Seder Zeraim · Massechet Sheviit · Perek Heh · Mishná 2

"O que enterra o luf"

הַטּוֹמֵן אֶת הַלּוּף בַּשְּׁבִיעִית
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

As medidas mínimas para enterrar o luf na shevi'it, segundo Rabi Meir e os sábios, e o lugar de pisoteio que impede sua germinação

O que enterra o luf (um tipo de bulbo, para conservá-lo) na shevi'it — Rabi Meir diz: não menos que dois se'im (medida de volume), até a altura de três palmos, com um palmo de terra sobre eles. E os sábios dizem: não menos que quatro kabin, até a altura de um palmo, com um palmo de terra sobre eles. E o enterra em lugar de pisoteio de gente (para que, sendo pisoteado, não germine e não pareça um plantio).

הַטּוֹמֵן אֶת הַלּוּף בַּשְּׁבִיעִית, רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר, לֹא יִפְחֹת מִסָּאתַיִם, עַד גֹּבַהּ שְׁלֹשָׁה טְפָחִים, וְטֶפַח עָפָר עַל גַּבָּיו. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, לֹא יִפְחֹת מֵאַרְבַּעַת קַבִּים, עַד גֹּבַהּ טֶפַח, וְטֶפַח עָפָר עַל גַּבָּיו. וְטוֹמְנוֹ בִמְקוֹם דְּרִיסַת אָדָם:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná retoma, sob outro ângulo, o princípio que atravessa todo o tratado: qualquer prática agrícola que se pareça com semeadura na shevi'it é vedada pelos sábios, ainda quando seu propósito real seja apenas conservar o alimento.

Vayikrá (Levítico) 25:4
וּבַשָּׁנָה הַשְּׁבִיעִת שַׁבַּת שַׁבָּתוֹן יִהְיֶה לָאָרֶץ, שַׁבָּת לַה׳, שָׂדְךָ לֹא תִזְרָע וְכַרְמְךָ לֹא תִזְמֹר.
"E no sétimo ano haverá descanso completo para a terra, um sábado para o Eterno; teu campo não semearás e tua vinha não podarás" (Vayikrá 25:4).

Enterrar para conservar sem parecer semear. O luf é um bulbo que costuma ser guardado sob a terra, enterrado, para conservação — prática lícita mesmo na shevi'it, pois não constitui plantio algum: o bulbo já existe, apenas se protege sob terra para não estragar. O problema é de aparência: enterrar poucos bulbos, espalhados e cobertos de leve, se parece exatamente com semear, o que é proibido pela Torá em "teu campo não semearás". Por isso os sábios exigiram uma quantidade mínima considerável, empilhada — de modo que a forma do amontoado (um monte grande e compacto, e não sulcos individuais e espaçados) deixe claro que se trata de armazenamento e não de plantio; e exigiram, além disso, que o local escolhido seja um lugar de passagem constante de pessoas, cujo pisoteio impede fisicamente qualquer germinação, afastando de vez a suspeita de lavoura.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shemitá veYovel 1:15
הַטּוֹמֵן אֶת הַלּוּף וְכַיּוֹצֵא בָּהֶן לֹא יִפְחֹת מֵאַרְבַּע קַבִּים עַל גֹּבַהּ טֶפַח וְטֶפַח עָפָר עַל גַּבָּיו. וְטוֹמְנוֹ בִּמְקוֹם דְּרִיסַת הָאָדָם כְּדֵי שֶׁלֹּא יִצְמַח.
O que enterra o luf e semelhantes não deve enterrar menos de quatro kabin, até a altura de um palmo, com um palmo de terra sobre eles; e o enterra em lugar de pisoteio de gente, para que não germine.

O Rambam decide a halachá conforme os sábios, adotando a medida menor — quatro kabin, até um palmo de altura — em vez da medida mais rigorosa de Rabi Meir (dois se'im, até três palmos), como já indicava o Bartenura ao registrar que "a halachá é conforme os sábios". Na mesma halachá, o Rambam estende o princípio a "o luf e semelhantes" — outros bulbos e raízes de conservação análoga —, mostrando que a regra da mishná não é exclusiva do luf, mas um caso paradigmático de um princípio mais amplo sobre armazenamento agrícola na shevi'it.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Sheviit 5:2
לוּף. מִמִּינֵי הַבְּצָלִים, וְכֵן אָמְרוּ: לוּף הוּא הַבְּצָלִים. וְאוֹמֵר, אִם רוֹצֶה לִטְמֹן אוֹתָם בָּאָרֶץ כְּמוֹ שֶׁיִּטְמֹן הַחִטָּה וְהַשְּׂעוֹרִים וְזוּלָתָם, אֵינוֹ מֻתָּר לוֹ לְהַטְמִין שִׁעוּר מוּעָט, מִפְּנֵי שֶׁדּוֹמֶה לְזֶרַע וּכְאִלּוּ הוּא זוֹרְעוֹ וְאֵינוֹ נִרְאֶה שֶׁהוּא טוֹמְנוֹ. אֲבָל מֻתָּר לוֹ לְטָמְנוֹ כְּשֶׁיַּעֲשֶׂה חֲפִירָה בָּאָרֶץ שִׁעוּרָהּ מַכִיל סָאתַיִם וְהֵם י"ב קַבִּים, וְיִהְיֶה גָּבוֹהַּ ג' טְפָחִים וְטֶפַח עָפָר עַל הַבְּצָלִים — זֶה דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר. וַחֲכָמִים מַתִּירִים לְהַטְמִין אַרְבָּעָה קַבִּים, וְהוּא שֶׁיִּהְיֶה בְּגֹבַהּ הַמָּקוֹם טֶפַח בִּלְבַד. וּמַה שֶּׁאָמַר שֶׁיִּטְמֹן בִּמְקוֹם דְּרִיסַת רַגְלֵי הָאָדָם כְּדֵי שֶׁלֹּא יִצְמְחוּ. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי מֵאִיר.

"Luf" — uma espécie de bulbos, e assim disseram: luf são os bulbos. E diz: se alguém deseja enterrá-los na terra como se enterra o trigo e a cevada e semelhantes, não lhe é permitido enterrar uma quantidade pequena, porque isso se parece com semente e como se estivesse semeando — e não parece que está apenas conservando.

Mas é permitido enterrá-los quando fizer uma escavação na terra cuja medida comporte dois se'im — que são doze kabin —, com altura de três palmos e um palmo de terra sobre os bulbos: essas são as palavras de Rabi Meir. E os sábios permitem enterrar quatro kabin, desde que a altura do local seja apenas de um palmo.

E o que disse, que se enterra em lugar de pisoteio dos pés das pessoas, é para que não germinem. E a halachá não segue Rabi Meir.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Sheviit 5:2
הַטּוֹמֵן אֶת הַלּוּף. מִין מִמִּינֵי הַבְּצָלִים שֶׁרְגִילִים לְטָמְנָן בָּאָרֶץ: לֹא יִפְחֹת מִסָּאתַיִם. מִשּׁוּם דְּמֵיחֲזֵי כְּזוֹרֵעַ, עַד שֶׁיִּטְמֹן מֵהֶם סָאתַיִם בַּחֲפִירָה אַחַת עַל גֹּבַהּ שְׁלֹשָׁה טְפָחִים, שֶׁלֹּא יִהְיוּ מְפֻזָּרִים אֶלָּא יִהְיֶה גֹּבַהּ הַכְּרִי וְהַצִּבּוּר שְׁלֹשָׁה טְפָחִים, וְטֶפַח עָפָר עַל גַּבֵּי הַכְּרִי: וְטוֹמְנוֹ בִּמְקוֹם דְּרִיסַת הָאָדָם. כְּדֵי שֶׁלֹּא יִצְמַח. וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים.

"O que enterra o luf": uma espécie de bulbos que se costuma enterrar na terra.

"Não menos que dois se'im": porque se parece com quem semeia, até que enterre deles dois se'im numa única escavação, na altura de três palmos, para que não fiquem espalhados, mas sim que a altura do monte e do amontoado seja de três palmos, com um palmo de terra sobre o monte.

"E o enterra em lugar de pisoteio de gente": para que não germine. E a halachá é conforme os sábios.

Massechet Sheviit não possui Guemará no Talmud Bavli — é um dos tratados da Ordem de Zeraim sem comentário talmúdico babilônico (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.