As filhas de figueira branca (uma espécie de figo cujo fruto leva mais tempo para amadurecer) — a shevi'it delas é no segundo ano (seguinte ao ano sabático), pois elas produzem frutos que amadurecem em três anos (a partir do momento em que florescem). Rabi Yehudá diz: as persas (outra espécie de figo) — a shevi'it delas é no ano seguinte à shevi'it (ou seja, no primeiro ano após o sabático), pois elas produzem em dois anos. Disseram-lhe: não disseram isso senão das filhas de figueira branca.
Com esta mishná abre-se o Perek Heh, que passa a tratar da santidade dos frutos de shevi'it (kedushat shevi'it) — a que momento do amadurecimento essa santidade se prende, quando o fruto floresceu num ano e amadureceu completamente em outro.
A santidade do fruto segue o momento em que ele floresceu, não o momento em que foi colhido. A regra geral, estabelecida pelos sábios a partir dos versículos sobre a produção da terra na shevi'it, é que a kedushat shevi'it — a santidade especial que reveste os frutos do ano sabático, proibindo seu comércio normal e exigindo tratamento especial — acompanha o momento em que o fruto começou a se formar (a florescência, chamada chanatá), e não o momento em que foi efetivamente colhido. A maioria das árvores frutíferas floresce e amadurece dentro do mesmo ano agrícola, de modo que essa distinção não gera dúvida prática. Mas certas espécies de figo demoram mais — algumas três anos inteiros entre a florescência e a maturação completa do fruto. A mishná discute, então, a que ano se atribui a santidade de shevi'it nesses casos: ao ano em que o fruto floresceu, ainda que venha a ser colhido apenas dois ou três anos depois.
Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam.
O Rambam adota a formulação da mishná sem discordância, deslocando-a do contexto das "espécies de figo" para o princípio geral já apresentado no capítulo anterior de sua obra: a santidade de shevi'it acompanha a espécie e o ritmo natural de seu amadurecimento, e não meramente o calendário civil do ano sabático. Como no caso presente não houve dissenso registrado quanto à opinião de Rabi Yehudá sobre os figos persas — pois os próprios sábios a restringiram apenas às filhas de figueira branca —, o Rambam nem sequer menciona a opinião individual de Rabi Yehudá, decidindo diretamente pela regra consensual.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
O que se diz "a shevi'it delas é no segundo ano" — quero dizer que é possível que seu status seja o de frutos de shevi'it no segundo ano do ciclo semanal, e isso quando aconteceu de começarem a florescer no ano sabático e produzem fruto em três anos, e seu fruto se completa no segundo ano do ciclo semanal, que é o terceiro a partir do início do ano da shemitá em que começaram a florescer — e por isso é permitido comê-las com a santidade de shevi'it, depois de terem florescido na shemitá.
E já explicamos que as "filhas de figueira branca" são uma espécie de figos brancos, e assim também as "persas". E a halachá não segue Rabi Yehudá.
"Filhas de figueira branca": figos brancos que crescem de três em três anos.
"A shevi'it delas é o segundo ano": da shemitá — pois os frutos que florescem (chanatá) na shevi'it não completam seu amadurecimento senão no segundo ano da shemitá, que é o terceiro a partir da florescência; e então se aplica a eles a lei da shevi'it, pois seguimos o momento da florescência (e não o da colheita).
"Persas": uma espécie de figos que se produzem de dois em dois anos. E a halachá não segue Rabi Yehudá.