite completo de dois mil côvados em cada direção.

E não apenas estas, mas também a parteira que vem para partejar, e quem vem para salvar de um incêndio, de uma tropa, de um rio ou de um desabamento — eis que estes são como os habitantes da cidade, e têm dois mil côvados para cada lado.A mesma concessão generosa se estende a qualquer pessoa que, em Shabat, saia de seu limite habitual para socorrer outros em situação de urgência — seja uma parteira chamada para um parto, seja alguém que corre para salvar vidas de um incêndio, de uma invasão militar, de uma enchente ou do desabamento de um prédio: todos são tratados, no lugar aonde chegam, como se já fossem moradores dali, com direito ao limite completo de caminhada.

חָצֵר גְּדוֹלָה הָיְתָה בִירוּשָׁלַיִם, וּבֵית יַעְזֵק הָיְתָה נִקְרֵאת, וּלְשָׁם כָּל הָעֵדִים מִתְכַּנְּסִים, וּבֵית דִּין בּוֹדְקִין אוֹתָם שָׁם. וּסְעוּדוֹת גְּדוֹלוֹת עוֹשִׂין לָהֶם בִּשְׁבִיל שֶׁיְּהוּ רְגִילִין לָבֹא. בָּרִאשׁוֹנָה לֹא הָיוּ זָזִין מִשָּׁם כָּל הַיּוֹם, הִתְקִין רַבָּן גַּמְלִיאֵל הַזָּקֵן שֶׁיְּהוּ מְהַלְּכִין אַלְפַּיִם אַמָּה לְכָל רוּחַ. וְלֹא אֵלּוּ בִלְבַד, אֶלָּא אַף הַחֲכָמָה הַבָּאָה לְיַלֵּד, וְהַבָּא לְהַצִּיל מִן הַדְּלֵקָה וּמִן הַגַּיִס וּמִן הַנָּהָר וּמִן הַמַּפֹּלֶת, הֲרֵי אֵלּוּ כְאַנְשֵׁי הָעִיר, וְיֵשׁ לָהֶם אַלְפַּיִם אַמָּה לְכָל רוּחַ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Bamidbar 35:5
וּמַדֹּתֶם מִחוּץ לָעִיר אֶת פְּאַת קֵדְמָה אַלְפַּיִם בָּאַמָּה, וְאֶת פְּאַת נֶגֶב אַלְפַּיִם בָּאַמָּה.
E medireis, fora da cidade, o lado leste, dois mil côvados; e o lado sul, dois mil côvados.

É a mesma medida — dois mil côvados — que a Torá determina como o campo aberto ao redor das cidades levíticas, e que a tradição interpretou como o limite geral de caminhada permitido em Shabat além dos limites da própria cidade. Rabán Gamliel não inventa uma nova medida: aplica a medida já consagrada pela Torá para as cidades levíticas ao caso concreto da testemunha que chega a Jerusalém tendo saído de sua própria cidade em Shabat. Ao conceder-lhe dois mil côvados a partir do ponto de chegada — como se aquele lugar já fosse "sua" cidade — Rabán Gamliel resolve um problema prático sem alterar a norma bíblica: simplesmente estende ao viajante em serviço da mitzvá o mesmo espaço de movimento que a Torá já concede a qualquer habitante em relação ao território ao redor de seu lugar de moradia.

Halachot · הֲלָכוֹת

Bartenura explica por que as testemunhas ficavam originalmente presas ao local; Rambam remete o desenvolvimento pleno da questão do techum ao tratado de Eruvin.

Bartenura · Rosh Hashaná 2:5
לֹא הָיוּ זָזִים מִשָּׁם כָּל הַיּוֹם. הָעֵדִים שֶׁיָּצְאוּ חוּץ לִתְחוּמָן בַּשַּׁבָּת וּבָאוּ לְהָעִיד. שֶׁהַיּוֹצֵא חוּץ לַתְּחוּם אֵין לוֹ אֶלָּא אַרְבַּע אַמּוֹת.

"Não se moviam dali o dia todo" — as testemunhas que saíam além de seu limite em Shabat e vinham testemunhar; pois quem sai além do limite não tem senão quatro côvados de movimento.

Rambam · Perush HaMishná, Rosh Hashaná 2:5
חָצֵר גְּדוֹלָה הָיְתָה בִירוּשָׁלַיִם וּבֵית יַעְזֵק הָיְתָה נִקְרֵאת כוּ': כָּל זֶה מְבֹאָר וּכְבָר קָדְמוּ עִקְּרֵי זֹאת הַהֲלָכָה הָאַחֲרוֹנָה בְּפֶרֶק הָרְבִיעִי מֵעֵרוּבִין.

"Havia um grande pátio em Jerusalém, chamado Beit Yaazek etc." — tudo isto é claro, e já precederam os princípios desta última halachá, sobre o limite de dois mil côvados, no quarto capítulo do tratado de Eruvin.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi explica a origem do nome Beit Yaazek e a expressão sobre a restrição das testemunhas presas em seu ponto de chegada.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Rosh Hashaná 23b
גְּמָ' וְיֵעָזְקֵהוּ — סִיְּגוֹ בְּגֶדֶר אֲבָנִים סָבִיב סָבִיב בְּעִגּוּל כְּמוֹ טַבַּעַת: לְשׁוֹן צַעֲרָא — עַל שֵׁם שֶׁאֲסוּרִין כְּאִלּוּ בְּזִיקִים שֶׁאֵין זָזִין מִשָּׁם כָּל הַיּוֹם: מַתְנִי' לֹא הָיוּ זָזִין מִשָּׁם — לְפִי שֶׁיָּצְאוּ חוּץ לַתְּחוּם וְהַיּוֹצֵא חוּץ לַתְּחוּם אֵין לוֹ אֶלָּא ד' אַמּוֹת: מִן הַנָּהָר — שֶׁהוּא גָדֵל פִּתְאוֹם וְשׁוֹטֵף אֶת בְּנֵי הָעִיר וְאֶת הַיְּלָדִים.

"Guemará: e o cercou" — cercou-o com um muro de pedras ao redor, em círculo, como um anel; e daí veio o nome, associado a uma raiz que expressa aflição, pois as testemunhas ficavam ali como que presas em grilhões, sem se mover dali o dia todo. "A mishná: não se moviam dali" — porque haviam saído além de seu limite, e quem sai além do limite não tem senão quatro côvados. "Do rio" — que cresce repentinamente e arrasta os habitantes da cidade, inclusive as crianças, exigindo resgate imediato mesmo em Shabat.