Seder Nezikin · Massechet Shevuot · Perek Alef · Mishná 7 de 7

Israelitas, sacerdotes e o sacerdote ungido: o sangue do touro

אֶחָד יִשְׂרְאֵלִים וְאֶחָד כֹּהֲנִים וְאֶחָד כֹּהֵן מָשׁוּחַ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná final do Perek Alef encerra a discussão sobre as expiações de Yom Kipur comparando israelitas comuns, sacerdotes e o Sumo Sacerdote, e traz a posição de Rabi Shimon sobre o paralelismo entre o touro e o bode.

Tanto os israelitas quanto os sacerdotes, quanto o sacerdote ungido — [são iguais nisto]. Qual a diferença entre os israelitas e os sacerdotes e o sacerdote ungido? Apenas que o sangue do touro expia pelos sacerdotes sobre a impureza do Templo e das coisas sagradas. Rabi Shimon diz: assim como o sangue do bode que é feito por dentro expia por Israel, assim o sangue do touro expia pelos sacerdotes; assim como a confissão do bode enviado expia por Israel, assim a confissão do touro expia pelos sacerdotes.A mishná final do capítulo dá um passo atrás para considerar, de modo comparativo, como todo o sistema expiatório de Yom Kipur descrito até aqui se aplica igualmente a três categorias distintas de pessoas: o israelita comum, o sacerdote comum, e o próprio Sumo Sacerdote ("o sacerdote ungido"). A resposta é que, no que diz respeito às transgressões gerais expiadas pelo bode enviado — a longa lista de leves, graves, deliberadas e inadvertidas da mishná anterior —, não há distinção alguma entre as três categorias: todos são expiados igualmente por aquele único bode. A única diferença relevante concerne especificamente à impureza do Templo e das coisas sagradas: para os sacerdotes (e para o Sumo Sacerdote em particular, que oficia o próprio serviço), existe uma camada adicional e exclusiva de expiação — o sangue do touro que o Sumo Sacerdote oferece por si mesmo e por sua própria classe sacerdotal no início do serviço de Yom Kipur (Vayikrá 16:6, 16:11), um sacrifício que não tem paralelo entre os israelitas comuns. Rabi Shimon propõe então uma leitura estruturalmente elegante, traçando um paralelismo exato entre os dois sistemas: assim como, para o povo de Israel em geral, existem dois mecanismos distintos de Yom Kipur — o sangue do bode interno, que expia especificamente a impureza do Templo e das coisas sagradas (Mishná 1:2 e 1:6), e a confissão do bode enviado, que expia todas as demais transgressões (Mishná 1:6) —, da mesma forma, para os sacerdotes, o sangue do touro cumpre a função paralela à do sangue do bode (expiando a impureza do Templo), enquanto a confissão pronunciada sobre o touro cumpre a função paralela à da confissão do bode enviado (expiando as demais transgressões). Este paralelismo elegante encerra o Perek Alef, tendo mapeado, com precisão notável, toda a arquitetura do sistema expiatório anual de Yom Kipur — para o povo, para os sacerdotes, e para todas as combinações possíveis de consciência e ignorância diante da impureza do santuário.

אֶחָד יִשְׂרְאֵלִים, וְאֶחָד כֹּהֲנִים, וְאֶחָד כֹּהֵן מָשׁוּחַ. מַה בֵּין יִשְׂרְאֵלִים לְכֹהֲנִים וּלְכֹהֵן מָשׁוּחַ, אֶלָּא שֶׁדַּם הַפָּר מְכַפֵּר עַל הַכֹּהֲנִים עַל טֻמְאַת מִקְדָּשׁ וְקָדָשָׁיו. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, כְּשֵׁם שֶׁדַּם הַשָּׂעִיר הַנַּעֲשֶׂה בִפְנִים מְכַפֵּר עַל יִשְׂרָאֵל, כָּךְ דַּם הַפָּר מְכַפֵּר עַל הַכֹּהֲנִים. כְּשֵׁם שֶׁוִּדּוּיוֹ שֶׁל שָׂעִיר הַמִּשְׁתַּלֵּחַ מְכַפֵּר עַל יִשְׂרָאֵל, כָּךְ וִדּוּיוֹ שֶׁל פָּר מְכַפֵּר עַל הַכֹּהֲנִים:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Shevuot 1:7
אֶחָד יִשְׂרָאֵלִים וְאֶחָד כֹּהֲנִים וְאֶחָד כֹּהֵן מָשׁוּחַ כוּ׳: אָמַר כִּי כֻּלָּם שָׁוִים בְּכַפָּרַת שָׂעִיר הַמִּשְׁתַּלֵּחַ, וְאֵין בֵּין הַכֹּהֲנִים לְיִשְׂרָאֵל וְכֹהֵן מָשׁוּחַ הֶפְרֵשׁ זוּלָתִי בְּטֻמְאַת מִקְדָּשׁ וְקָדָשָׁיו. וְרַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר כִּי הֵם גַּם כֵּן חֲלוּקִין בְּכַפָּרַת שָׂעִיר הַמִּשְׁתַּלֵּחַ, וְאֵינוֹ מְכַפֵּר אֶלָּא עַל יִשְׂרָאֵל בִּלְבַד.

Rambam resume com precisão a estrutura comparativa da mishná: quanto ao bode enviado, todas as três categorias de pessoas são idênticas, sendo a única diferença a camada adicional do touro, exclusiva dos sacerdotes, para a impureza do santuário. Rambam nota, porém, um detalhe importante na posição de Rabi Shimon: para ele, a diferença entre israelitas e sacerdotes não se limita à impureza do Templo — mesmo o próprio bode enviado, segundo Rabi Shimon, expia exclusivamente pelos israelitas, e não pelos sacerdotes, que dependem inteiramente do touro e de sua confissão paralela.

Bartenura · Shevuot 1:7
אֶחָד יִשְׂרָאֵל וְאֶחָד כֹּהֲנִים. הָכִי קָאָמַר: אֶחָד יִשְׂרָאֵל וְאֶחָד כֹּהֲנִים וְאֶחָד כֹּהֵן מָשׁוּחַ מִתְכַּפְּרִים בְּשָׂעִיר הַמִּשְׁתַּלֵּחַ בִּשְׁאָר עֲבֵרוֹת, וְאֵין חִלּוּק בֵּינֵיהֶן. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר כְּשֵׁם. שֶׁאַתָּה מוֹדֶה בְּדַם הַשָּׂעִיר הַפְּנִימִי שֶׁמְּכַפֵּר עַל יִשְׂרָאֵל כַּפָּרָתוֹ בְּלֹא שׁוּם וִדּוּי... כָּךְ דַּם הַפָּר בְּלֹא שׁוּם וִדּוּי מְכַפֵּר עַל הַכֹּהֲנִים עַל טֻמְאַת מִקְדָּשׁ וְקָדָשָׁיו.

Bartenura esclarece que a frase de abertura, aparentemente redundante — "tanto israelitas quanto sacerdotes quanto o sacerdote ungido" — está, na verdade, afirmando algo específico: que todas as três categorias recebem expiação igual através do bode enviado para as demais transgressões, sem qualquer distinção entre elas. Sobre Rabi Shimon, Bartenura explica o mecanismo exato do paralelismo: assim como o sangue do bode interno expia sozinho, sem acompanhamento de confissão verbal (pois a confissão está reservada ao bode enviado), da mesma forma o sangue do touro expia sozinho pelos sacerdotes quanto à impureza do santuário — sobrando, então, a confissão pronunciada sobre o touro para expiar, paralelamente à confissão do bode enviado, as demais transgressões dos sacerdotes.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi · רש״י
Shevuot 2b, s.v. אחד ישראל כו'; אלא שהפר מכפר
אֶחָד יִשְׂרָאֵל כוּ׳ — בַּגְּמָרָא פָּרִיךְ: מַאי קָאָמַר, שֶׁבַּתְּחִלָּה הִשְׁוָום וְהַדַר תָּנֵי מַה בֵּין יִשְׂרָאֵל לְכֹהֲנִים. אֶלָּא שֶׁהַפָּר מְכַפֵּר עַל הַכֹּהֲנִים — כָּל שֶׁשָּׂעִיר הַפְּנִימִי מְכַפֵּר עַל יִשְׂרָאֵל, דְּהַיְנוּ תְּלִיַּת יִסּוּרִין דְּיֵשׁ בָּהּ יְדִיעָה בַתְּחִלָּה וְלֹא בַסּוֹף, וּזְדוֹן טֻמְאַת מִקְדָּשׁ וְקָדָשָׁיו, וְכֵן כַּפָּרַת שָׂעִיר הַחִיצוֹן, פָּרוֹ שֶׁל כֹּהֵן גָּדוֹל הַקָּרֵב בְּיוֹם הַכִּפּוּרִים בִּפְנִים כְּמוֹ שֶׁמְּפֹרָשׁ בְּאַחֲרֵי מוֹת, מְכַפֵּר עַל הַכֹּהֲנִים.

Rashi registra a perplexidade inicial da Guemará diante da formulação aparentemente contraditória da mishná — que primeiro iguala completamente as três categorias e, na frase seguinte, já passa a diferenciá-las — resolvida ao se entender que a igualdade se refere apenas ao bode enviado, enquanto a diferenciação se refere à camada adicional da impureza do Templo. Ele detalha ainda, com base em Vayikrá 16, como o touro do Sumo Sacerdote replica, para a classe sacerdotal, exatamente as mesmas funções que o bode interno cumpre para o povo de Israel: cobrindo tanto a categoria de consciência inicial sem final (Mishná 1:2) quanto a transgressão deliberada (Mishná 1:6) — encerrando, assim, o mapeamento comparativo completo entre as duas categorias que compõe o final do Perek Alef.