Seder Nezikin · Massechet Sanhedrin · Perek Bet · Mishná 4 de 5

Guerra facultativa, esposas, cavalos, prata e ouro — os limites do rei

וּמוֹצִיא לְמִלְחֶמֶת הָרְשׁוּת עַל פִּי בֵית דִּין שֶׁל שִׁבְעִים וְאֶחָד
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A quarta mishná do perek reúne os poderes e limites econômicos do rei: ele pode convocar o povo para uma guerra facultativa apenas com autorização do Sinédrio Grande de setenta e um, pode abrir caminho por propriedade alheia sem que ninguém o impeça, e tem direito à primeira escolha do despojo de guerra. Em seguida, a mishná aplica os três limites de Devarim 17 — não multiplicar esposas, cavalos ou prata e ouro além do estritamente necessário — e fecha com a obrigação pessoal do rei de escrever um Sefer Torá que o acompanha sempre.

E convoca para a guerra facultativa com base num tribunal de setenta e um, e abre [caminho] para fazer para si um caminho, e ninguém o impede. O caminho do rei não tem medida. E todo o povo saqueia e dá a ele, e ele toma a porção da frente.Diferentemente da guerra obrigatória (ordenada diretamente pela Torá), a guerra facultativa — contra outras nações, além dos sete povos e de Amalek — só pode ser declarada pelo rei com a autorização do Sinédrio Grande de setenta e um juízes. Para suas necessidades, o rei pode romper cercas e propriedades alheias a fim de abrir um caminho próprio até seus campos e vinhas, sem que ninguém possa protestar, e esse caminho não tem largura fixa. Do despojo tomado pelo povo em guerra, o rei recebe uma parte antes de todos, à sua escolha.

"Não multiplicará para si esposas" — mas somente dezoito. Rabi Yehudá diz: multiplica para si, contanto que não sejam do tipo que desviam seu coração. Rabi Shimon diz: mesmo uma [só], se desvia seu coração, não a desposará. Se assim é, por que está dito "não multiplicará para si esposas"? Mesmo que sejam como Avigail.Segundo o primeiro Tana, o limite de esposas do rei é fixo em dezoito, derivado por dedução do próprio caso de David. Rabi Yehudá discorda: o número não é limitado, desde que as esposas não sejam do tipo que afaste o coração do rei da reverência a D'us. Rabi Shimon vai além: mesmo uma única esposa já é proibida, se ela desviar seu coração — e a proibição bíblica de "multiplicar esposas" vem ensinar algo além disso: que é proibido ter muitas esposas mesmo que todas sejam como Avigail, justa e piedosa, que impediu David de pecar.

"Não multiplicará para si cavalos" — mas somente o suficiente para sua carruagem. E "prata e ouro não multiplicará muito para si" — mas somente o suficiente para dar o sustento [de seus soldados].O rei pode manter cavalos apenas na medida necessária para sua carruagem de guerra e de paz, não como luxo ou ostentação de poder; e pode acumular prata e ouro apenas na medida necessária para pagar o sustento de suas tropas — não para engrandecimento pessoal.

E escreve para si um Sefer Torá para seu próprio uso. Quando sai para a guerra, leva-o consigo; quando entra, traz-o consigo; quando se assenta em juízo, está com ele; quando se reclina [para comer], está diante dele, como está dito: "e estará com ele, e nele lerá todos os dias de sua vida" (Devarim 17:19).Além do Sefer Torá que todo israelita é obrigado a possuir, o rei escreve um segundo rolo especificamente para si, que o acompanha em todas as circunstâncias — na guerra, no juízo, na refeição — em cumprimento literal do versículo que ordena sua leitura contínua durante toda a vida.

וּמוֹצִיא לְמִלְחֶמֶת הָרְשׁוּת עַל פִּי בֵית דִּין שֶׁל שִׁבְעִים וְאֶחָד. וּפוֹרֵץ לַעֲשׂוֹת לוֹ דֶרֶךְ, וְאֵין מְמַחִין בְּיָדוֹ. דֶּרֶךְ הַמֶּלֶךְ אֵין לוֹ שִׁעוּר. וְכָל הָעָם בּוֹזְזִין וְנוֹתְנִין לְפָנָיו, וְהוּא נוֹטֵל חֵלֶק בָּרֹאשׁ. לֹא יַרְבֶּה לּוֹ נָשִׁים, אֶלָּא שְׁמֹנֶה עֶשְׂרֵה. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, מַרְבֶּה הוּא לוֹ, וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יְהוּ מְסִירוֹת אֶת לִבּוֹ. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, אֲפִלּוּ אַחַת וּמְסִירָה אֶת לִבּוֹ, הֲרֵי זֶה לֹא יִשָּׂאֶנָּה. אִם כֵּן לָמָּה נֶאֱמַר לֹא יַרְבֶּה לּוֹ נָשִׁים, אֲפִלּוּ כַאֲבִיגָיִל. לֹא יַרְבֶּה לּוֹ סוּסִים, אֶלָּא כְדֵי מֶרְכַּבְתּוֹ. וְכֶסֶף וְזָהָב לֹא יַרְבֶּה לּוֹ מְאֹד, אֶלָּא כְדֵי לִתֵּן אַפְסַנְיָא. וְכוֹתֵב לוֹ סֵפֶר תּוֹרָה לִשְׁמוֹ. יוֹצֵא לַמִּלְחָמָה, מוֹצִיאָהּ עִמּוֹ. נִכְנָס, מַכְנִיסָהּ עִמּוֹ. יוֹשֵׁב בַּדִּין, הִיא עִמּוֹ. מֵסֵב, הִיא כְנֶגְדּוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר (שם) וְהָיְתָה עִמּוֹ וְקָרָא בוֹ כָּל יְמֵי חַיָּיו:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Toda a segunda metade da mishná é uma paráfrase quase literal da "parashat melech" de Devarim 17 — os três limites impostos ao rei de Israel, e a obrigação de escrever e ler o Sefer Torá todos os dias de sua vida.

Devarim 17:16-17
רַק לֹא יַרְבֶּה לּוֹ סוּסִים, וְלֹא יָשִׁיב אֶת הָעָם מִצְרַיְמָה לְמַעַן הַרְבּוֹת סוּס, וַה׳ אָמַר לָכֶם לֹא תֹסִפוּן לָשׁוּב בַּדֶּרֶךְ הַזֶּה עוֹד. וְלֹא יַרְבֶּה לּוֹ נָשִׁים וְלֹא יָסוּר לְבָבוֹ, וְכֶסֶף וְזָהָב לֹא יַרְבֶּה לּוֹ מְאֹד.
"Somente não multiplicará para si cavalos, e não fará voltar o povo ao Egito para multiplicar cavalos, pois o Eterno vos disse: não voltareis mais por este caminho. E não multiplicará para si esposas, para que seu coração não se desvie; e prata e ouro não multiplicará muito para si."
Devarim 17:18-19
וְהָיָה כְשִׁבְתּוֹ עַל כִּסֵּא מַמְלַכְתּוֹ, וְכָתַב לוֹ אֶת מִשְׁנֵה הַתּוֹרָה הַזֹּאת עַל סֵפֶר, מִלִּפְנֵי הַכֹּהֲנִים הַלְוִיִּם. וְהָיְתָה עִמּוֹ וְקָרָא בוֹ כָּל יְמֵי חַיָּיו, לְמַעַן יִלְמַד לְיִרְאָה אֶת ה׳ אֱלֹהָיו, לִשְׁמֹר אֶת כָּל דִּבְרֵי הַתּוֹרָה הַזֹּאת וְאֶת הַחֻקִּים הָאֵלֶּה לַעֲשֹׂתָם.
"E será, quando se assentar sobre o trono de seu reino, escreverá para si uma cópia desta Torá num rolo, diante dos sacerdotes levitas. E estará com ele, e nele lerá todos os dias de sua vida, para que aprenda a temer o Eterno seu D'us, para guardar todas as palavras desta Torá e estes estatutos, para praticá-los."
A Guemará (Sanhedrin 21a) deduz o número exato de dezoito esposas a partir da lista das seis esposas de David em Chevron (Shmuel II 3:2-5) somada à promessa do profeta Natan de multiplicá-las "outras tantas" (כָּהֵנָּה וְכָהֵנָּה) — seis mais seis, mais seis, totalizando dezoito. Já a proibição de "prata e ouro" é entendida pelos Sábios não como proibição absoluta — pois o rei precisa sustentar seu exército — mas como proibição de acumulá-los para uso e ostentação pessoal, além do necessário ao aspanya, o sustento das tropas.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam define com precisão a guerra facultativa, o "caminho do rei" e o "aspanya", explica o motivo prático da permissão de cavalos para a guerra, e confirma que a halachá segue o primeiro Tana quanto ao limite de esposas. Bartenura acrescenta a base bíblica do número dezoito e resume as três posições da disputa.

Rambam · Perush HaMishná, Sanhedrin 2:4
וּמוֹצִיא לְמִלְחֶמֶת הָרְשׁוּת עַל פִּי בֵית דִּין כו': לֹא יַרְבֶּה לוֹ נָשִׁים אֶלָּא שְׁמֹנֶה עֶשְׂרֵה כו': לֹא יַרְבֶּה לוֹ סוּסִים אֶלָּא כְּדֵי מֶרְכַּבְתּוֹ וְכֶסֶף כו': מִלְחֶמֶת הָרְשׁוּת — מִלְחֶמֶת שְׁאָר הָאֻמּוֹת זוּלָתִי שֶׁל שִׁבְעָה עֲמָמִין וּמִלְחֶמֶת עֲמָלֵק. וּמִתְּנָאֵי מִלְחֶמֶת הָרְשׁוּת שֶׁלֹּא תִהְיֶה אֶלָּא בְּמֶלֶךְ וְסַנְהֶדְרִין. וּפֵרוּשׁ אֵין מְמַחִין — שֶׁאֵין חוֹלְקִין עָלָיו. וְחֵלֶק בָּרֹאשׁ הוּא שֶׁיִּקַּח חֲצִי כָּל הַשָּׁלָל שֶׁשּׁוֹלְלִין כָּל הָעָם, מוֹסִיף עַל כָּל מַה שֶּׁהָיָה לְאוֹתוֹ הַמֶּלֶךְ. מֻתָּר לַמֶּלֶךְ לְהַרְבּוֹת סוּסִים כָּל מַה שֶּׁיִּרְצֶה לִרְכֹּב הַחַיָּלִים שֶׁלּוֹ וּלְהַרְבּוֹת סוּסִים בְּמִלְחֲמוֹתָיו כְּדֵי לְהַרְעִיד הָאוֹיֵב, אֲבָל מַה שֶּׁאָסְרָה תוֹרָה לִהְיוֹת לוֹ סוּסִים לְבַטָּלָה בָּאֻרְווֹת מוּכָנוֹת לִרְכֹּב הוּא בָּהֶם בְּאֵיזֶה יוֹם שֶׁיִּרְצֶה. אַסְפַּנְיָא — הַגִּבּוֹרִים וְהַחַיָּלִים. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה וְלֹא כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן.

Rambam define a guerra facultativa como a guerra contra os demais povos, além dos sete povos de Canaã e Amalek (que são guerras obrigatórias) — e uma de suas condições é que só pode ser travada com a autorização conjunta do rei e do Sinédrio. Explica "ninguém o impede" como "ninguém discorda dele", e "porção da frente" como metade de todo o despojo tomado pelo povo, além da parte que já cabia normalmente ao próprio rei. Sobre os cavalos: é permitido ao rei multiplicá-los tanto quanto necessário para montar seus soldados e intimidar o inimigo em suas guerras — o que a Torá proíbe é manter cavalos ociosos, em estábulos preparados apenas para seu próprio prazer de montaria em qualquer dia que desejar. Define "aspanya" como o sustento dos soldados e guerreiros. E conclui que a halachá não segue nem Rabi Yehudá nem Rabi Shimon, mas o primeiro Tana, que fixa o limite em dezoito esposas.

Bartenura · Sanhedrin 2:4
לְמִלְחֶמֶת הָרְשׁוּת. מִלְחֶמֶת שְׁאָר אֻמּוֹת חוּץ מִמִּלְחֶמֶת עֲמָלֵק וּמִלְחֶמֶת שִׁבְעָה עֲמָמִין. חֵלֶק בָּרֹאשׁ. חֵלֶק הַיָּפֶה בּוֹרֵר רִאשׁוֹן, וְנוֹטֵל מֶחֱצָה מִכָּל הַבִּזָּה. אֶלָּא שְׁמֹנֶה עֶשְׂרֵה. שֶׁהֲרֵי דָוִד הָיוּ לוֹ שֵׁשׁ נָשִׁים, וְקָאָמַר לֵיהּ נָבִיא וְאִם מְעָט וְאֹסִיפָה לְּךָ כָּהֵנָּה וְכָהֵנָּה, כָּהֵנָּה קַמָּא שִׁית, בַּתְרָא שִׁית, הֲרֵי שְׁמֹנֶה עֶשְׂרֵה. וַהֲלָכָה כְּתַנָּא קַמָּא. אֶלָּא כְדֵי מֶרְכַּבְתּוֹ. דַּוְקָא סוּסִים בְּטֵלִים לְהַרְחִיב דַּעְתּוֹ וּלְהִתְגַּדֵּל בְּרֹב סוּסִים אָסוּר, אֲבָל כְּדֵי רִכְבּוֹ וּפָרָשָׁיו לְהִלָּחֵם בְּאוֹיְבָיו מֻתָּר. אַפְסַנְיָא. שְׂכַר חֵילוֹת הַנִּכְנָסִים וְיוֹצְאִים עִמּוֹ כָּל הַשָּׁנָה.

Bartenura confirma que a guerra facultativa é a guerra contra outros povos além de Amalek e das sete nações. Explica "porção da frente" como o direito do rei de escolher primeiro a melhor parte, tomando metade de todo o despojo. Deduz o número dezoito: David tinha seis esposas quando o profeta lhe disse "e se fosse pouco, eu te acrescentaria outras tantas" — a primeira "outras tantas" soma seis, a segunda mais seis, totalizando dezoito — e a halachá segue o primeiro Tana. Sobre os cavalos: apenas cavalos ociosos, mantidos para satisfação pessoal e ostentação, são proibidos; os necessários para a cavalaria de guerra são permitidos. E define "aspanya" como o pagamento anual das tropas que entram e saem em seu serviço durante todo o ano.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi, sobre a Guemará de Sanhedrin 20b-21b, explica o rompimento de cercas e a porção do despojo, define brevemente as dezoito esposas e o aspanya, cada trecho junto à sua respectiva "mishná" na estrutura da Guemará.

Rashi · רש״י
Sanhedrin 20b, s.v. ופורץ, לעשות לו דרך, חלק בראש — Sanhedrin 21a, s.v. שמנה עשרה — Sanhedrin 21b, s.v. אספניא
וּפוֹרֵץ — גִּדְרוֹת אֲחֵרִים. לַעֲשׂוֹת לוֹ דֶרֶךְ — לְשָׂדֵהוּ וּלְכַרְמוֹ. חֵלֶק בָּרֹאשׁ — חֵלֶק הַיָּפֶה בּוֹרֵר רִאשׁוֹן וְנוֹטֵל מֶחֱצָה. שְׁמֹנֶה עֶשְׂרֵה — לְקַמָּן נָפְקָא לָן. אַסְפַּנְיָא — שְׂכַר חֵילוֹת מִדֵּי שָׁנָה בְּשָׁנָה, הַנִּכְנָסִין וְהַיּוֹצְאִין עִמּוֹ כָּל הַשָּׁנָה.

Rashi comenta cada cláusula da mishná no mesmo ponto em que a Guemará a introduz. Explica que "abre" refere-se a cercas de terceiros, e que "para fazer para si um caminho" significa o acesso a seu próprio campo e vinha. Sobre a "porção da frente": o rei escolhe primeiro a melhor parte do despojo, tomando metade do total. Quanto às dezoito esposas, remete à dedução que a própria Guemará traz logo em seguida, a partir da soma das esposas de David em Chevron com a promessa do profeta. E define "aspanya" como o pagamento anual das tropas que entram e saem a serviço do rei ao longo de todo o ano — o limite exato até onde é permitido acumular prata e ouro.