Seder Nezikin · Massechet Shevuot · Perek Alef · Mishná 1 de 7

Juramentos são dois que são quatro: a abertura do tratado

שְׁבוּעוֹת שְׁתַּיִם שֶׁהֵן אַרְבַּע
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Massechet Shevuot — o sexto tratado de Seder Nezikin — abre com uma fórmula estrutural que se repetirá ao longo de todo o Perek Alef: uma categoria bíblica explícita de "dois" tipos que, por derivação dos Sábios, tornam-se "quatro".

Juramentos são dois que são quatro; as consciências da impureza são duas que são quatro; as saídas do shabat são duas que são quatro; as aparências das chagas são duas que são quatro.A mishná abre o tratado com uma fórmula concisa e enigmática que organiza quatro áreas distintas da lei — juramentos, impureza do Templo, leis do shabat e leis de tzaraat — sob um mesmo padrão de contagem duplicada. Em cada caso, a Torá menciona explicitamente apenas duas categorias, mas os Sábios, por meio de exegese, derivam que essas duas categorias escondem, na verdade, quatro subcategorias. No caso dos juramentos de expressão (shevuat bitui), a Torá fala explicitamente do juramento de fazer algo no futuro e do juramento de não fazer algo no futuro — duas categorias; os Sábios acrescentam que a mesma responsabilidade se aplica também a juramentos referentes ao passado ("comi" ou "não comi"), duplicando as duas categorias em quatro. Da mesma forma, quanto à consciência da impureza — o tema central que ocupará o restante deste perek —, a Torá fala explicitamente apenas de duas configurações de esquecimento e lembrança que geram obrigação de trazer a oferenda ascendente-e-descendente, mas os Sábios derivam mais duas. O mesmo padrão se repete, a mishná apenas os menciona de passagem aqui, para as saídas do shabat (tratadas em Massechet Shabat) e para as aparências das chagas de tzaraat (tratadas em Massechet Negaim). A escolha de abrir justamente com os juramentos — e não com a impureza do Templo, que ocupará o grosso do perek — reflete o nome do próprio tratado; mas a Guemará explica que, tecnicamente, é o tema da impureza do Templo que domina a discussão que se segue, e os juramentos propriamente ditos só voltam a ser tratados a partir do capítulo terceiro.

שְׁבוּעוֹת שְׁתַּיִם שֶׁהֵן אַרְבַּע, יְדִיעוֹת הַטֻּמְאָה שְׁתַּיִם שֶׁהֵן אַרְבַּע, יְצִיאוֹת הַשַּׁבָּת שְׁתַּיִם שֶׁהֵן אַרְבַּע, מַרְאוֹת נְגָעִים שְׁנַיִם שֶׁהֵם אַרְבָּעָה:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Vayikrá 5:4 — a base bíblica do juramento de expressão
אוֹ נֶפֶשׁ כִּי תִשָּׁבַע לְבַטֵּא בִשְׂפָתַיִם לְהָרַע אוֹ לְהֵיטִיב, לְכֹל אֲשֶׁר יְבַטֵּא הָאָדָם בִּשְׁבֻעָה, וְנֶעְלַם מִמֶּנּוּ, וְהוּא יָדַע וְאָשֵׁם לְאַחַת מֵאֵלֶּה.
"Ou quando alguém jurar, ao pronunciar com os lábios, para mal ou para bem — tudo quanto o homem pronunciar em juramento — e isso lhe for oculto; e ele o souber, será culpado em uma dessas coisas."
Aplicação na mishná: este versículo menciona explicitamente apenas o juramento sobre o futuro ("para mal ou para bem"); é dele que a mishná deriva as "duas" categorias explícitas — e, por exegese adicional (explicada na Guemará e no Perek Terceiro), as duas categorias correspondentes referentes ao passado, completando as "quatro".

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Shevuot 1:1
שְׁבוּעוֹת שְׁתַּיִם שֶׁהֵן אַרְבַּע: שְׁבוּעוֹת שְׁתַּיִם, כִּי יִשָּׁבַע אָדָם עַל מַה שֶּׁעָבַר וְעַל מַה שֶּׁעָתִיד לָבֹא, וְאֵלּוּ הֵם שְׁנֵי מִינִים, וְיִתְחַלֵּק שְׁבוּעָתוֹ עַל שֶׁעָבַר שְׁנֵי חֲלָקִים — שֶׁעָשָׂה כָּךְ וְכָךְ אוֹ שֶׁלֹּא עָשָׂה, וְכֵן בֶּעָתִיד שֶׁיַּעֲשֶׂה אוֹ שֶׁלֹּא יַעֲשֶׂה. וִידִיעוֹת הַטֻּמְאָה הוּא מְבָאֵר אוֹתָם בַּפֶּרֶק שֶׁאַחַר זֶה.

Rambam explica que os "dois" tipos explícitos de juramento são o juramento sobre o passado e o juramento sobre o futuro; e cada um desses dois se divide, por sua vez, em dois — afirmar que fez algo ou que não fez, tanto em relação ao passado quanto ao futuro —, o que gera as quatro subcategorias mencionadas pela mishná. Quanto às "consciências da impureza", Rambam remete a explicação detalhada à mishná seguinte, que de fato as define uma a uma.

Bartenura · Shevuot 1:1
שְׁבוּעוֹת שְׁתַּיִם. כְּתִיבֵי בִקְרָא בְהֶדְיָא (ויקרא ה) אוֹ נֶפֶשׁ כִּי תִשָּׁבַע לְבַטֵּא בִשְׂפָתַיִם לְהָרַע אוֹ לְהֵיטִיב. אֹכַל, לְהֵיטִיב. לֹא אֹכַל, לְהָרַע, שֶׁמְּעַנֶּה אֶת עַצְמוֹ. וְהוּא הַדִּין לְכָל דָּבָר שֶׁהוּא הֵן וְלָאו לְהַבָּא. שֶׁהֵן אַרְבַּע. יֵשׁ לְרַבּוֹת עוֹד שְׁתַּיִם אֲחֵרִים דְּלֹא כְתִיבֵי, וְהֵן הֵן וְלָאו דִּלְשֶׁעָבַר, כְּמוֹ אָכַלְתִּי וְלֹא אָכַל, אוֹ לֹא אָכַלְתִּי וְאָכַל.

Bartenura confirma que o versículo de Vayikrá fala explicitamente apenas do juramento sobre o futuro — "comerei", um juramento para o bem, ou "não comerei", um juramento para o mal, pois ao se abster o jurador se aflige a si mesmo — e o mesmo se aplica a qualquer juramento afirmativo ou negativo referente ao futuro. As duas categorias adicionais, que completam as quatro, referem-se ao passado — "comi" quando não comeu, ou "não comi" quando comeu — e não estão escritas explicitamente no versículo, sendo derivadas pelos Sábios.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi · רש״י
Shevuot 2a, s.v. שבועות שתים שהן ארבע
מַתְנִי׳ שְׁבוּעוֹת שְׁתַּיִם שֶׁהֵן אַרְבַּע — בִּשְׁבוּעַת בִּטּוּי שְׂפָתַיִם הַכָּתוּב בְּוַיִּקְרָא אֵצֶל קָרְבָּן עוֹלֶה וְיוֹרֵד קָאָמַר, כִּדְמְפָרֵשׁ בְּפֶרֶק שְׁלִישִׁי. שְׁתַּיִם — כְּתִיבֵי בִּקְרָא, דִּכְתִיב לְהָרַע אוֹ לְהֵיטִיב, וּמְפָרֵשׁ בְּמִשְׁנָה פֶּרֶק שְׁלִישִׁי: אֹכַל לְהֵיטִיב, לֹא אֹכַל לְהָרַע, שֶׁמְּעַנֶּה אֶת עַצְמוֹ. שֶׁהֵן ד׳ — יֵשׁ לְרַבּוֹת מֵרִבּוּי הַכְּתוּבִים, כְּגוֹן אָכַלְתִּי וְהוּא לֹא אָכַל, אוֹ לֹא אָכַלְתִּי וְאָכַל.

Rashi esclarece, logo na abertura da Guemará, que o juramento de que fala a mishná é especificamente o juramento de expressão (shevuat bitui) mencionado em Vayikrá junto à oferenda ascendente-e-descendente — e não outros tipos de juramento tratados mais adiante no tratado, como o juramento sobre depósitos ou o juramento vão. Ele confirma que as "duas" categorias vêm escritas explicitamente no versículo ("para mal ou para bem", referindo-se ao futuro), enquanto as duas adicionais — referentes ao passado — são obtidas por uma multiplicação hermenêutica dos termos do versículo, e serão detalhadas apenas no Perek Terceiro do tratado.