Seder Moed · Massechet Shabat · Perek Kaf-Gimel · Mishná 3

Não contratar trabalhadores em Shabat; ir até o limite por um preceito

לֹא יִשְׂכֹּר אָדָם פּוֹעֲלִים בְּשַׁבָּת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Não se contrata trabalhadores em Shabat, nem se diz ao vizinho que contrate trabalhadores para si. Não se vai ao limite da cidade para contratar trabalhadores e trazer frutas, mas vai-se ao limite para vigiar, e traz-se frutas na mão. Regra geral disse Abba Shaul: tudo aquilo que eu tenho o direito de dizer, tenho permissão de ir ao limite por causa disso.

Não se contrata trabalhadores em Shabatpois isso é uma transação, semelhante a comprar e vender, vedada por decreto contra a escrita — nem se diz ao vizinho que contrate trabalhadores para simesmo pedir a outro israelita que faça a contratação em seu lugar é proibido, pois quem envia o outro está, ele mesmo, incorrendo em transgressão indireta — não se vai ao limite da cidadea expressão machshichin designa aproximar-se do limite (techum) de Shabat ao anoitecer, para já estar posicionado assim que o dia sagrado terminar — para contratar trabalhadores e trazer frutasisto é, ir até a fronteira da área permitida de caminhada apenas para, no instante em que Shabat terminar, estar mais perto do pomar ou dos trabalhadores e agir mais rápido — isso é vedado, pois qualquer coisa proibida de se fazer em Shabat também é proibida de se preparar dessa forma antecipada — mas vai-se ao limite para vigiarpois vigiar os próprios frutos contra ladrões é uma atividade permitida mesmo durante Shabat, e por isso não há problema em posicionar-se para isso — e traz-se frutas na mãose, estando lá para vigiar, a pessoa acaba trazendo frutas de volta, isso é permitido, pois sua intenção original não era essa — regra geral disse Abba Shaulampliando o princípio além dos casos já mencionados — tudo aquilo que eu tenho o direito de dizeristo é, qualquer instrução que seja permitido dar a alguém em Shabat, mesmo que sua execução ocorra apenas depois — como avisar um gentio, na próxima mishná, para providenciar um caixão e mortalhas — tenho permissão de ir ao limite por causa dissoou seja, é igualmente permitido posicionar-se no limite da cidade ao anoitecer, à espera do momento exato em que Shabat termina, para agilizar aquilo que já era lícito ordenar.

לֹא יִשְׂכֹּר אָדָם פּוֹעֲלִים בְּשַׁבָּת, וְלֹא יֹאמַר אָדָם לַחֲבֵרוֹ לִשְׂכֹּר לוֹ פּוֹעֲלִים. אֵין מַחְשִׁיכִין עַל הַתְּחוּם לִשְׂכֹּר פּוֹעֲלִים וּלְהָבִיא פֵרוֹת, אֲבָל מַחְשִׁיךְ הוּא לִשְׁמֹר, וּמֵבִיא פֵרוֹת בְּיָדוֹ. כְּלָל אָמַר אַבָּא שָׁאוּל, כֹּל שֶׁאֲנִי זַכַּאי בַּאֲמִירָתוֹ, רַשַּׁאי אֲנִי לְהַחְשִׁיךְ עָלָיו:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim 5:12-15
שָׁמוֹר אֶת יוֹם הַשַּׁבָּת לְקַדְּשׁוֹ כַּאֲשֶׁר צִוְּךָ ה׳ אֱלֹהֶיךָ׃ שֵׁשֶׁת יָמִים תַּעֲבֹד וְעָשִׂיתָ כָּל מְלַאכְתֶּךָ׃ וְיוֹם הַשְּׁבִיעִי שַׁבָּת לַה׳ אֱלֹהֶיךָ לֹא תַעֲשֶׂה כָל מְלָאכָה אַתָּה וּבִנְךָ וּבִתֶּךָ וְעַבְדְּךָ וַאֲמָתֶךָ וְשׁוֹרְךָ וַחֲמֹרְךָ וְכָל בְּהֶמְתֶּךָ וְגֵרְךָ אֲשֶׁר בִּשְׁעָרֶיךָ לְמַעַן יָנוּחַ עַבְדְּךָ וַאֲמָתְךָ כָּמוֹךָ׃ וְזָכַרְתָּ כִּי עֶבֶד הָיִיתָ בְּאֶרֶץ מִצְרַיִם וַיֹּצִאֲךָ ה׳ אֱלֹהֶיךָ מִשָּׁם בְּיָד חֲזָקָה וּבִזְרֹעַ נְטוּיָה עַל כֵּן צִוְּךָ ה׳ אֱלֹהֶיךָ לַעֲשׂוֹת אֶת יוֹם הַשַּׁבָּת׃
Guarda o dia de Shabat para santificá-lo, como Hashem teu Elohim te ordenou. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é Shabat para Hashem teu Elohim; não farás nenhum trabalho, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu servo, nem tua serva, nem teu boi, nem teu jumento, nem nenhum dos teus animais, nem teu estrangeiro que está dentro de tuas portas, para que descansem teu servo e tua serva como tu. E lembra-te de que foste escravo na terra do Egito, e Hashem teu Elohim te tirou de lá com mão forte e braço estendido; por isso Hashem teu Elohim te ordenou fazer o dia de Shabat.

"Não farás nenhum trabalho... nem teu servo." O versículo de Devarim, ao mencionar explicitamente o descanso do servo e da serva, é a base para a proibição de contratar trabalhadores em Shabat — pois contratar alguém para trabalhar em nosso benefício, mesmo que o trabalho comece apenas depois, tem a aparência de negar a esse trabalhador o descanso que a Torá lhe garante. Por isso os Sábios estenderam o decreto contra "escrever" (que veda comprar, vender, contratar e alugar) também à própria fala: não apenas contratar, mas até pedir a um terceiro que contrate em nosso nome, é vedado (Rambam, Hilchot Shabat 23:12).

Halachot · הֲלָכוֹת

A mesma halacha do Rambam que trata do empréstimo entre vizinhos (23:1) também codifica, na sequência imediata, a proibição de contratar trabalhadores.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shabat 23:12
וְאָסוּר לִלְווֹת וּלְהַלְווֹת גְּזֵרָה שֶׁמָּא יִכְתֹּב. וְכֵן אָסוּר לִקְנוֹת וְלִמְכֹּר וְלִשְׂכֹּר וּלְהַשְׂכִּיר גְּזֵרָה שֶׁמָּא יִכְתֹּב. לֹא יִשְׂכֹּר אָדָם פּוֹעֲלִים בְּשַׁבָּת וְלֹא יֹאמַר לַחֲבֵרוֹ לִשְׂכֹּר לוֹ פּוֹעֲלִין:
E é proibido tomar emprestado e emprestar formalmente, por decreto, para que não se venha a escrever. E do mesmo modo é proibido comprar e vender, contratar e alugar, por decreto, para que não se venha a escrever. Não se contrata trabalhadores em Shabat, nem se diz ao vizinho que contrate trabalhadores para si.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Os comentadores explicam a regra de Abba Shaul: a permissão de ir ao limite da cidade se estende a qualquer providência que já seja lícito ordenar em Shabat — inclusive, como se verá na próxima mishná, os preparativos para uma noiva ou um morto.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Shabat 23:3
לא ישכור פועלים בשבת ולא יאמר אדם לחבירו כו': הכל מודים כי מותר לאדם שיאמר לחברו שמור לי פירותי שבתחומך ואשמור לך פירותיך שבתחומי וכמו שמותר לצוות חברו בשמירה כך מותר לו שיחשיך לשמור וזהו ענין אמרם כל שאני זכאי באמירתו רשאי אני להחשיך עליו וענין להחשיך על התחום שילך בשבת עד סוף תחום שבת וישב בסוף התחום עד שיצא שבת ויעשה דבר פלוני וכבר ידעת כי אסור לנו בשבת הדבור והעצה וההשתדלות בשום דבר שנעשה אותו לאחר השבת מן הדברים שהן אסורין לעשות בשבת כמו שפירש ואמר ממצוא חפצך ודבר דבר וכתיב עשות חפציך ביום קדשי מלבד אם הוא דבר מצוה ויהיה דבור חפצי שמים כגון שידבר בו אדם בשדוכי הנערים והנערות ולמוד הבנים תורה או כתב או מלאכה כי השתדלות באלו הדברים כולם מצוה:

"Não se contrata trabalhadores em Shabat, nem se diz ao vizinho etc." — todos concordam que é permitido dizer ao vizinho "vigia para mim os meus frutos que estão no teu limite, e eu vigiarei para ti os teus frutos que estão no meu limite"; e assim como é permitido instruir o vizinho a vigiar, também é permitido ir ao limite ao anoitecer para vigiar — e este é o sentido do que disseram: "tudo aquilo que eu tenho o direito de dizer, tenho permissão de ir ao limite por causa disso".

E o sentido de "ir ao limite ao anoitecer" é que a pessoa caminhe em Shabat até o fim do limite de Shabat, e se sente ali no fim do limite até que Shabat termine, para então fazer tal coisa. E já sabes que nos é proibido em Shabat a fala, o conselho e o empenho em qualquer assunto que se realizará depois de Shabat, entre as coisas proibidas de se fazer em Shabat — como se explica no versículo "de buscar teus interesses e falar palavras" (Yeshaiáhu 58:13) — exceto se for um assunto de preceito, ou fala referente a "assuntos do Céu", como quando alguém fala sobre o noivado de rapazes e moças, ou o ensino da Torá aos filhos, ou escrita, ou ofício — pois o empenho em todas essas coisas é um preceito.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Shabat 23:3
לֹא יִשְׂכֹּר אָדָם פּוֹעֲלִים. דִּכְתִיב (ישעיה נח) מִמְצֹא חֶפְצְךָ וְדַבֵּר דָּבָר: וְלֹא יֹאמַר אָדָם לַחֲבֵרוֹ כוּ'. לְדִיּוּקָא נָקְטֵיהּ, לֹא יֹאמַר לַחֲבֵרוֹ שְׂכֹר לָנוּ פּוֹעֲלִים, אֲבָל אוֹמֵר לוֹ הֲנִרְאֶה שֶׁתַּעֲמֹד עִמִּי לָעֶרֶב, כְּלוֹמַר עַכְשָׁיו נִרְאֶה אִם תָּבֹא אֵלַי לִכְשֶׁתֶּחְשַׁךְ, וְאַף עַל פִּי שֶׁשְּׁנֵיהֶם יוֹדְעִים שֶׁעַל מְנָת לְשָׂכְרוֹ לִפְעֻלָּתוֹ הוּא מַזְהִירוֹ, כֵּיוָן דְּלֹא מְפָרֵשׁ לֵיהּ שְׂכִירוּת בְּהֶדְיָא שָׁרֵי, דְּקַיְמָא לָן דִּבּוּר אָסוּר הִרְהוּר מֻתָּר: אֵין מַחְשִׁיכִין עַל הַתְּחוּם. לְקָרֵב עַצְמוֹ בְּשַׁבָּת עַד סוֹף הַתְּחוּם וּלְהַחְשִׁיךְ שָׁם שֶׁיְּהֵא קָרוֹב לִמְקוֹם הַפּוֹעֲלִים אוֹ לַפַּרְדֵּס לְהָבִיא פֵּרוֹת, דְּכָל דָּבָר שֶׁאָסוּר לַעֲשׂוֹתוֹ בְּשַׁבָּת אָסוּר לְהַחְשִׁיךְ עָלָיו, אֲבָל מַחְשִׁיךְ הוּא לִהְיוֹת קָרוֹב לָצֵאת וְלִשְׁמֹר פֵּרוֹתָיו, דְּזֶה דָּבָר הַמֻּתָּר בְּשַׁבָּת לִשְׁמֹר פֵּרוֹתָיו: וּמֵבִיא פֵרוֹת בְּיָדוֹ. הוֹאִיל וְעִקַּר מַחְשַׁבְתּוֹ לֹא הָיְתָה לְכָךְ: כְּלָל אָמַר אַבָּא שָׁאוּל. אַתַּנָּא קַמָּא פָּלֵיג, דְּאָסַר כָּל הַחְשָׁכָה וְלֹא מַפְלִיג בֵּין הַחְשָׁכָה שֶׁל מִצְוָה לְהַחְשָׁכָה שֶׁל רְשׁוּת, וַאֲתָא אִיהוּ וְאָמַר דְּהַחְשָׁכָה שֶׁל מִצְוָה שַׁרְיָא, שֶׁכְּשֵׁם שֶׁמֻּתָּר לוֹמַר לַחֲבֵרוֹ בְּשַׁבָּת תִּהְיֶה מְזֻמָּן לֵילֵךְ לְאַחַר חֲשֵׁכָה לְהָבִיא אָרוֹן וְתַכְרִיכִים לַמֵּת, כָּךְ מֻתָּר לְהַחְשִׁיךְ עַל הַתְּחוּם כְּדֵי שֶׁיִּהְיֶה מְזֻמָּן לְאַחַר חֲשֵׁכָה לְהָבִיא אָרוֹן וְתַכְרִיכִים. וְסֵיפָא דִּתְנַן מַחְשִׁיכִים עַל הַתְּחוּם עַל עִסְקֵי כַּלָּה וְעַל עִסְקֵי הַמֵּת, אַבָּא שָׁאוּל הִיא. וַהֲלָכָה כְּמוֹתוֹ:

"Não se contrata trabalhadores" — pois está escrito "de buscar teus interesses e falar palavras" (Yeshaiáhu 58:13). "Nem se diz ao vizinho etc." — foi dito com precisão: não se diz ao vizinho "contrata trabalhadores para nós", mas pode-se dizer a ele "vejamos se ficarás comigo à noite" — isto é, "agora veremos se virás a mim quando escurecer" — e embora ambos saibam que a intenção é contratá-lo para seu trabalho, uma vez que não se especificou explicitamente a contratação, é permitido, pois estabelecemos que a fala é proibida, mas o pensamento é permitido.

"Não se vai ao limite da cidade" — para se aproximar em Shabat até o fim do limite e ali escurecer, para estar perto do local dos trabalhadores ou do pomar, a fim de trazer frutas — pois tudo que é proibido fazer em Shabat é proibido preparar-se dessa forma; mas vai-se ao limite para estar perto, ao sair de Shabat, e vigiar seus frutos, pois isso é algo permitido fazer em Shabat: vigiar os próprios frutos.

"E traz frutas na mão" — visto que sua intenção principal não era essa. "Regra geral disse Abba Shaul" — ele discorda do primeiro tanna, que proibiu toda forma de ir ao limite ao anoitecer sem distinguir entre ir por causa de um preceito e ir por causa de algo facultativo; e Abba Shaul veio e disse que ir ao limite por causa de um preceito é permitido — assim como é permitido dizer ao vizinho em Shabat "fica pronto para ir depois do anoitecer trazer um caixão e mortalhas para o morto", do mesmo modo é permitido ir ao limite para estar pronto, depois do anoitecer, para trazer o caixão e as mortalhas. E a parte final da mishná seguinte, que ensina "vai-se ao limite por causa dos assuntos de uma noiva e por causa dos assuntos de um morto", segue a opinião de Abba Shaul — e a halachá é como ele.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Shabat 150a
מתני' לא ישכור אדם פועלים - דכתיב (ישעיהו נח, יג) ממצוא חפצך: ולא יאמר לחבירו כו' - בגמרא פריך פשיטא כיון דהוא אסור חבירו נמי אסור דהא ישראל הוא והשולחו עובר משום לפני עור לא תתן מכשול: אין מחשיכין על התחום - לקרב עצמו בשבת עד סוף התחום ולהחשיך שם שיהא קרוב למקום הפועלים או לפרדס להביא פירות דכל דבר שאסור לעשותו בשבת אסור להחשיך עליו: אבל מחשיך הוא - להיות קרוב לצאת לשמור פירותיו וזה דבר המותר בשבת לשמור פירותיו אם היו בתוך תחומו: ומביא פירות בידו - הואיל ועיקר מחשבתו לא היה לכך: כלל אמר אבא שאול - נותן היה כלל בדבר זה להוסיף דברים אחרים כיוצא בו ולקמיה מפרש לאתויי מאי: כל שאני זכאי באמירתו - שאני רשאי לאומרו לחבירו או לנכרי בשבת לעשות למוצאי שבת רשאי אני להחשיך עליו:

"Não se contrata trabalhadores" — pois está escrito "de buscar teus interesses" (Yeshaiáhu 58:13). "Nem se diz ao vizinho etc." — na Guemará se pergunta: é óbvio! Já que é proibido para si mesmo, é proibido também para o vizinho, pois este é israelita, e quem o envia transgride por "diante do cego não porás tropeço".

"Não se vai ao limite da cidade" — para se aproximar em Shabat até o fim do limite e ali escurecer, a fim de ficar perto do local dos trabalhadores ou do pomar para trazer frutas, pois tudo que é proibido fazer em Shabat é proibido preparar-se dessa forma. "Mas vai-se ao limite" — para estar perto, ao sair de Shabat, para vigiar seus frutos — e isso é algo permitido em Shabat, vigiar os próprios frutos, se estivessem dentro do seu limite.

"E traz frutas na mão" — visto que sua intenção principal não era essa. "Regra geral disse Abba Shaul" — ele estabelecia uma regra geral neste assunto, para incluir outras coisas semelhantes, como se explica adiante. "Tudo aquilo que eu tenho o direito de dizer" — isto é, tudo que tenho permissão de dizer ao vizinho ou a um gentio em Shabat para fazer depois de Shabat, tenho permissão de ir ao limite por causa disso.