O que enterra o luf (um tipo de bulbo, para conservá-lo) na shevi'it — Rabi Meir diz: não menos que dois se'im (medida de volume), até a altura de três palmos, com um palmo de terra sobre eles. E os sábios dizem: não menos que quatro kabin, até a altura de um palmo, com um palmo de terra sobre eles. E o enterra em lugar de pisoteio de gente (para que, sendo pisoteado, não germine e não pareça um plantio).
Esta mishná retoma, sob outro ângulo, o princípio que atravessa todo o tratado: qualquer prática agrícola que se pareça com semeadura na shevi'it é vedada pelos sábios, ainda quando seu propósito real seja apenas conservar o alimento.
Enterrar para conservar sem parecer semear. O luf é um bulbo que costuma ser guardado sob a terra, enterrado, para conservação — prática lícita mesmo na shevi'it, pois não constitui plantio algum: o bulbo já existe, apenas se protege sob terra para não estragar. O problema é de aparência: enterrar poucos bulbos, espalhados e cobertos de leve, se parece exatamente com semear, o que é proibido pela Torá em "teu campo não semearás". Por isso os sábios exigiram uma quantidade mínima considerável, empilhada — de modo que a forma do amontoado (um monte grande e compacto, e não sulcos individuais e espaçados) deixe claro que se trata de armazenamento e não de plantio; e exigiram, além disso, que o local escolhido seja um lugar de passagem constante de pessoas, cujo pisoteio impede fisicamente qualquer germinação, afastando de vez a suspeita de lavoura.
Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam.
O Rambam decide a halachá conforme os sábios, adotando a medida menor — quatro kabin, até um palmo de altura — em vez da medida mais rigorosa de Rabi Meir (dois se'im, até três palmos), como já indicava o Bartenura ao registrar que "a halachá é conforme os sábios". Na mesma halachá, o Rambam estende o princípio a "o luf e semelhantes" — outros bulbos e raízes de conservação análoga —, mostrando que a regra da mishná não é exclusiva do luf, mas um caso paradigmático de um princípio mais amplo sobre armazenamento agrícola na shevi'it.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
"Luf" — uma espécie de bulbos, e assim disseram: luf são os bulbos. E diz: se alguém deseja enterrá-los na terra como se enterra o trigo e a cevada e semelhantes, não lhe é permitido enterrar uma quantidade pequena, porque isso se parece com semente e como se estivesse semeando — e não parece que está apenas conservando.
Mas é permitido enterrá-los quando fizer uma escavação na terra cuja medida comporte dois se'im — que são doze kabin —, com altura de três palmos e um palmo de terra sobre os bulbos: essas são as palavras de Rabi Meir. E os sábios permitem enterrar quatro kabin, desde que a altura do local seja apenas de um palmo.
E o que disse, que se enterra em lugar de pisoteio dos pés das pessoas, é para que não germinem. E a halachá não segue Rabi Meir.
"O que enterra o luf": uma espécie de bulbos que se costuma enterrar na terra.
"Não menos que dois se'im": porque se parece com quem semeia, até que enterre deles dois se'im numa única escavação, na altura de três palmos, para que não fiquem espalhados, mas sim que a altura do monte e do amontoado seja de três palmos, com um palmo de terra sobre o monte.
"E o enterra em lugar de pisoteio de gente": para que não germine. E a halachá é conforme os sábios.