Todos os shofarot são aptos, exceto o da vaca, porque ele é keren. — A mishná estabelece que qualquer chifre de animal serve para a mitzvá do shofar, com uma única exceção: o chifre de vaca, que a Torá chama tecnicamente de keren — chifre — e não de shofar , a palavra específica usada nos versos que ordenam a tocada de Rosh Hashaná.
Disse Rabi Yosei: Acaso não são todos os shofarot chamados keren, como está dito: "ao prolongarem o toque do keren hayovel"? — Rabi Yosei desafia essa distinção terminológica, apontando que a própria Torá, no relato da conquista de Jericó, chama de keren o chifre de carneiro que é indiscutivelmente um shofar válido — de modo que a palavra keren não poderia, por si só, servir para desqualificar o chifre de vaca, já que também os shofarot legítimos recebem esse mesmo nome.
Este é o verso que Rabi Yosei traz contra a distinção terminológica da mishná. O relato de Yehoshua descreve como as trombetas de chifre de carneiro que rodearam Jericó fizeram cair suas muralhas, e o mesmo verso emprega tanto a palavra keren quanto a palavra shofar para designar o mesmo instrumento — precisamente um chifre de carneiro, que é o material clássico e inquestionável do shofar de Rosh Hashaná. Rabi Yosei argumenta que, se até esse chifre legítimo é chamado de keren na Escritura, então o termo keren não pode ser o critério que desqualifica o chifre de vaca; deve haver, portanto, alguma outra razão para sua invalidade. A opinião final da halachá, contudo, não segue Rabi Yosei: o chifre de vaca permanece desqualificado, precisamente porque, apesar de por vezes chamado keren, nunca é chamado shofar — enquanto os demais chifres recebem ambos os nomes.
Rambam e Bartenura explicam a base bíblica da distinção entre keren e shofar, e por que a halachá não segue a objeção de Rabi Yosei.
O fato de o chifre de vaca ser chamado keren se apoia no verso "primogênito de seu touro é glória para ele, e chifres de boi selvagem são seus chifres" — de onde se aprende que o termo keren, aplicado ao boi, designa especificamente esse tipo de chifre. E os Sábios rebatem a objeção de Rabi Yosei dizendo: todos os demais shofarot recebem tanto o nome de keren quanto o de shofar, mas o chifre de vaca recebe apenas o nome de keren e nunca é chamado shofar — sendo essa a verdadeira distinção, e não a halachá segue a opinião de Rabi Yosei.
"Porque ele é keren" — e não é chamado shofar, pois está escrito "primogênito de seu touro é glória para ele, e chifres de boi selvagem são seus chifres"; já a respeito de Rosh Hashaná está escrito especificamente shofar, e aprendemos por analogia que o shofar de Rosh Hashaná deriva do shofar do Iovel. "No chifre do Iovel" — este é macho, como ensinou Rabi Akiva que, quando viajou à Galácia, ouviu chamarem o macho de iovla, provando que até o shofar de carneiro é chamado keren; e os Sábios respondem que todos os shofarot recebem ambos os nomes, mas o de vaca é chamado apenas keren, nunca shofar — e a halachá segue os Sábios.
Rashi explica que a regra vale tanto para chifre de carneiro quanto de cabra montês, e conecta a exceção de Yom Kipur do Iovel a este mesmo princípio.
"Todos os shofarot" — tanto o de carneiro quanto o de cabra montês servem igualmente. "Porque ele é keren" — não é chamado shofar; e a respeito de Yom Kipur do Iovel está escrito especificamente "e farás soar o shofar de terua", e no último perek do tratado aprende-se, por analogia, que o shofar de Rosh Hashaná deriva do shofar do Iovel. "No chifre do Iovel" — pois iovel designa um carneiro macho, como a Guemará explica adiante em maior detalhe.