O shofar de Rosh Hashaná — não se ultrapassa por causa dele o techum, nem se desmonta por causa dele um monte de escombros. Não se sobe numa árvore, nem se monta sobre um animal, nem se nada sobre a superfície da água. — Para obter ou alcançar um shofar em Shabat, não é permitido ultrapassar o limite de caminhada — o techum — nem remover escombros que estejam cobrindo um shofar enterrado, nem subir numa árvore, montar um animal, ou nadar em busca dele — todas essas ações permanecem proibidas mesmo em nome da mitzvá do shofar.
E não se corta, nem com algo que é por sh'vut, nem com algo que é por não farás. Mas se quis colocar dentro dele água ou vinho, coloque. — Da mesma forma, não se pode cortar ou aparar o shofar em Shabat, seja com um instrumento cuja proibição é apenas de origem rabínica (sh'vut), seja com um que envolva uma verdadeira proibição de trabalho por Torá. Contudo, se alguém quiser colocar água ou vinho dentro do shofar para melhorar a qualidade de seu som, isso é permitido, pois não constitui uma forma de trabalho proibido.
Não se impede as crianças de tocar, mas ocupa-se com elas até que aprendam. — Ao contrário do que se poderia supor, não se deve impedir as crianças de praticar a tocada do shofar, mesmo em Shabat, para que se familiarizem com a mitzvá; ao contrário, adultos devem se dedicar a instruí-las até que aprendam a tocar corretamente.
E quem age sem intenção não cumpriu, e quem ouve de quem age sem intenção não cumpriu. — Encerrando o tema da intenção que perpassa todo o perek, a mishná reafirma que quem toca o shofar de forma automática ou distraída, sem propósito deliberado de cumprir a mitzvá, não a cumpre; e, da mesma forma, quem ouve o som produzido por essa pessoa desatenta também não cumpre sua obrigação.
Este verso, dito sobre Yom Kipur mas aplicado por extensão a todo dia festivo de descanso completo, contém tanto um mandamento positivo — "descanso completo será para vós" — quanto uma proibição — "nenhuma obra fareis". A tocada do shofar é, em si, apenas um mandamento positivo, e o princípio geral da halachá é que um mandamento positivo não tem força para afastar uma proibição, muito menos uma que combine proibição e mandamento positivo simultaneamente, como é o caso do repouso do dia festivo. É por isso que todas as restrições listadas nesta mishná — não ultrapassar o techum, não desmontar escombros, não subir em árvores, não cortar o shofar — permanecem em vigor mesmo quando estão a serviço da mitzvá do shofar: a santidade do dia de descanso prevalece sobre o desejo de aperfeiçoar o cumprimento de outra mitzvá.
Rambam explica o princípio geral por trás de todas essas restrições, e Bartenura detalha o motivo pelo qual se permite ocupar as crianças com a prática, mesmo em Shabat.
Já explicamos que o dia festivo envolve simultaneamente um mandamento positivo e uma proibição: pois "descanso solene" é um mandamento positivo, e "nenhuma obra fareis" é uma proibição — enquanto o shofar é apenas um mandamento positivo. E o princípio fundamental entre nós é que um mandamento positivo não tem força para afastar tanto uma proibição quanto um mandamento positivo combinados — daí a razão pela qual nenhuma das ações listadas na mishná, todas relacionadas à santidade do dia festivo, cede espaço à mitzvá do shofar.
"Não se impede as crianças" — refere-se àquelas que já chegaram à idade de instrução religiosa, e mesmo em Shabat é permitido praticar com elas, a fim de educá-las nas mitzvot, para que estejam bem treinadas quando chegar o dia festivo de Rosh Hashaná. "Ocupa-se com elas" — e não há necessidade de temer que, ao praticar, alguém acabe carregando o shofar por quatro côvados em domínio público, pois nesse contexto de mera prática ninguém está verdadeiramente absorto pela urgência da mitzvá, ao contrário de quando se está genuinamente ocupado em cumpri-la de fato.
Rashi lista as restrições da mishná uma a uma, remetendo à Guemará para a explicação detalhada do corte proibido do shofar.
"Nossa mishná: o shofar de Rosh Hashaná — não se desmonta o monte de escombros por causa dele" etc., "e não se ultrapassa o techum por causa dele" — refere-se a ir além do limite de Shabat para ouvir a tocada. "E não se corta" — a Guemará explica em detalhe qual tipo de corte é aludido aqui. "Se quis colocar dentro dele água" etc. — e não se diz, nesse caso, que a pessoa estaria "consertando um utensílio", uma categoria de trabalho proibida em Shabat — pois colocar líquido dentro do shofar não constitui reparo algum, apenas um ajuste temporário para melhorar o som.