Como assim? — pergunta que os sábios formulam para explicar em que caso isentam o lançamento entre dois domínios privados — Duas sacadas — estruturas de madeira que se projetam da parede de um andar superior, sobre o domínio público, e têm status de domínio privado pleno — uma diante da outra no domínio público, aquele que passa de mão em mão ou lança um objeto desta para aquela está isento — pois não encontramos, na obra do Mishcan, nem passar de mão em mão nem lançar entre dois domínios privados com a largura do domínio público interposta entre eles. Estavam ambas no mesmo nível — ou seja, no mesmo andar, ao longo do domínio público, com o domínio público separando-as — aquele que passa é responsável, e aquele que lança está isento, pois assim era o serviço dos levitas — que passavam as tábuas do Mishcan de uma carroça a outra, ambas no domínio público, mas nunca as lançavam, por serem pesadas demais para isso: duas carroças, uma atrás da outra no domínio público, e os que desmontavam o Mishcan passavam as tábuas de uma carroça à outra próxima, e cada carroça tinha status de domínio privado. A borda — o monte de terra que circunda a boca de um poço — de um poço, e a rocha, que têm dez tefachim de altura e quatro tefachim de largura, aquele que tira delas um objeto para o domínio público, e aquele que coloca um objeto do domínio público sobre elas, é responsável — por transportar de um domínio a outro, pois tal borda ou rocha, com essa medida, tem status de domínio privado.
Esta mishná demonstra, a partir do modo exato como o Mishcan era desmontado e transportado, a fonte de cada detalhe da lei: por que passar de mão em mão e lançar recebem tratamentos distintos.
Por que passar de mão em mão é diferente de lançar. Todas as trinta e nove categorias de trabalho proibido no Shabat derivam-se das obras realizadas na construção e no transporte do Mishcan. Quando os levitas desmontavam o Mishcan para a marcha no deserto, eles carregavam as pesadas tábuas de madeira passando-as de uma carroça a outra, ambas situadas no domínio público, sem nunca as lançar de uma à outra — pois lançar tábuas tão pesadas as danificaria. Por isso, a Torá "ensinou" que passar de mão em mão entre dois domínios privados com o domínio público no meio configura transporte proibido pleno, ao passo que lançar, por não ter sido praticado no Mishcan dessa forma, permanece isento.
Como o Rambam codifica a regra da sacada e a lei sobre a borda do poço e a rocha, em Hilchot Shabat, capítulos catorze e quinze.
Por que a medida de dez por quatro é decisiva. A halachá segue esta mishná integralmente: qualquer elevação — borda de poço, rocha, ou estrutura similar — que tenha dez tefachim de altura e quatro de largura (a área mínima que define um domínio privado) tem esse status pleno, tornando responsável quem transportar de ou para ela através do domínio público circundante. Abaixo dessa medida, a elevação é tratada como parte do próprio domínio público, sem status jurídico distinto.
Os comentadores detalham a estrutura das sacadas, o desenho do transporte das tábuas do Mishcan e a definição da borda do poço.
"Como assim? Duas sacadas uma diante da outra no domínio público etc." — Gezuztra'ot são como saliências (tzotzra'ot), sendo uma construção de madeira que se projeta da parede para fora, nos andares superiores, sobre o domínio público, feita para ampliar o andar. Essas sacadas são domínio privado pleno. E quando uma dessas sacadas se projeta ao domínio público de um lado, e outra sacada do outro lado, fica o domínio público no meio, e domínio privado deste lado e domínio privado daquele lado.
"A borda do poço" é o lodo e o barro encontrado em seu fundo, e nos informa que quando há, na profundidade do poço junto com a borda, dez tefachim, o poço se combina com a borda para completar dez tefachim.
"Duas sacadas" — são tábuas que se projetam da parede do andar superior para fora, sobre o domínio público, e as próprias sacadas são domínio privado; e quando estão uma diante da outra em dois lados do domínio público, aquele que passa de mão em mão e aquele que lança de uma à outra está isento, pois não encontramos lançamento nem passagem de mão em mão na obra do Mishcan entre domínio privado e domínio privado com a largura do domínio público interposta entre eles.
"Estavam ambas no mesmo nível" — quer dizer, no mesmo andar, ao longo do domínio público, e há a interrupção do domínio público entre elas.
"Aquele que lança está isento" — visto que está acima de dez tefachim. "Pois assim era o serviço dos levitas" — passavam de mão em mão de um para o outro acima de dez tefachim, com a largura do domínio público no meio.
"Aquele que tira delas" — e coloca no domínio público, ou aquele que tira do domínio público e coloca sobre elas, é responsável.
"E os colchetes ficam visíveis nas argolas" — a Guemará, discutindo a construção do Mishcan como fonte para as leis de domínio, examina outro detalhe — é outro assunto: as cortinas do Mishcan formavam duas seções unidas, cada uma composta de cinco cortinas costuradas uma à outra com agulha ao longo de todo o seu comprimento, e no meio uma seção era unida à outra por meio de colchetes, pois havia argolas na borda externa de cada seção, no meio do Mishcan, umas diante das outras, conforme está escrito: "argolas correspondentes..." (Shemot 26:20).