Seder Nezikin · Massechet Sanhedrin · Perek Guimel · Mishná 5 de 8

Amigo e inimigo — os limites da desqualificação por afeto

הָאוֹהֵב וְהַשּׂוֹנֵא
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A quinta mishná, breve, acrescenta duas últimas categorias de desqualificação para testemunho: quem ama e quem odeia um dos litigantes — definindo precisamente quem se enquadra em cada caso — e registra a objeção dos Sábios a essa restrição.

O que ama e o que odeia [também são desqualificados]. "O que ama" — este é seu padrinho de casamento (shoshvin). "O que odeia" — todo aquele que, por inimizade, não falou com ele durante três dias. Disseram-lhe: Israel não é suspeito quanto a isso.A mishná fecha a lista de desqualificações por vínculo pessoal com duas categorias definidas de modo preciso: "amigo" refere-se especificamente ao padrinho de casamento — a pessoa que acompanhou o litigante durante os dias de sua festa nupcial —, e "inimigo" refere-se a quem rompeu relações com ele por pelo menos três dias consecutivos por hostilidade. Os Sábios, contudo, discordam da própria premissa: para eles, amor ou ódio pessoal não desqualificam alguém para testemunhar, pois "Israel não é suspeito" de mentir sob juramento por esses motivos — ainda que, como esclarece a Guemará, todos concordem que amor e ódio desqualificam para julgar, já que o juiz exerce discernimento subjetivo, ao contrário da testemunha, que apenas relata o que viu.

הָאוֹהֵב וְהַשּׂוֹנֵא. אוֹהֵב, זֶה שׁוּשְׁבִינוֹ. שׂוֹנֵא, כָּל שֶׁלֹּא דִבֶּר עִמּוֹ שְׁלֹשָׁה יָמִים בְּאֵיבָה. אָמְרוּ לוֹ, לֹא נֶחְשְׁדוּ יִשְׂרָאֵל עַל כָּךְ.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Sanhedrin 3:5
הָאוֹהֵב וְהַשּׂוֹנֵא אוֹהֵב זֶה שׁוֹשְׁבִינוֹ שׂוֹנֵא כָּל כו׳: שׁוֹשְׁבִינוֹ הוּא רֵעֵהוּ, כְּגוֹן הָרֵעוּת שֶׁעוֹשִׂין בִּזְמַן הַנִּשּׂוּאִין וְנִקְרָאִין שׁוֹשְׁבִינִין, וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה, אֶלָּא אוֹהֵב וְשׂוֹנֵא כָּשֵׁר לְעֵדוּת, אֲבָל הוּא פָּסוּל לָדוּן... וְאֵין רָאוּי לְהַבְזוֹת בְּכָל זֶה בְּמַחֲשָׁבוֹת שֶׁאֵין בָּהֶן אֱמֶת.

Rambam define o padrinho de casamento (shoshvin) como o amigo próximo que acompanha o noivo nos dias de sua festa nupcial. Ele estabelece a halachá final: contrariamente à posição atribuída a Rabi Yehuda na mishná, amor e ódio pessoal não desqualificam alguém para testemunhar — pois o povo de Israel não é suspeito de mentir sob juramento por essas razões —, mas desqualificam para julgar, já que o juiz precisa exercer avaliação subjetiva livre de qualquer viés emocional. Rambam adverte contra levantar suspeitas infundadas sobre a integridade alheia sem fundamento real.

Bartenura · Sanhedrin 3:5
שׁוּשְׁבִינוֹ. רֵעֵהוּ בִּימֵי חֻפָּתוֹ, פָּסוּל לוֹ כָּל יְמֵי הַחֻפָּה: לֹא נֶחְשְׁדוּ יִשְׂרָאֵל עַל כָּךְ. לְהָעִיד שֶׁקֶר מִשּׁוּם אֵיבָה וְאַהֲבָה, וְכֵן הֲלָכָה. וְדַוְקָא בְּעֵדוּת פְּלִיגֵי רַבָּנָן עֲלֵיהּ, אֲבָל בְּדִין מוֹדוּ רַבָּנָן דְּפָסוּל לוֹ לָדוּן, דְּאִי רָחֵים לֵיהּ אֵינוֹ רוֹאֶה לוֹ חוֹבָה, וְאִי סָנֵי לֵיהּ לֹא מָצֵי לְאַפּוֹכֵי בִזְכוּתָא.

Bartenura fixa a duração da desqualificação do padrinho: apenas durante os dias da festa nupcial em si, não depois. Sobre a disputa central, confirma que a halachá segue os Sábios — "Israel não é suspeito" de testemunhar falsamente por amor ou ódio —, mas ressalva que essa concordância dos Sábios vale apenas quanto a testemunho; quanto a julgar, todos concordam que amigo e inimigo são desqualificados, "pois se o ama, não consegue enxergar seu débito, e se o odeia, não consegue inclinar-se a seu favor" — a subjetividade do juízo o torna vulnerável ao viés emocional de um jeito que o simples relato de uma testemunha não é.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi · רש״י
Sanhedrin 27b, s.v. שושבינו; לא נחשדו ישראל על כך
שׁוֹשְׁבִינוֹ — פָּסוּל לוֹ בִּימֵי חֻפָּתוֹ: לֹא נֶחְשְׁדוּ יִשְׂרָאֵל עַל כָּךְ — לְהָעִיד שֶׁקֶר מִשּׁוּם אֵיבָה וְאַהֲבָה, וְדַוְקָא בְּעֵדוּת פְּלִיגֵי, אֲבָל בְּדִין מוֹדוּ לֵיהּ רַבָּנָן דְּפָסוּל לוֹ לָדוּן, דְּכֵיוָן דְּסָנֵי לֵיהּ...

Rashi confirma que a desqualificação do padrinho de casamento vale apenas durante os dias específicos de sua função na festa nupcial. Sobre a réplica dos Sábios — "Israel não é suspeito quanto a isso" —, Rashi precisa o alcance exato da concordância: a disputa entre Rabi Yehuda (que desqualificaria também para testemunho) e os Sábios existe apenas quanto a testemunho; quanto a servir como juiz, porém, os próprios Sábios concedem que amigo e inimigo são desqualificados, precisamente porque, uma vez que odeia o litigante, o juiz simplesmente não consegue enxergar um caminho para julgá-lo favoravelmente — o vício está no próprio ato de julgar, não apenas no relato dos fatos.