Açoites — por três. — A aplicação da pena de açoites — prevista para diversas transgressões da Torá — é decidida por um tribunal de apenas três juízes, tal como os demais julgamentos monetários e de dano já mencionados na mishná anterior.
Em nome de Rabi Yishmael disseram: por vinte e três. — Uma tradição paralela, transmitida em nome de Rabi Yishmael, discorda e exige o tribunal maior de vinte e três juízes para os açoites — pois, segundo esse ponto de vista, a gravidade física da pena corporal a aproxima mais dos julgamentos de vida do que dos julgamentos puramente monetários.
A intercalação do mês — por três. — A decisão de declarar um novo mês do calendário lunar — se o mês anterior teve vinte e nove ou trinta dias — é tomada por um tribunal de três juízes.
A intercalação do ano — por três, palavras de Rabi Meir. — Segundo Rabi Meir, também a decisão mais complexa — se acrescentar um décimo terceiro mês ao ano, para realinhar o calendário lunar com as estações solares — pode ser tomada por apenas três juízes.
Rabán Shimon ben Gamliel diz: com três se começa, e com cinco se delibera, e se conclui com sete. E se concluíram com três, o ano está intercalado. — Rabán Shimon ben Gamliel descreve um procedimento gradual e mais formal: o processo de intercalação do ano começa com três juízes que levantam a questão, prossegue com a inclusão de mais dois — totalizando cinco — para a deliberação propriamente dita, e se conclui, idealmente, com sete juízes reunidos. Ainda assim, ele reconhece que, se ao final apenas três estiveram presentes para fechar a decisão, o ano está validamente intercalado.
Rambam transmite a baraita que detalha o procedimento gradual de Rabán Shimon ben Gamliel para a intercalação do ano, e decide a halachá a seu favor; Bartenura confirma o número de juízes exigido para os açoites segundo a halachá vigente.
Rambam cita a baraita que explica em detalhe o mecanismo descrito por Rabán Shimon ben Gamliel: três juízes se reúnem inicialmente; se apenas um deles considera necessário sentar-se para deliberar sobre a intercalação e os outros dois discordam, o único fica anulado pela maioria e o processo não avança. Mas se dois consideram necessário e apenas um discorda, acrescentam-se mais dois juízes — chegando a cinco — para deliberar propriamente. O processo pode, então, prosseguir até sete, e a decisão final requer que ao menos quatro deles — maioria entre os sete — concordem num único resultado antes de agir. Rambam decide a halachá a favor de Rabán Shimon ben Gamliel, e não segundo a opinião simples de Rabi Meir.
Bartenura confirma que os açoites são julgados por três juízes leigos comuns, como os demais julgamentos monetários — e que, apesar de a pena de açoites se aproximar em gravidade dos julgamentos capitais, a halachá não se preocupa com essa proximidade a ponto de exigir vinte e três juízes. A decisão final segue a primeira opinião da mishná, "açoites por três", e não a tradição transmitida em nome de Rabi Yishmael.
O perush de Rashi sobre a Guemará (Sanhedrin 2a), remetendo a discussão detalhada sobre o fundamento bíblico de cada opinião às sugyot mais adiante no próprio perek.
Rashi identifica "makkot" com a pena de "quarenta açoites" prevista na Torá (Devarim 25:3, aplicada tecnicamente como trinta e nove golpes), e remete a fundamentação bíblica de cada uma das duas posições — a mishná, que basta com três juízes, e a tradição em nome de Rabi Yishmael, que exige vinte e três — à discussão detalhada mais adiante na Guemará.
Rashi explica que o tribunal se reunia para verificar se o ano precisava ser intercalado com base em dois fatores concretos: se a cevada (aviv) já estaria madura a tempo da oferenda de Pêssach, e se a posição do sol no ciclo das estações (tekufá) exigia realinhamento — remetendo a explicação plena da opinião de Rabán Shimon ben Gamliel à baraita citada na Guemará, a mesma que Rambam transmite acima.