Não se compram escravos, terras e animal impuro com dinheiro de shevi'it (pois são bens duráveis, não consumíveis, alheios aos usos autorizados de comer, beber e ungir). E se comprou indevidamente, come o equivalente (gasta, de seu próprio dinheiro, o valor equivalente ao que usou indevidamente, comprando com ele alimento e consumindo-o com a santidade de shevi'it, para retificar o desvio). Não se trazem os ninhos de zavim e zavot (homens e mulheres com certos fluxos que os tornam impuros) com dinheiro de shevi'it (as oferendas de aves obrigatórias que devem trazer). E se trouxe, come o equivalente. Não se untam vasilhas com óleo de shevi'it (pois o uso autorizado de "ungir" é restrito ao corpo, e não a objetos). E se untou, come o equivalente.
A mishná continua desenvolvendo os limites do dinheiro de shevi'it, agora aplicados a três casos-limite de bens ou usos que excedem os usos permitidos — e o remédio comum a todos: comer o equivalente.
A regra estabelecida em 8:2 e 8:5 — que os frutos de shevi'it, e o dinheiro que os representa, só podem ser usados para comer, beber, ungir o corpo, acender lâmpada e tingir — proíbe adquirir com esse dinheiro bens duráveis (escravos, terras, animal impuro), oferendas obrigatórias, ou untar objetos inanimados. Comprar um escravo, uma terra ou um animal impuro transforma o valor do dinheiro de shevi'it num bem permanente, fora do ciclo de consumo que a Torá exige (comer e beber no momento apropriado, com biur no seu tempo) — um desvio semelhante, ainda que mais grave, ao de pagar dívidas (proibido em 8:4). Trazer uma oferenda obrigatória (como os ninhos de zav, zavá ou parturiente) com dinheiro de shevi'it desvia a santidade para uma obrigação religiosa distinta, que tem sua própria fonte de financiamento e não pode ser confundida com o consumo pessoal autorizado. E untar vasilhas — em vez do corpo — extrapola o uso de "ungir" estabelecido em 8:2, que se refere especificamente a untar pessoas. Em todos os três casos, porém, como a compra ou o uso já ocorreu e não pode ser desfeito, a solução não é destruir o bem adquirido, mas retificar o desvio: gastar, do próprio bolso, uma quantia equivalente ao valor usado indevidamente, comprando com ela alimento a ser consumido com a santidade de shevi'it — preservando assim o princípio de que a santidade da shevi'it deve, de um modo ou de outro, terminar sendo consumida como alimento.
Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam.
O Rambam expande a lista da mishná — acrescentando as oferendas de pecado e de culpa (chatot va-ashamot) ao caso dos ninhos de aves, e os couros ao caso das vasilhas — e explicita a analogia com o maasser sheni, cujo dinheiro segue princípio semelhante de restrição a usos consumíveis. Em todos os casos, o remédio ("comer o equivalente") consiste em destinar, do próprio bolso, valor equivalente à compra ou uso indevido, para alimento consumido em santidade de shevi'it — sem anular a compra ou o uso já realizados.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
Já se explicou que a shevi'it foi dada para comer, beber e ungir — quero dizer, para untar pessoa, não para untar couros e vasilhas.
"E ninhos de zavim, zavot e parturientes": são duas rolinhas ou dois pombinhos que são obrigados a trazer estes que ainda carecem de expiação (mechussrei chapará — pessoas que já se purificaram mas ainda precisam trazer a oferenda para completar seu processo de purificação).
E o que disse "come o equivalente" — que tire de seu próprio dinheiro o valor daquela coisa, e compre com ele frutos, apenas frutos de shevi'it, e os coma em santidade de shevi'it.
"Come o equivalente": correspondendo àquele dinheiro, comprará de seu próprio bolso coisas que sejam para necessidade de comer, e comerá com santidade de shevi'it.
"Ninhos de zavim e ninhos de zavot": duas rolinhas ou dois pombinhos que são obrigados a trazer os zavim e as parturientes.