Seder Nezikin · Massechet Sanhedrin · Perek Vav · Mishná 2 de 6

A confissão final — "que minha morte seja expiação por todos os meus pecados"

הָיָה רָחוֹק מִבֵּית הַסְּקִילָה כְּעֶשֶׂר אַמּוֹת, אוֹמְרִים לוֹ הִתְוַדֵּה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A dez cúbitos do local de apedrejamento, pede-se ao condenado que confesse — não como formalidade jurídica, mas porque a confissão sincera lhe garante uma parte no mundo vindouro, como se aprende do precedente de Acã diante de Josué.

Quando estava a cerca de dez cúbitos do local do apedrejamento, diziam-lhe: "confessa" — pois assim é o costume dos que vão ser executados, confessarem, pois todo aquele que confessa tem parte no mundo vindouro. Pois assim encontramos em Acã, a quem Josué disse: "Meu filho, dá, peço-te, glória ao Eterno, Deus de Israel, e faze-lhe confissão..." E Acã respondeu a Josué e disse: "Verdadeiramente eu pequei contra o Eterno, Deus de Israel, e assim e assim..." (Josué 7). E de onde se aprende que sua confissão lhe trouxe expiação? Pois foi dito: "E disse Josué: Por que nos perturbaste? Que o Eterno te perturbe neste dia." Neste dia és perturbado, mas não serás perturbado no mundo vindouro.Ainda a certa distância do local de execução, o condenado era instruído a confessar suas transgressões — não porque essa confissão tivesse qualquer efeito sobre o veredito já proferido, mas porque, segundo a mishná, todo aquele que confessa sinceramente antes de morrer ganha parte no mundo vindouro. O precedente bíblico é o de Acã, que, descoberto por Josué como o responsável por se apropriar dos bens consagrados de Jericó, foi instado a "dar glória" a D-us confessando sua falta — e assim o fez. A mishná lê o versículo seguinte, em que Josué diz a Acã que ele seria "perturbado" naquele dia, como indicando precisamente que a perturbação — a punição — se limitava a este mundo, e que no mundo vindouro Acã já não seria perturbado, porque sua confissão lhe havia trazido expiação completa.

הָיָה רָחוֹק מִבֵּית הַסְּקִילָה כְּעֶשֶׂר אַמּוֹת, אוֹמְרִים לוֹ הִתְוַדֵּה, שֶׁכֵּן דֶּרֶךְ הַמּוּמָתִין מִתְוַדִּין, שֶׁכָּל הַמִּתְוַדֶּה יֶשׁ לוֹ חֵלֶק לָעוֹלָם הַבָּא. שֶׁכֵּן מָצִינוּ בְעָכָן שֶׁאָמַר לוֹ יְהוֹשֻׁעַ, בְּנִי שִׂים נָא כָבוֹד לַה' אֱלֹהֵי יִשְׂרָאֵל וְתֶן לוֹ תוֹדָה וְגוֹ' וַיַּעַן עָכָן אֶת יְהוֹשֻׁעַ וַיֹּאמַר אָמְנָה אָנֹכִי חָטָאתִי לַה' אֱלֹהֵי יִשְׂרָאֵל וְכָזֹאת וְגוֹ' (יהושע ז). וּמִנַּיִן שֶׁכִּפֶּר לוֹ וִדּוּיוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר (שם) וַיֹּאמֶר יְהוֹשֻׁעַ מֶה עֲכַרְתָּנוּ יַעְכָּרְךָ ה' בַּיּוֹם הַזֶּה. הַיּוֹם הַזֶּה אַתָּה עָכוּר, וְאִי אַתָּה עָכוּר לָעוֹלָם הַבָּא.
A fórmula simplificada para quem não sabe confessar por si mesmo, e a posição de Rabi Yehudá — rejeitada pelos demais Sábios — sobre quem tem razão para crer que foi vítima de testemunhas conspiradoras.

E se não sabe confessar, diziam-lhe: "dize: que minha morte seja expiação por todos os meus pecados." Rabi Yehudá diz: se sabia que foi conspirado contra ele, diz: "que minha morte seja expiação por todos os meus pecados, exceto por este pecado." Disseram-lhe: se assim, todo homem dirá isso, para se inocentar.Para o condenado que não soubesse formular sua própria confissão — seja por falta de instrução, seja pela confusão do momento — o tribunal lhe fornecia uma fórmula pronta e simples, sem menção a transgressões específicas: que sua morte servisse de expiação para todos os seus pecados. Rabi Yehudá propôs uma exceção: se o condenado tivesse razão para crer que fora condenado com base em testemunhas conspiradoras — isto é, que ele próprio era inocente da transgressão específica pela qual estava sendo executado — ele poderia excluir expressamente esse pecado de sua fórmula de expiação, afirmando sua inocência quanto a ele até o fim. Mas os demais Sábios rejeitaram essa exceção: se essa fórmula fosse permitida, argumentaram, todo condenado a alegaria, para limpar seu próprio nome diante do povo, mesmo quando de fato culpado — e por isso o tribunal não a sugere como alternativa.

וְאִם אֵינוֹ יוֹדֵעַ לְהִתְוַדּוֹת, אוֹמְרִים לוֹ, אֱמֹר תְּהֵא מִיתָתִי כַפָּרָה עַל כָּל עֲוֹנוֹתָי. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, אִם הָיָה יוֹדֵעַ שֶׁהוּא מְזֻמָּם, אוֹמֵר תְּהֵא מִיתָתִי כַּפָּרָה עַל כָּל עֲוֹנוֹתַי חוּץ מֵעָוֹן זֶה. אָמְרוּ לוֹ, אִם כֵּן, יְהוּ כָל אָדָם אוֹמְרִים כָּךְ כְּדֵי לְנַקּוֹת אֶת עַצְמָן.

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Josué 7:19-20, 25
בְּנִי שִׂים נָא כָבוֹד לַה' אֱלֹהֵי יִשְׂרָאֵל וְתֶן לוֹ תוֹדָה... וַיַּעַן עָכָן אֶת יְהוֹשֻׁעַ וַיֹּאמַר אָמְנָה אָנֹכִי חָטָאתִי לַה' אֱלֹהֵי יִשְׂרָאֵל וְכָזֹאת וְכָזֹאת עָשִׂיתִי... וַיֹּאמֶר יְהוֹשֻׁעַ מֶה עֲכַרְתָּנוּ יַעְכָּרְךָ ה' בַּיּוֹם הַזֶּה
"Meu filho, dá, peço-te, glória ao Eterno, Deus de Israel, e faze-lhe confissão... E Acã respondeu a Josué e disse: Verdadeiramente eu pequei contra o Eterno, Deus de Israel, e assim e assim fiz... E disse Josué: Por que nos perturbaste? Que o Eterno te perturbe neste dia."
A mishná constrói sobre este episódio dois princípios: que a confissão sincera antes da morte é o costume de todo condenado, e que ela efetivamente traz expiação — pois o próprio Josué, ao dizer "neste dia", delimita a perturbação de Acã unicamente a este mundo, implicando que no mundo vindouro ele já não seria perturbado.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Sanhedrin 6:2
הָיָה רָחוֹק מִבֵּית הַסְּקִילָה בְּעֶשֶׂר אַמּוֹת אוֹמְרִים בּוֹ כו׳: מַה שֶׁהֻצְרַךְ לְהִתְוַדּוֹת רָחוֹק מִבֵּית הַסְּקִילָה כְּדֵי שֶׁלֹּא יִפְחַד וְתִטָּרֵף דַּעְתּוֹ וְלֹא יוּכַל לְדַבֵּר כְּשֶׁיִּהְיֶה קָרוֹב מִמְּקוֹם הַמִּיתָה. וְדַע שֶׁהֲרִיגַת יְהוֹשֻׁעַ לְעָכָן הָיְתָה הוֹרָאַת שָׁעָה, לְפִי שֶׁתּוֹרָתֵנוּ הָאֲמִתִּית אֵינָהּ מְחַיֶּבֶת מִיתָה עַל הַחוֹטֵא בְּהוֹדָאָתוֹ בְעַצְמוֹ וְלֹא בִּנְבוּאַת נָבִיא שֶׁיֹּאמַר שֶׁעָשָׂה זֶה הַמַּעֲשֶׂה. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה.

Rambam explica por que a confissão é pedida ainda a dez cúbitos de distância, e não já junto ao próprio local da execução: para que o condenado, ainda não tomado pelo pavor imediato da morte, consiga articular suas palavras com clareza. E faz uma ressalva halachicamente fundamental: a execução de Acã por Josué foi uma horaat shaá — uma decisão extraordinária de emergência, válida apenas naquele momento — pois a Torá, como norma permanente, não impõe pena de morte a alguém com base apenas em sua própria confissão, nem com base na profecia de um profeta que declare tê-lo visto cometer o ato. E a halachá não segue a opinião de Rabi Yehudá.

Bartenura · Sanhedrin 6:2
הָיָה רָחוֹק מִבֵּית הַסְּקִילָה. דְּקָרוֹב לְבֵית הַסְּקִילָה שֶׁמָּא תִטָּרֵף דַּעְתּוֹ וְלֹא יָכוֹל לְהִתְוַדּוֹת: וְתֶן לוֹ תוֹדָה. וְאַף עַל גַּב דְּאֵין אָדָם נֶהֱרָג עַל פִּי עַצְמוֹ, הֲרִיגַת עָכָן הוֹרָאַת שָׁעָה הָיְתָה: כָּזֹאת וְכָזֹאת עָשִׂיתִי. בַּגְּמָרָא מְפָרֵשׁ שֶׁמָּעַל בַּחֲרָמִים בִּימֵי מֹשֶׁה: שֶׁהוּא מְזֻמָּם. שֶׁעֵדָיו הֵן זוֹמְמִין: לְנַקּוֹת אֶת עַצְמָן. מִן הַבְּרִיּוֹת, וְיוֹצִיאוּ לַעַז עַל הַדַּיָּנִים וְעַל הָעֵדִים. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה.

Bartenura confirma que a distância de dez cúbitos evita que o pavor do local da execução impeça o condenado de articular sua confissão. Sobre o precedente de Acã, reitera o princípio de que ninguém é morto com base apenas em sua própria confissão — daí a necessidade de explicar que a ação de Josué foi uma decisão excepcional de emergência. E, citando a Guemará, esclarece que a transgressão de Acã foi apropriar-se indevidamente de bens consagrados nos dias de Moshé. Quanto à posição de Rabi Yehudá, explica que "conspirado contra ele" significa que o condenado sabia que as próprias testemunhas contra ele eram conspiradoras — mas os Sábios recusaram essa exceção, pois abriria margem para que qualquer condenado a invocasse simplesmente para se livrar da desonra pública diante das pessoas, lançando suspeita sobre juízes e testemunhas; e a halachá não segue Rabi Yehudá.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi · רש״י
Sanhedrin 44a, s.v. עכן מאי טעמא איענוש
עָכָן מַאי טַעְמָא אִיעֲנוֹשׁ — יִשְׂרָאֵל עֲלֵיהּ, הֲלֹא מִן הַנִּסְתָּרוֹת הִיא.

Na discussão da Guemará em torno desta mishná, Rashi registra a pergunta que ali se levanta: por qual razão todo o povo de Israel foi punido por causa da transgressão de Acã, já que se tratava de um pecado oculto — cometido em segredo, sem testemunhas — do tipo que, em princípio, pertence apenas "às coisas ocultas", reservadas ao juízo Divino, e não à responsabilidade coletiva humana? A pergunta situa o pano de fundo teológico do episódio de Acã que a própria mishná invoca como precedente para o valor da confissão.