Seder Moed · Massechet Shabat · Perek Yud · Mishná 5

O pão transportado por dois, e o vivo sobre a cama

הַמּוֹצִיא כִכָּר לִרְשׁוּת הָרַבִּים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Quem transporta sozinho um pão para o domínio público é responsável; se dois o transportaram juntos, ambos estão isentos, pois nenhum deles realizou a obra completa sozinho — a menos que um só não pudesse tê-lo transportado, caso em que ambos são responsáveis segundo o primeiro sábio, mas Rabi Shimon ainda os isenta; quem transporta alimento abaixo da medida dentro de um recipiente está isento inclusive pelo recipiente, pois o recipiente é acessório; o vivo sobre a cama está isento inclusive pela cama, pois a cama é acessório; mas o morto sobre a cama é responsável — e do mesmo modo uma azeitona do cadáver, uma azeitona da carcaça e uma lentilha do réptil, exceto segundo Rabi Shimon, que isenta

Aquele que transporta um pão para o domínio público é responsávela medida mínima de responsabilidade para alimentos, como já estabelecido nos capítulos anteriores. Se dois o transportaram, estão isentospois a Torá fala de "fazer" no singular, e a obra realizada em conjunto por duas pessoas, cada uma contribuindo apenas com uma parte do esforço, não constitui a "obra completa" de nenhuma delas individualmente. Se um só não conseguia transportá-lo, e dois o transportaram, são responsáveissegundo o primeiro sábio, pois, quando o objeto exige naturalmente a força de dois, a colaboração de ambos constitui, para cada um deles, uma "obra completa" — já que nenhum dos dois poderia tê-la feito de outra forma. Mas Rabi Shimon isentamesmo neste caso, mantendo que a divisão do esforço sempre isenta, independentemente de o objeto exigir ou não a força conjunta. Aquele que transporta alimentos abaixo da medida mínima dentro de um recipiente está isento, inclusive pelo recipienteque normalmente teria sua própria medida de responsabilidade se transportado sozinho, mas aquipois o recipiente é acessório a eleo recipiente serve apenas para carregar o alimento, sua função é subordinada, e por isso não gera responsabilidade independente quando o conteúdo principal está abaixo da medida. O vivo sobre a cama está isento, inclusive pela camapoisa cama é acessório a elejá que a cama serve ao ser vivo que se recosta ou senta nela, e o vivo, movendo-se por si mesmo, não é considerado uma carga própria. O morto sobre a cama é responsávelpois o morto, não podendo se mover, é totalmente carga, e a cama que o sustenta se torna acessória à carga principal, tornando-se parte da mesma responsabilidade. E do mesmo modo uma azeitona do cadáverhumano, cuja medida mínima de impureza é do tamanho de uma azeitonae uma azeitona da carcaçade um animal morto sem abate rituale uma lentilha do réptilcuja medida mínima de impureza é do tamanho de uma lentilhaé responsávelquem os transportar, pois, sendo fontes de impureza, sua remoção do domínio próprio já é considerada um ato significativo, mesmo em quantidade mínima. E Rabi Shimon isentaquanto a estas três categorias de impureza, entendendo que a intenção do transporte, sendo apenas afastar-se da impureza e não usar o objeto propriamente, torna a obra "desnecessária em si mesma" (melachá she-eina tzricha le-gufah), pela qual não há responsabilidade plena.

הַמּוֹצִיא כִכָּר לִרְשׁוּת הָרַבִּים, חַיָּב. הוֹצִיאוּהוּ שְׁנַיִם, פְּטוּרִין. לֹא יָכֹל אֶחָד לְהוֹצִיאוֹ וְהוֹצִיאוּהוּ שְׁנַיִם, חַיָּבִים. וְרַבִּי שִׁמְעוֹן פּוֹטֵר. הַמּוֹצִיא אֳכָלִין פָּחוֹת מִכַּשִּׁעוּר בִּכְלִי, פָּטוּר אַף עַל הַכְּלִי, שֶׁהַכְּלִי טְפֵלָה לוֹ. אֶת הַחַי בַּמִּטָּה, פָּטוּר אַף עַל הַמִּטָּה, שֶׁהַמִּטָּה טְפֵלָה לוֹ. אֶת הַמֵּת בַּמִּטָּה, חַיָּב. וְכֵן כַּזַּיִת מִן הַמֵּת וְכַזַּיִת מִן הַנְּבֵלָה וְכָעֲדָשָׁה מִן הַשֶּׁרֶץ, חַיָּב. וְרַבִּי שִׁמְעוֹן פּוֹטֵר:

Fonte na Torá — "aquele que a fizer" · הָעֹשֶׂה אֹתָהּ

A isenção de dois que transportam juntos deriva de um princípio hermenêutico aplicado a um versículo sobre a oferenda pelo pecado, extraído por analogia para todas as leis de Shabat.

Vayikrá 4:27
וְאִם נֶפֶשׁ אַחַת תֶּחֱטָא בִשְׁגָגָה מֵעַם הָאָרֶץ, בַּעֲשֹׂתָהּ אַחַת מִמִּצְוֹת יְהוָה אֲשֶׁר לֹא תֵעָשֶׂינָה וְאָשֵׁם.
E se uma pessoa do povo da terra pecar por engano, ao fazer uma das coisas que Hashem ordenou que não se fizessem, e for culpada.

Por que "ao fazê-la" isenta a ação dividida. A Guemará extrai da expressão "ba'assotáh" — "ao fazê-la" — o princípio de que a responsabilidade pela oferenda de pecado, aplicável a todas as proibições da Torá, recai apenas sobre "quem faz o todo, e não sobre quem faz apenas parte dela". Quando dois carregam juntos um pão, nenhum dos dois realizou sozinho o ato completo de transporte; cada um contribuiu apenas com uma fração do esforço físico. Por isso ambos ficam isentos da pena bíblica — ainda que o ato, tomado como um todo, tenha efetivamente violado o Shabat, e por isso permaneça proibido por decreto rabínico.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como o Rambam codifica estas regras — a obra dividida, o acessório, e as impurezas mínimas — em Hilchot Shabat, capítulo primeiro, e em Hilchot Tumat Met.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shabat 1:15
שְׁנַיִם שֶׁעָשׂוּ מְלָאכָה אַחַת, זֶה עוֹשֶׂה מִקְצָתָהּ וְזֶה עוֹשֶׂה מִקְצָתָהּ, שְׁנֵיהֶם פְּטוּרִין. כֵּיצַד, הוֹצִיאוּ כִּכָּר לִרְשׁוּת הָרַבִּים שְׁנַיִם, אֶחָד עוֹקְרוֹ וְאֶחָד מַנִּיחוֹ, פְּטוּרִין. וְאִם לֹא יָכוֹל אֶחָד לְהוֹצִיאוֹ וְהוֹצִיאוּהוּ שְׁנַיִם, חַיָּבִים.
Dois que realizaram uma única obra, este fazendo uma parte dela e aquele fazendo a outra parte, ambos estão isentos. Como assim? Transportaram um pão para o domínio público, sendo dois: um o remove e outro o deposita — estão isentos. Mas se um só não conseguia transportá-lo, e dois o transportaram, são responsáveis.
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shabat 1:16
הַמּוֹצִיא אֳכָלִין פָּחוֹת מִכַּשִּׁעוּר בִּכְלִי, פָּטוּר אַף עַל הַכְּלִי, שֶׁהַכְּלִי טְפֵלָה לָאֳכָלִין. הַמּוֹצִיא אֶת הַחַי בַּמִּטָּה, פָּטוּר אַף עַל הַמִּטָּה, שֶׁהַמִּטָּה טְפֵלָה לוֹ, שֶׁהֲרֵי הַחַי נוֹשֵׂא אֶת עַצְמוֹ. הַמּוֹצִיא אֶת הַמֵּת בַּמִּטָּה, חַיָּב.
Aquele que transporta alimentos abaixo da medida dentro de um recipiente está isento, inclusive pelo recipiente, pois o recipiente é acessório aos alimentos. Aquele que transporta o vivo sobre a cama está isento, inclusive pela cama, pois a cama é acessória a ele, já que o vivo carrega a si mesmo. Aquele que transporta o morto sobre a cama é responsável.

Por que a halachá não segue Rabi Shimon. A halachá segue os sábios anônimos (tanna kama) em ambos os pontos de disputa com Rabi Shimon: primeiro, que dois que juntos transportam um objeto que um só não conseguiria são responsáveis (e não isentos, como Rabi Shimon sustenta em qualquer caso de colaboração); segundo, que quem transporta uma azeitona do cadáver, da carcaça, ou uma lentilha do réptil é responsável pela oferenda plena — e não isento, como Rabi Shimon entende, por considerar essa remoção uma "obra desnecessária em si mesma". O Rambam também nota, na sua introdução a este tema, que "o vivo carrega a si mesmo" é válido apenas para pessoas; um animal, ainda vivo, é considerado carga plena se transportado, pois não tem a mesma condição de "portador de si próprio" que o ser humano.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Os comentadores esclarecem por que o vivo "carrega a si mesmo", e a lógica por trás da divergência de Rabi Shimon quanto às impurezas mínimas.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Shabat 10:5
הִשְׁמִיעֲךָ בְּזוֹ הַהֲלָכָה הָעִקָּר שֶׁהִקְדַּמְנוּ בְּרֹאשׁ פֶּרֶק א' מִזֹּאת הַמַּסֶּכְתָּא, וְהוּא כִּי הַמְּלָאכָה כְּשֶׁשְּׁנַיִם גּוֹמְרִין אוֹתָהּ שֶׁהֵן פְּטוּרִין, הָעוֹשֶׂה אֶת כֻּלָּהּ וְלֹא הָעוֹשֶׂה מִקְצָתָהּ. וְדַע כִּי הָעִקָּר אֶצְלֵנוּ הֶחָי נוֹשֵׂא אֶת עַצְמוֹ, וּלְפִיכָךְ הַמּוֹצִיא אָדָם חַי אֵינוֹ מַשּׂאוֹי, אֲבָל אִם הָיָה כָּפוּת הוּא מַשּׂאוֹי לְדִבְרֵי הַכֹּל. אֲבָל בְּהֵמָה חַיָּה וְעוֹף, אַף עַל פִּי שֶׁהֵם חַיִּים, מַשּׂאוֹי הֵם לְדַעַת חֲכָמִים. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן.

Esta halachá te faz ouvir o princípio que antecipamos no início do primeiro capítulo deste tratado: que a obra, quando dois a completam, ambos ficam isentos, pois a responsabilidade recai apenas sobre quem a faz por inteiro, e não sobre quem faz apenas parte dela.

E sabe que o princípio conosco é que o vivo carrega a si mesmo, e por isso quem transporta uma pessoa viva não a considera uma carga; mas se estivesse amarrada, é carga segundo todos. Já um animal, fera ou ave, ainda que vivos, são carga segundo os sábios. E a halachá não é como Rabi Shimon.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Shabat 10:5
הוֹצִיאוּהוּ שְׁנַיִם פְּטוּרִים. כִּדְיָלְפִינַן בַּעֲשׂוֹתָהּ אַחַת מִכָּל מִצְוֹת ה', הָעוֹשֶׂה אֶת כֻּלָּהּ וְלֹא הָעוֹשֶׂה מִקְצָתָהּ: וְרַבִּי שִׁמְעוֹן פּוֹטֵר. דְּסָבַר אֲפִלּוּ כְּשֶׁאֵין יָחִיד יָכֹל לַעֲשׂוֹתָהּ אִם עֲשָׂאוּהָ שְׁנַיִם פְּטוּרִים. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן: אֶת הַחַי בַּמִּטָּה. עַל הַחַי לֹא מִחַיַּב בְּהוֹצָאָתוֹ אִם אֵינוֹ כָּפוּת, לְפִי שֶׁהוּא נוֹשֵׂא אֶת עַצְמוֹ. וְהָנֵי מִלֵּי אָדָם, אֲבָל בְּהֵמָה חַיָּה וְעוֹף לֹא, דִּכְמַאן דִּכְפוּתִין דָּמוּ: וְכֵן כַּזַּיִת מִן הַמֵּת. חַיָּב אִם הוֹצִיאוֹ, דְּהוֹאִיל וּמְטַמֵּא, הוֹצָאָה חֲשׁוּבָה הִיא לְהַצִּיל עַצְמוֹ מִן הַטֻּמְאָה. וְכֵן כַּזַּיִת מִן הַנְּבֵלָה וְכָעֲדָשָׁה מִן הַשֶּׁרֶץ, דְּהָכִי הֲוֵי שִׁעוּרָן לְטֻמְאָה: וְרַבִּי שִׁמְעוֹן פּוֹטֵר. אֲפִלּוּ בְּמֵת שָׁלֵם, דַּהֲוֵי מְלָאכָה שֶׁאֵינָהּ צְרִיכָה לְגוּפָהּ, דְּכָל שֶׁאֵינוֹ אֶלָּא לְסַלְּקוֹ מֵעָלָיו הַוְיָא מְלָאכָה שֶׁאֵינָהּ צְרִיכָה לְגוּפָהּ וְלָאו מְלֶאכֶת מַחֲשֶׁבֶת הִיא. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן.

"Se dois o transportaram, estão isentos" — como derivamos de "ao fazer uma das ordenanças de Hashem": a responsabilidade recai sobre quem a faz por inteiro, e não sobre quem faz apenas parte dela.

"E Rabi Shimon isenta" — pois entende que mesmo quando um só não pode realizá-la, se dois a realizaram, estão isentos. E a halachá não é como Rabi Shimon.

"O vivo sobre a cama" — quanto ao vivo, não se torna responsável por transportá-lo se não estiver amarrado, pois ele carrega a si mesmo. E isto se aplica apenas a pessoas; mas animal, fera e ave, não, pois são como se estivessem amarrados.

"E do mesmo modo uma azeitona do cadáver" — é responsável se a transportou, pois, sendo fonte de impureza, a remoção é significativa, para se livrar da impureza. E do mesmo modo uma azeitona da carcaça e uma lentilha do réptil, pois essa é sua medida mínima de impureza.

"E Rabi Shimon isenta" — mesmo no caso de um cadáver inteiro, pois considera isso uma obra desnecessária em si mesma — já que tudo o que serve apenas para afastar de si algo indesejado é obra desnecessária em si mesma, e não é obra pensada e completa. E a halachá não é como Rabi Shimon.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Shabat 93b-94a
ששגג על האוכלין והזיד על הכלי - ומאי חייב דקתני מיתה: והא אף קתני - משמע שני חיובין שוין: בפלוגתא דר"י ור"ל - דאיפלוגי בידיעות מחלקות בפ' כלל גדול, איפלוגי נמי רב ששת ורב אשי הכא, רב ששת דלא מוקי לה הכי קסבר דאין ידיעות מחלקות, ורב אשי סבר ידיעות מחלקות.

"Agiu por engano quanto aos alimentos e deliberadamente quanto ao recipiente" — caso discutido pela Guemará ao aprofundar a regra do recipiente acessório desta mishná — e qual é o "responsável" mencionado ali? Refere-se à pena de morte por transgressão deliberada, e não à oferenda pelo pecado.

"E ensinou também 'inclusive'" — o termo empregado na mishná sugere que as duas responsabilidades — pelo alimento e pelo recipiente — são equivalentes.

"Segundo a disputa entre Rabi Yochanan e Reish Lakish" — que divergem sobre se "conhecimentos intermediários dividem" a responsabilidade, tal como discutido no capítulo Klal Gadol; nesse mesmo ponto divergem também Rav Sheshet e Rav Ashi aqui: Rav Sheshet, que não resolve a questão desse modo, entende que conhecimentos intermediários não dividem; e Rav Ashi entende que conhecimentos intermediários dividem.

Rumo ao encerramento do Perek Yud. Depois de tratar da colaboração no transporte e da distinção entre carga principal e acessória, a última mishná do capítulo abandonará o tema da hotza'ah propriamente dita para abrir uma nova frente: os atos de aparar unhas, cortar cabelo e arrancar plantas de um vaso — todos exemplos de trabalhos realizados diretamente sobre o corpo ou sobre algo enraizado, encerrando o Perek Yud com um contraste deliberado ao seu tema central.