Seder Moed · Massechet Shabat · Perek Yud Dalet · Mishná 4 (última do perek)

Quem sofre dos dentes não sorva vinagre

הַחוֹשֵׁשׁ בְּשִׁנָּיו לֹא יִגְמַע בָּהֶן אֶת הַחֹמֶץ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Quem sofre dos dentes não sorva vinagre com eles, mas pode mergulhar seu pão como de costume, e se curar, que se cure; quem sofre dos quadris não unte vinho e vinagre, mas pode untar óleo, mas não óleo de rosas; filhos de reis untam óleo de rosas em suas feridas, pois é seu costume untá-lo em dias comuns — Rabi Shimon diz: todo Israel são filhos de reis

Quem sofredor — dos dentes não sorva vinagre com elesno Shabat, com propósito medicinal, deixando o vinagre em contato prolongado com os dentes e depois cuspindo-o, pois isso evidenciaria claramente um tratamento — mas pode mergulharseu alimento no vinagre — como de costumee comê-lo normalmente — e, se curaresse ato incidentalmente aliviar a dor, que se curepois não há proibição no resultado, apenas no ato deliberadamente terapêutico. Quem sofre dos quadris não unte vinho e vinagresobre a região dolorida, pois pessoas saudáveis não costumam untar-se com essas substâncias, o que tornaria evidente o propósito medicinal — mas pode untar óleoque pessoas saudáveis também costumam usar para untar o corpo — mas não óleo de rosasque é caro e usado quase exclusivamente como remédio, tornando seu uso reveladamente medicinal. Filhos de reis untam óleo de rosas em suas feridasno Shabat, sem que isso seja proibido — pois é seu costume untá-lo em dias comunsmesmo sem qualquer ferida, por prazer e higiene, de modo que, para eles, o óleo de rosas não constitui indício de tratamento médico. Disse Rabi Shimon: todo Israel são filhos de reise, portanto, esta permissão não se restringe à realeza, mas se estende a todo o povo de Israel.

הַחוֹשֵׁשׁ בְּשִׁנָּיו, לֹא יִגְמַע בָּהֶן אֶת הַחֹמֶץ, אֲבָל מְטַבֵּל הוּא כְדַרְכּוֹ, וְאִם נִתְרַפֵּא נִתְרַפֵּא. הַחוֹשֵׁשׁ בְּמָתְנָיו, לֹא יָסוּךְ יַיִן וְחֹמֶץ, אֲבָל סָךְ הוּא אֶת הַשֶּׁמֶן, וְלֹא שֶׁמֶן וֶרֶד. בְּנֵי מְלָכִים סָכִין שֶׁמֶן וֶרֶד עַל מַכּוֹתֵיהֶן, שֶׁכֵּן דַּרְכָּם לָסוּךְ בַּחֹל. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, כָּל יִשְׂרָאֵל בְּנֵי מְלָכִים הֵם:

Sobre o costume como critério · עַל הַמִּנְהָג כְּסִימָן

Esta mishná encerra o Perek Yud-Dalet aplicando o princípio de "alimento e uso comuns" já estabelecido na mishná anterior a tratamentos externos — untar e mergulhar — e o refina com um ensinamento notável: o que conta como "uso comum" pode variar conforme o costume social de cada pessoa, de modo que o óleo de rosas, proibido para a maioria por ser incomum, é permitido aos filhos de reis, para quem é hábito cotidiano; e Rabi Shimon amplia essa permissão a todo o povo de Israel, elevando a dignidade de cada judeu à de um filho de rei.

Shemot 20:8-10
זָכוֹר אֶת יוֹם הַשַּׁבָּת לְקַדְּשׁוֹ׃ שֵׁשֶׁת יָמִים תַּעֲבֹד וְעָשִׂיתָ כָּל מְלַאכְתֶּךָ׃ וְיוֹם הַשְּׁבִיעִי שַׁבָּת לַיהוָה אֱלֹהֶיךָ, לֹא תַעֲשֶׂה כָל מְלָאכָה אַתָּה וּבִנְךָ וּבִתֶּךָ עַבְדְּךָ וַאֲמָתְךָ וּבְהֶמְתֶּךָ וְגֵרְךָ אֲשֶׁר בִּשְׁעָרֶיךָ׃
Lembra-te do dia de Shabat para santificá-lo. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra; mas o sétimo dia é Shabat para Hashem, teu D-us; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu servo, nem tua serva, nem teu animal, nem teu estrangeiro que está em tuas portas.

O princípio de dignidade real aplicado a todo o povo. A Guemará (Shabat 111a-b) explica que a afirmação de Rabi Shimon — "todo Israel são filhos de reis" — não é meramente retórica, mas uma regra halachica operativa: sempre que a permissão de um ato depende do costume de pessoas de posição elevada, essa permissão se estende a todo judeu, pois cada membro do povo de Israel é considerado, para efeitos destas leis, como um filho de rei. Este ensinamento, colocado deliberadamente ao final do perek dedicado aos limites entre alimentação, cura e trabalho proibido, sublinha que a preocupação da Torá com a santidade do Shabat não visa privar o povo de conforto e dignidade, mas apenas impedir que o dia sagrado se confunda com um dia comum de labor.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como o Rambam codifica as leis de untar e mergulhar com propósito medicinal, encerrando o bloco das leis de remédio em Hilchot Shabat, capítulo vinte e um.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shabat 21:23
וְכֵן שְׁמָנִים שֶׁדֶּרֶךְ הַבְּרִיאִים לָסוּךְ בָּהֶן, מֻתָּר לָסוּךְ בָּהֶן בְּשַׁבָּת, וְאַף עַל פִּי שֶׁנִּתְכַּוֵּן לִרְפוּאָה. וְשֶׁאֵין הַבְּרִיאִים סָכִין בָּהֶן, אֲסוּרִין. הַחוֹשֵׁשׁ בְּמָתְנָיו לֹא יָסוּךְ יַיִן וְחֹמֶץ, אֲבָל סָךְ הוּא אֶת הַשֶּׁמֶן, וְלֹא שֶׁמֶן וֶרֶד אֶלָּא בְּמָקוֹם שֶׁהַבְּרִיאִים סָכִין אוֹתוֹ.
E, do mesmo modo, óleos que pessoas saudáveis costumam usar para untar-se são permitidos para untar-se no Shabat, ainda que a intenção seja de remédio; mas os que pessoas saudáveis não usam para untar-se são proibidos. Quem sofre dos quadris não deve untar vinho e vinagre, mas pode untar óleo, e não óleo de rosas, exceto no lugar em que pessoas saudáveis costumam untá-lo.
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shabat 21:24
הַחוֹשֵׁשׁ בְּשִׁנָּיו לֹא יִגְמַע בָּהֶן אֶת הַחֹמֶץ וְיִפְלֹט, אֲבָל מְגַמֵּעַ הוּא וּבוֹלֵעַ. הַחוֹשֵׁשׁ בִּגְרוֹנוֹ לֹא יְעַרְעֶנּוּ בְּשֶׁמֶן, אֲבָל בּוֹלֵעַ הוּא שֶׁמֶן הַרְבֵּה, וְאִם נִתְרַפֵּא נִתְרַפֵּא.
Quem sofre dos dentes não deve sorver vinagre com eles e cuspi-lo, mas pode sorvê-lo e engoli-lo. Quem sofre da garganta não deve fazer gargarejo com óleo, mas pode engolir bastante óleo, e, se curar, que se cure.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Os comentadores explicam a diferença entre sorver e cuspir, e a razão pela qual o óleo de rosas se torna permitido aos filhos de reis.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Shabat 14:4
החושש בשניו לא יגמע בהן את החומץ כו': החושש בשיניו לחזק רפיון בשר השנים אסור לו לגמע החומץ ולזורקו מפיו, אבל מותר לו לגמע ולבלוע, והוא אמרם לא יגמע ויפלוט אבל מגמע ובולע. וגמע כמו אגמע, מגזרת "הגמיאני נא" (בראשית כד, יז). והלכה כרבי שמעון, וצריך שתהיה אותה המשיחה משתמשין בה בני אדם הרבה.

"Quem sofre dos dentes não sorva vinagre com eles etc." — quem sofre dos dentes, para fortalecer a carne frouxa dos dentes, é proibido a ele sorver o vinagre e cuspi-lo de sua boca; mas é permitido a ele sorver e engolir — e isto é o que dizem: "não sorva e cuspa, mas sorva e engula".

E "sorver" é como "eu sorverei", da expressão "dá-me de beber, peço-te" (Bereshit 24:17).

E a halachá segue Rabi Shimon — que todo Israel são filhos de reis — e é necessário que aquela untura seja usada por muitas pessoas — isto é, que o costume de untá-la em dias comuns seja suficientemente difundido para que não pareça, no Shabat, um tratamento excepcional.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Shabat 14:4
לֹא יִגְמַע אֶת הַחֹמֶץ. וְיִפְלֹט, דְּמוּכְחָא מִלְּתָא דְּלִרְפוּאָה הוּא. וְאִם מְגַמֵּעַ וּבוֹלֵעַ שַׁפִּיר דָּמִי. לֹא יָסוּךְ בָּהֶם יַיִן וְחֹמֶץ. דְּאֵין אָדָם סָךְ מֵהֶן אֶלָּא לִרְפוּאָה. אֲבָל לֹא שֶׁמֶן וֶרֶד. לְפִי שֶׁדָּמָיו יְקָרִים וּמוּכְחָא מִלְּתָא דְּלִרְפוּאָה קָעָבֵיד. שֶׁכֵּן דַּרְכָּן לָסוּךְ. בְּלֹא מַכָּה. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר כוּ'. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן.

"Não sorva o vinagre" — e cuspa, pois a própria coisa demonstra que é feito por remédio; mas, se sorve e engole, está bem.

"Não unte com eles vinho e vinagre" — pois uma pessoa não se unta com eles senão por remédio.

"Mas não óleo de rosas" — porque seu preço é caro, e a própria coisa demonstra que se faz por remédio.

"Pois é seu costume untá-lo" — mesmo sem ferida.

"Disse Rabi Shimon etc." — e a halachá não segue Rabi Shimon — segundo o Bartenura, a opinião normativa restringe a permissão do óleo de rosas apenas aos filhos de reis propriamente ditos, e não a estende a todo Israel, ao contrário da leitura do Rambam.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Shabat 111a
מתני' מטבל כדרכו. מאכלו ופתו בחומץ: לא יסוך בהן יין וחומץ. דאין אדם סך אותו אלא לרפואה: אבל לא שמן וורד. לפי שדמיו יקרין ואינו מצוי ומוכחא מילתא דלרפואה עביד: שכן דרכן לסוך בחול. בלא מכה.

"Mishná: mergulha como de costume" — seu alimento e seu pão em vinagre.

"Não unte com eles vinho e vinagre" — pois uma pessoa não se unta com eles senão por remédio.

"Mas não óleo de rosas" — porque seu preço é caro e não é comum, e a própria coisa demonstra que se faz por remédio.

"Pois é seu costume untá-lo em dias comuns" — mesmo sem ferida.

O encerramento do Perek Shemoná Shratzim. Com esta mishná se conclui o Perek Yud-Dalet, que abriu tratando das leis de captura e ferimento dos oito répteis mencionados na Torá, e dedicou o restante de suas mishnayot aos limites entre alimentação, tempero e tratamento médico no Shabat — sempre girando em torno do mesmo princípio: o costume comum, e não a intenção oculta do coração, é o que determina se um ato revela ou não um tratamento proibido. O perek termina com a elevação de todo o povo de Israel à dignidade de filhos de reis, preparando o terreno para o próximo perek, que tratará das leis de nós permitidos e proibidos no Shabat.