Quem tinha frutos de shevi'it (guardados em casa) e chegou a hora do biur (o momento em que a espécie cessa no campo, conforme os critérios das mishnayot anteriores) — distribui alimento de três refeições a cada pessoa (o procedimento prático do biur: em vez de simplesmente destruir o produto, o dono o reparte publicamente, dando a cada pessoa que se aproxima uma porção equivalente a três refeições, esgotando assim sua posse exclusiva sobre ele). E os pobres comem depois do biur (mesmo após o ato de distribuição, os pobres continuam autorizados a consumir o que ainda resta em circulação), mas não os ricos — palavras de Rabi Yehudá. Rabi Yosei diz: tanto os pobres quanto os ricos comem depois do biur (sem distinção de classe social, uma vez realizado o biur).
Esta mishná define o procedimento concreto do biur — mencionado repetidas vezes nas mishnayot anteriores sem explicar como se executa — e discute se, uma vez realizado, o produto permanece acessível apenas aos pobres ou a todos igualmente.
Da expressão "וְאָכְלוּ אֶבְיֹנֵי עַמֶּךָ" — "e comerão os pobres de teu povo" — Rabi Yehudá deriva que a Torá reserva especificamente aos pobres o direito de continuar comendo os frutos de shevi'it depois do momento do biur, excluindo os ricos daquela fase; enquanto Rabi Yosei lê o mesmo versículo com ênfase distinta, incluindo também "teu povo" em geral, sem exclusão dos ricos. O procedimento do biur descrito nesta mishná — distribuir uma porção de três refeições a cada pessoa que se apresenta — cumpre a exigência de que o dono não retenha os frutos de shevi'it além do tempo em que ainda são encontrados no campo, "abandonando-os" (tishmetenah) publicamente assim como a terra é abandonada. A disputa entre Rabi Yehudá e Rabi Yosei gira sobre a fase seguinte: depois que o ato formal do biur já ocorreu, e o que sobrou continua circulando na comunidade, quem pode comer dele? Rabi Yehudá lê "אֶבְיֹנֵי עַמֶּךָ" (os pobres de teu povo) como frase exclusiva — só os pobres; Rabi Yosei entende que o versículo, ao mencionar em seguida "e o que sobrar comerá o animal do campo", já havia liberado o produto de modo amplo desde antes do biur, e por isso, quanto à fase posterior ao biur formal, não há mais distinção social — halachá que segue Rabi Yosei.
Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam, no capítulo dedicado ao procedimento do biur — que segue explicitamente a opinião de Rabi Yosei.
O Rambam confirma expressamente que a halachá segue Rabi Yosei — depois do procedimento do biur (a distribuição pública em porções de três refeições), tanto pobres quanto ricos podem continuar comendo o produto sem qualquer restrição de classe social.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
Todo este assunto está claro (o texto da mishná dispensa maior elaboração, sendo autoexplicativo quanto ao procedimento do biur e à disputa entre os dois sábios), e a halachá é conforme Rabi Yosei (pobres e ricos comem igualmente depois do biur).
"E chegou a hora do biur": o tempo do biur dos frutos, conforme seu local, como já se ensinou acima, "três terras para o biur"...
"Distribui alimento de três refeições a cada pessoa": primeiro aos membros de sua casa, e depois distribui a seus vizinhos, parentes e conhecidos; e leva o restante e o deixa à porta de sua casa, dizendo: "Nossos irmãos, casa de Israel — quem precisar, que tome".
"E os pobres comem depois do biur, mas não os ricos": pois está escrito "e comerão os pobres de teu povo, e o que sobrar comerá o animal do campo" — lê-se ênfase em "os pobres de teu povo", e não "todo" teu povo.
"Tanto pobres quanto ricos": lê-se o mesmo versículo com outra ênfase: "e comerão os pobres — e também teu povo" (isto é, os pobres primeiro, mas depois, sem exclusão, todo o povo). E a halachá é conforme Rabi Yosei.