Come-se (do que está guardado em casa) sobre o abandonado (desde que a mesma espécie ainda seja encontrada em local sem dono no campo), mas não sobre o guardado (mesmo que ainda haja daquela espécie em local privado e cuidado, isso não basta para continuar comendo o que está em casa). Rabi Yosei permite mesmo sobre o guardado. Come-se sobre os tefichin (grãos duros que sobrevivem muito tempo na terra sem terem sido semeados) e sobre a árvore de segunda frutificação (uma árvore que produz frutos duas vezes ao ano — enquanto a segunda safra ainda está no campo, pode-se comer da primeira, guardada em casa), mas não sobre as uvas de inverno (um tipo de uva tardia; não servem de base para continuar comendo as uvas comuns guardadas em casa). Rabi Yehudá permite, contanto que tenham começado a amadurecer antes que se acabasse o verão (do próprio ano sabático).
Esta mishná refina o princípio do biur estabelecido nas mishnayot anteriores, esclarecendo que somente o produto abandonado (הפקר) — como o animal selvagem realmente encontra — serve de base para continuar comendo em casa; o produto guardado por seu dono não conta, pois o animal selvagem não tem acesso a ele.
Como o versículo condiciona a permissão de continuar comendo em casa à existência do fruto "para o animal selvagem" — e o animal selvagem só tem acesso ao que está abandonado no campo, nunca ao que se encontra guardado num terreno cercado ou privado — a tradição oral estabelece que apenas o produto declarado sem dono (הפקר), acessível a qualquer um, serve de referência para o biur. Se o dono de um pomar guarda seus frutos com cerca e vigilância, o animal selvagem jamais teria acesso a eles; logo, para os sábios (com exceção de Rabi Yosei), a existência desse produto guardado não prolonga o direito de comer o que está guardado em casa. Já os "tefichin" — grãos duros que nascem por si mesmos e permanecem no chão por muito tempo, por sua dureza e resistência — e a árvore que frutifica duas vezes ao ano contam-se como referência válida, pois representam produto naturalmente acessível. As "uvas de inverno" (סתווניות), sendo uma variedade tardia e diferenciada, não servem de base segundo a maioria dos sábios — halachá que segue os sábios contra Rabi Yehudá.
Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam, no capítulo dedicado às leis do biur.
O Rambam explicita a razão da distinção: o critério é o acesso real do animal selvagem, e não a intenção formal do dono; por isso, mesmo campos que na prática ficam abertos e acessíveis contam como abandonados para este fim, ainda que ninguém os tenha formalmente declarado hefker.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
"Come-se sobre o abandonado, mas não sobre o guardado": quero dizer que se pode comer enquanto essa espécie for encontrada no campo em local abandonado; mas se cessou do abandonado e restou apenas nas casas ou nos jardins (cercados e cuidados), não se come mais — pelo contrário, é obrigado a fazer o biur. E a razão do que dissemos é por causa do versículo "e para o animal selvagem que está em tua terra" — o animal selvagem come do abandonado (e não do que está guardado atrás de cercas).
"Come-se sobre os tefichin": sobre o que os pássaros depositam nos "tefichin" — que são vasos de barro embutidos na parede, onde os pássaros costumam ninhar (e ali armazenam grãos que caem naturalmente da colheita, servindo como reserva acessível).
"E sobre o dufra": uma árvore que produz frutos duas vezes ao ano; come-se do primeiro fruto guardado em casa até que se acabe o último resto da sua espécie no campo, incluindo a segunda safra.
"Mas não sobre as uvas de inverno": não se come das uvas comuns, guardadas em casa por meio das uvas que crescem nos dias de inverno (pois são consideradas espécie à parte, tardia demais para servir de referência).