O que diz ao trabalhador: "Toma este issar (uma pequena moeda) e colhe para mim vegetais hoje" — seu salário é permitido (não carrega a santidade de shevi'it, pois é pagamento comum por trabalho). "Colhe para mim com ele (com este issar, isto é: em troca dele) vegetais hoje" — seu salário é proibido (equivale a uma venda dos vegetais pelo issar, e assim o dinheiro se torna dinheiro de shevi'it). Se comprou do padeiro um pão por um pondion (uma moeda maior que o issar) e disse-lhe: "Quando eu colher vegetais do campo, trarei a ti" — isto é permitido (o pão comum não se torna dinheiro de shevi'it, pois foi comprado antes, sem condicionar o preço aos vegetais). Se tomou dele o pão sem especificar (sem mencionar os vegetais no momento da compra, mas apenas comprou fiado), não lhe pagará a dívida com dinheiro de shevi'it, pois não se pagam dívidas com dinheiro de shevi'it.
A mishná continua desenvolvendo as leis do dinheiro de shevi'it (demei shevi'it), que carrega a mesma santidade dos frutos que representa — e os limites dessa santidade nas transações comerciais e trabalhistas do dia a dia.
Da palavra "קֹדֶשׁ" (santidade), aplicada por analogia à shevi'it, a tradição oral deriva que o dinheiro recebido em troca de frutos de shevi'it (demei shevi'it) carrega a mesma santidade do produto original — assim como o dinheiro que resgata um objeto sagrado (hekdesh) herda sua santidade. Por isso, quando alguém vende frutos de shevi'it — mesmo que a venda seja pequena e feita a granel, como explicado na mishná anterior —, o dinheiro recebido não pode ser usado livremente: deve ser gasto para comprar outro alimento, que herdará a mesma santidade, e não pode pagar dívidas, pois isso equivaleria a "resgatar" a santidade de shevi'it transformando-a em valor comum e permanente, sem destiná-la a novo alimento. Esta mishná aplica esse princípio a dois casos sutis: o pagamento de trabalhador — que é salário comum, e não dinheiro de shevi'it, exceto quando o próprio issar é explicitamente trocado pelo vegetal colhido — e a compra de pão do padeiro, em que a promessa de pagamento futuro com vegetais silvestres não transforma o próprio pão em produto de shevi'it, salvo se o preço foi condicionado a esses vegetais desde o início.
Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam.
O Rambam esclarece a lógica da distinção: o dinheiro do trabalhador só se transforma em "dinheiro de shevi'it" quando a própria moeda é explicitamente designada como preço de troca pelo vegetal ("colhe para mim com ele") — e não quando é simplesmente um salário fixo por um serviço, ainda que o serviço seja colher vegetais. Do mesmo modo, o pão comprado do padeiro só herda a santidade de shevi'it se, no momento da compra, o comprador já condicionou o pagamento aos vegetais silvestres futuros — transformando a transação original numa espécie de permuta antecipada.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
O sentido de "seu salário é permitido" — quero dizer, que não é dinheiro de shevi'it. E o que disse "seu salário é proibido" — quer dizer que é dinheiro de shevi'it. E a lei do salário nesse caso é como a lei de quem vende frutos de shevi'it.
E a permuta em frutos de shevi'it é permitida — como se lhe dissesse: "toma este fruto e dá-me tal fruto". E por isso, quando toma o pão do padeiro e lhe diz: "dar-te-ei com ele vegetais do campo quando os reunir" — é permitido. Mas se tomou dele pão por dinheiro e não lhe especificou que lhe daria vegetais com eles, torna-se uma dívida sobre ele, e é proibido pagar sua dívida com frutos de shevi'it.
"Seu salário é permitido": e não tem nele santidade de shevi'it. E embora a shevi'it prenda seu dinheiro (quando vendida), este não é dinheiro de shevi'it (pois é salário por trabalho, não pagamento pelo próprio fruto).
"Colhe para mim com ele vegetais": é linguagem de venda, pois significa "colhe para mim o equivalente de seu valor em vegetais"; mas "colhe para mim" sozinho é linguagem de aluguel (contratação de trabalho) e não linguagem de venda.
"Um pão por um pondion": não que lhe disse "dar-te-ei um pondion", mas sim um pão que vale um pondion.
"Quando eu colher vegetais do campo trarei a ti, é permitido": porque dão um ao outro como presente gratuito, já que vegetais do campo são abundantes (sem valor comercial fixo, portanto não é propriamente uma venda condicionada).
"Tomou dele sem especificar": por fiado, do modo como se vende em loja.
"Não lhe pagará com dinheiro de shevi'it": pois seria como mercadoria (pagamento de dívida comercial, incompatível com o caráter de hefker da shevi'it).