Tanto os israelitas quanto os sacerdotes, quanto o sacerdote ungido — [são iguais nisto]. Qual a diferença entre os israelitas e os sacerdotes e o sacerdote ungido? Apenas que o sangue do touro expia pelos sacerdotes sobre a impureza do Templo e das coisas sagradas. Rabi Shimon diz: assim como o sangue do bode que é feito por dentro expia por Israel, assim o sangue do touro expia pelos sacerdotes; assim como a confissão do bode enviado expia por Israel, assim a confissão do touro expia pelos sacerdotes. — A mishná final do capítulo dá um passo atrás para considerar, de modo comparativo, como todo o sistema expiatório de Yom Kipur descrito até aqui se aplica igualmente a três categorias distintas de pessoas: o israelita comum, o sacerdote comum, e o próprio Sumo Sacerdote ("o sacerdote ungido"). A resposta é que, no que diz respeito às transgressões gerais expiadas pelo bode enviado — a longa lista de leves, graves, deliberadas e inadvertidas da mishná anterior —, não há distinção alguma entre as três categorias: todos são expiados igualmente por aquele único bode. A única diferença relevante concerne especificamente à impureza do Templo e das coisas sagradas: para os sacerdotes (e para o Sumo Sacerdote em particular, que oficia o próprio serviço), existe uma camada adicional e exclusiva de expiação — o sangue do touro que o Sumo Sacerdote oferece por si mesmo e por sua própria classe sacerdotal no início do serviço de Yom Kipur (Vayikrá 16:6, 16:11), um sacrifício que não tem paralelo entre os israelitas comuns. Rabi Shimon propõe então uma leitura estruturalmente elegante, traçando um paralelismo exato entre os dois sistemas: assim como, para o povo de Israel em geral, existem dois mecanismos distintos de Yom Kipur — o sangue do bode interno, que expia especificamente a impureza do Templo e das coisas sagradas (Mishná 1:2 e 1:6), e a confissão do bode enviado, que expia todas as demais transgressões (Mishná 1:6) —, da mesma forma, para os sacerdotes, o sangue do touro cumpre a função paralela à do sangue do bode (expiando a impureza do Templo), enquanto a confissão pronunciada sobre o touro cumpre a função paralela à da confissão do bode enviado (expiando as demais transgressões). Este paralelismo elegante encerra o Perek Alef, tendo mapeado, com precisão notável, toda a arquitetura do sistema expiatório anual de Yom Kipur — para o povo, para os sacerdotes, e para todas as combinações possíveis de consciência e ignorância diante da impureza do santuário.
Rambam resume com precisão a estrutura comparativa da mishná: quanto ao bode enviado, todas as três categorias de pessoas são idênticas, sendo a única diferença a camada adicional do touro, exclusiva dos sacerdotes, para a impureza do santuário. Rambam nota, porém, um detalhe importante na posição de Rabi Shimon: para ele, a diferença entre israelitas e sacerdotes não se limita à impureza do Templo — mesmo o próprio bode enviado, segundo Rabi Shimon, expia exclusivamente pelos israelitas, e não pelos sacerdotes, que dependem inteiramente do touro e de sua confissão paralela.
Bartenura esclarece que a frase de abertura, aparentemente redundante — "tanto israelitas quanto sacerdotes quanto o sacerdote ungido" — está, na verdade, afirmando algo específico: que todas as três categorias recebem expiação igual através do bode enviado para as demais transgressões, sem qualquer distinção entre elas. Sobre Rabi Shimon, Bartenura explica o mecanismo exato do paralelismo: assim como o sangue do bode interno expia sozinho, sem acompanhamento de confissão verbal (pois a confissão está reservada ao bode enviado), da mesma forma o sangue do touro expia sozinho pelos sacerdotes quanto à impureza do santuário — sobrando, então, a confissão pronunciada sobre o touro para expiar, paralelamente à confissão do bode enviado, as demais transgressões dos sacerdotes.
Rashi registra a perplexidade inicial da Guemará diante da formulação aparentemente contraditória da mishná — que primeiro iguala completamente as três categorias e, na frase seguinte, já passa a diferenciá-las — resolvida ao se entender que a igualdade se refere apenas ao bode enviado, enquanto a diferenciação se refere à camada adicional da impureza do Templo. Ele detalha ainda, com base em Vayikrá 16, como o touro do Sumo Sacerdote replica, para a classe sacerdotal, exatamente as mesmas funções que o bode interno cumpre para o povo de Israel: cobrindo tanto a categoria de consciência inicial sem final (Mishná 1:2) quanto a transgressão deliberada (Mishná 1:6) — encerrando, assim, o mapeamento comparativo completo entre as duas categorias que compõe o final do Perek Alef.