Aquele que escreve duas letras em um único lapso de esquecimento é responsável. Escreveu com tinta, com corante, com sicra, com goma e com sulfato de cobre, e com qualquer material que marca de modo duradouro, sobre duas paredes de um canto — uma na parede leste e outra na parede norte, adjacentes no ângulo — ou sobre duas tábuas de um caderno comercial, e elas se leem juntas — isto é, as letras escritas em cada superfície, quando lidas em sequência, formam uma palavra ou expressão com sentido — é responsável. Aquele que escreve em sua própria pele — com tinta — é responsável. Aquele que risca em sua pele — fazendo o formato das letras com uma ferramenta cortante, sem usar tinta — Rabi Eliezer responsabiliza por trazer oferenda pelo pecado, e Rabi Yehoshua isenta — pois este último considera que riscar sem tinta não é a forma usual de escrever, mesmo que produza sangue.
Esta mishná amplia a categoria de escrever para além de sua forma mais comum: qualquer material que deixe marca duradoura conta como escrita, e a escrita distribuída em duas superfícies vizinhas — desde que se leia como uma unidade — também gera responsabilidade.
A relação entre "riscar na pele" e a proibição de tatuagem. É notável que o mesmo ato discutido nesta mishná — riscar letras na própria pele — também aparece na Torá como proibição independente, ligada aos costumes de luto pagãos. Aqui, porém, a discussão entre Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua não trata da proibição de tatuagem em si, mas de saber se o ato de riscar (sem tinta) se enquadra tecnicamente na categoria de trabalho proibido de "escrever" no Shabat — uma questão distinta, embora relacionada.
Como o Rambam codifica as regras sobre materiais de escrita, superfícies múltiplas, e a escrita sobre o corpo, em Hilchot Shabat, capítulo onze.
Por que o Rambam decide como Rabi Yehoshua. O critério decisivo, segundo o Rambam, não é a permanência da marca em si, mas se o método usado corresponde à "forma usual de escrever" (derech ktivah). Escrever com tinta invisível mas permanente ainda conta como escrita, porque o método — aplicar substância sobre superfície — é o convencional. Já riscar a pele sem qualquer substância colorida, mesmo produzindo ferimento visível, não é considerado o modo padrão de escrever, e por isso a norma prática segue a opinião de Rabi Yehoshua, que isenta.
Os comentadores identificam os materiais de escrita mencionados na mishná e explicam a condição de que as duas superfícies "se leiam juntas".
"Aquele que escreve duas letras em um único lapso de esquecimento etc." — Dyo (tinta) é conhecida: "escreve no livro com tinta" (Yirmeyahu 36:18).
"Sam" é o nome de uma substância base, seja qual for essa substância, e aqui se refere à substância corante.
"Sikra" também é conhecida, e é como uma pedra que tinge de vermelho.
"Komos" é um tipo de terra de cor preta, e em árabe se chama alza'g.
"Kankantom" é do tipo de komos, e assim se chama em árabe kalkantom.
"Qualquer coisa que marca" quer dizer que sua marca permanece.
"Pinkas" (caderno) é um livro, isto é, registro de contadores.
"Nehagin" (que se leem) deriva de "e meditarás nele" (Yehoshua 1), querendo dizer que uma letra estará em correspondência com a segunda letra.
E quanto ao que disse "risca em sua pele" — é que escreve por meio de risco na superfície de sua pele; e mesmo que tenha feito sair sangue, não é responsável por oferenda pelo pecado, segundo Rabi Yehoshua, pois esta não é a forma usual de escrever. E a norma prática é como Rabi Yehoshua.
"Com sam" — termo em francês antigo, um tipo de pigmento amarelo alaranjado.
"Com sikra" — um tipo de pedra que tinge de vermelho.
"Com komos" — um tipo de terra de cor preta. Outra explicação: seiva de árvore, termo francês para goma.
"Com kankantom" — chamado za'g em árabe, e em francês antigo, vidríolo.
"E com qualquer coisa que marca" — vem incluir a água em que se demolharam gálhas de carvalho, usada como tintura, que é uma marca cujo traço permanece.
"Sobre duas paredes de um canto" — uma no leste e outra no norte, adjacentes uma à outra no ângulo.
"Sobre duas tábuas de um caderno" — livro no qual o comerciante escreve suas contas. E ainda que não estejam sobre uma única tábua, se se leem e se pronunciam juntas — como quando se escreve nas duas margens adjacentes das tábuas vizinhas — é responsável.
"Aquele que escreve em sua pele" — com tinta.
"E aquele que risca em sua pele" — com ferro, faz o formato das letras em sua pele.
"Rabi Yehoshua isenta" — mesmo que tenha feito sair sangue, pois esta não é a forma usual de escrever. E a norma prática é como Rabi Yehoshua.
"Nossa mishná: 'sobre duas paredes de um canto'" — uma no leste e uma no norte, adjacentes uma à outra no ângulo.
"'Sobre duas tábuas de um caderno'" — caderno de comerciantes semelhante àqueles usados pelos negociantes, que têm muitas tábuas gravadas e revestidas de cera.
"'Sobre duas tábuas de um caderno'" — a Guemará observa que a mishná nos ensina algo notável: que, embora não estejam sobre uma única tábua, se se leem e se pronunciam juntas — pois estão escritas nas duas margens das tábuas adjacentes uma à outra — é responsável.
"'Aquele que escreve em sua pele'" — com tinta.
"'Aquele que risca'" — com instrumento cortante ou com cal.
A unidade da escrita mesmo sobre superfícies distintas. O ponto central desta mishná — reforçado por Rashi — é que a categoria de "escrever" não exige uma única superfície contínua. O que importa é que o resultado, quando lido, componha uma unidade de sentido. Duas letras em paredes adjacentes de um canto, ou em duas tábuas vizinhas de um caderno comercial, satisfazem essa condição porque a leitura natural do observador as une; já duas tábuas distantes, cujas letras não se conectam na leitura, não geram a mesma responsabilidade — como esclarecerá a mishná seguinte.