Não se dá dinheiro de shevi'it, nem a poceiro (quem escava poços e fornece água à cidade), nem a banheiro (quem aquece a casa de banho), nem a barbeiro, nem a marinheiro (pelo pagamento de seus respectivos serviços). Mas dá-se ao poceiro dinheiro de shevi'it para que ele forneça água a beber (pois beber é um dos usos autorizados da shevi'it). E a todos eles pode dar-se como presente gratuito (mesmo sabendo que, tendo recebido o presente, não lhe cobrarão o serviço, contanto que o pagamento não seja formalmente designado como salário).
A mishná continua aplicando o princípio dos usos restritos da shevi'it (comer, beber e ungir, ver 8:2) aos casos concretos de pagamento por serviços profissionais comuns.
Como já estabelecido em 8:2, os frutos de shevi'it — e, por extensão, o dinheiro que os representa — só podem ser usados para comer, beber, ungir, acender lâmpada e tingir; pagar salário por um serviço não figura entre esses usos, e por isso é proibido, exceto quando o próprio serviço prestado é o de fornecer bebida. O poceiro é a única exceção entre os quatro artesãos mencionados porque seu ofício — fornecer água — coincide diretamente com um dos usos autorizados da shevi'it: beber. Já o banheiro, o barbeiro e o marinheiro prestam serviços que não se enquadram em nenhum dos cinco usos permitidos, de modo que pagá-los com dinheiro de shevi'it equivaleria a desviar essa santidade para um fim estranho — o que a Torá não autoriza. Contudo, dar-lhes o dinheiro como presente gratuito, sem vínculo formal com o serviço prestado, é permitido, pois nesse caso o dinheiro continua sendo gasto livremente por quem o recebe, sem que a santidade da shevi'it seja formalmente transferida como pagamento de um trabalho não autorizado.
Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam.
O Rambam generaliza a lista da mishná — "e aos demais artesãos" — deixando claro que a proibição não se limita aos quatro ofícios mencionados, mas se aplica a todo pagamento de serviço profissional com dinheiro de shevi'it, salvo quando o próprio serviço é fornecer água para beber, ou quando o pagamento é reclassificado como presente gratuito, sem vínculo formal com o trabalho realizado.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
"Poceiro": é quem dá de beber água às pessoas a partir do poço, e recebe seu salário por isso. "E banheiro": dono da casa de banho. "E barbeiro": o que faz a barba. "E marinheiro": dono do navio.
E ele diz que é proibido pagar o salário destes com dinheiro de shevi'it, pois ela não foi dada senão para comer, beber e ungir, como já explicamos; e é permitido dar ao dono do poço de água para que lhe dê de beber, pois foi dada para beber, como já se explicou.
E a todos eles pode-se dar como presente gratuito, sem fazer conta de seu salário; e ainda que haja nisso um dos modos de gemilut chassadim (atos de bondade), já se explicou que isso é permitido — e é o que se disse: "comem-se os frutos de shevi'it com favor e sem favor" (referência a outra mishná deste tratado, sobre a permissão de comer frutos de shevi'it mesmo quando o beneficiário sente gratidão pelo doador).
"Poceiro": escava poços e fornece água aos moradores da cidade; não se lhe dará dinheiro de shevi'it para que lhe forneça água para todo o seu uso (apenas para beber).
"Nem a banheiro": aquece casas de banho. "Nem a barbeiro": salário do corte de cabelo. "Nem a marinheiro": salário do navio.
"E a todos eles": a todos os mencionados na mishná, pode-se dar presente gratuito, não em nome de seu salário — ainda que ele saiba que, por ter dado o presente, não lhe cobrará salário (a intenção subjetiva de compensação não invalida o presente, desde que formalmente não seja designado como pagamento).