Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Bet · Mishná 1 de 6

Abrindo o Perek Bet: a oferenda de minchá da sotá

הָיָה מֵבִיא אֶת מִנְחָתָהּ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abrindo o Perek Bet, a mishná descreve a oferenda de minchá da sotá trazida pelo marido, e enumera cinco pontos em que ela se distingue, em rigor decrescente, de todas as demais oferendas de farinha trazidas ao Templo — culminando no princípio de Rabán Gamliel de que a oferenda espelha a natureza do ato suspeito.

Ele trazia a oferenda dela dentro de um cesto egípcio e a colocava sobre as mãos dela, para cansá-la. Todas as oferendas têm seu início e seu fim em utensílio de serviço sagrado, mas esta tem seu início em cesto egípcio e seu fim em utensílio de serviço sagrado. Todas as oferendas requerem óleo e incenso, mas esta não requer nem óleo nem incenso. Todas as oferendas vêm do trigo, mas esta vem da cevada. A oferenda do ômer, ainda que venha da cevada, vinha em sêmola grossa, e esta vem em farinha. Rabán Gamliel diz: assim como os atos dela são ato de animal, também sua oferenda é alimento de animal.A mishná abre o Perek Bet no ponto exato em que o Perek Alef a deixou: a mulher já foi conduzida ao Portão de Nicanor, e agora é a vez de sua oferenda de farinha ser trazida. Cinco vezes a mishná contrasta esta minchá com todas as demais oferendas do Templo, numa escala decrescente de dignidade — do recipiente inicial ao material da farinha —, e a explicação de cada contraste aparece nos comentadores abaixo. Rabán Gamliel fecha a mishná generalizando o padrão: cada detalhe rebaixado da oferenda reflete, de forma didática e pública, a suspeita de um ato que a tradição compara ao comportamento irracional de um animal.

הָיָה מֵבִיא אֶת מִנְחָתָהּ בְּתוֹךְ כְּפִיפָה מִצְרִית וְנוֹתְנָהּ עַל יָדֶיהָ כְּדֵי לְיַגְּעָהּ. כָּל הַמְּנָחוֹת תְּחִלָּתָן וְסוֹפָן בִּכְלִי שָׁרֵת, וְזוֹ תְּחִלָּתָהּ בִּכְפִיפָה מִצְרִית וְסוֹפָהּ בִּכְלִי שָׁרֵת. כָּל הַמְּנָחוֹת טְעוּנוֹת שֶׁמֶן וּלְבֹנָה, וְזוֹ אֵינָהּ טְעוּנָה לֹא שֶׁמֶן וְלֹא לְבֹנָה. כָּל הַמְּנָחוֹת בָּאוֹת מִן הַחִטִּין, וְזוֹ בָאָה מִן הַשְּׂעוֹרִין. מִנְחַת הָעֹמֶר אַף עַל פִּי שֶׁבָּאָה מִן הַשְּׂעוֹרִין הִיא הָיְתָה בָאָה גֶרֶשׂ, וְזוֹ בָאָה קֶמַח. רַבָּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר, כְּשֵׁם שֶׁמַּעֲשֶׂיהָ מַעֲשֵׂה בְהֵמָה, כָּךְ קָרְבָּנָהּ מַאֲכַל בְּהֵמָה:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

O versículo-base de toda a minchá da sotá está em Bemidbar 5, no meio da parashá que institui o procedimento das águas amargas.

Bemidbar (Números) 5:15
וְהֵבִ֨יא הָאִ֣ישׁ אֶת־אִשְׁתּוֹ֮ אֶל־הַכֹּהֵן֒ וְהֵבִ֤יא אֶת־קׇרְבָּנָהּ֙ עָלֶ֔יהָ עֲשִׂירִ֥ת הָאֵיפָ֖ה קֶ֣מַח שְׂעֹרִ֑ים לֹֽא־יִצֹ֨ק עָלָ֜יו שֶׁ֗מֶן וְלֹֽא־יִתֵּ֤ן עָלָיו֙ לְבֹנָ֔ה כִּֽי־מִנְחַ֤ת קְנָאֹת֙ ה֔וּא מִנְחַ֥ת זִכָּר֖וֹן מַזְכֶּ֥רֶת עָוֺֽן
E o homem trará sua mulher ao sacerdote, e trará sua oferenda por ela: um décimo de efá de farinha de cevada; não derramará sobre ela óleo nem porá sobre ela incenso, pois é oferenda de ciúmes, oferenda de memorial, que traz à memória a iniquidade.

O próprio versículo já estabelece dois dos cinco rebaixamentos que a mishná desenvolve: a farinha é de cevada, não de trigo, e a oferenda é isenta de óleo e de incenso. Os demais três pontos — o cesto egípcio como recipiente inicial, e a farinha (em vez da sêmola grossa) — são deduzidos pela tradição oral por comparação com a oferenda do ômer, que também vem da cevada mas em grau superior de refinamento, mostrando que a Torá quis rebaixar esta oferenda especificamente, e não apenas por vir da cevada.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, explica o sentido geral dos cinco rebaixamentos; Bartenura detalha cada um deles.

Rambam · Perush HaMishná, Sotá 2:1
כדי ליגעה כדי שתיעף כדי שתודה ולא תשתה מי המרים

Rambam explica que o propósito de o marido carregar a oferenda sobre as mãos da própria mulher — em vez de ela ser carregada normalmente por um sacerdote em utensílio de serviço — é fazê-la cansar-se, na esperança de que a fadiga física a leve a confessar a transgressão antes de beber as águas amargas, evitando assim que o próprio Nome divino seja apagado sobre a água em vão.

Bartenura · Sotá 2:1
כָּל הַמְּנָחוֹת בָּאוֹת חִטִּים... מִנְחַת הָעֹמֶר אַף עַל פִּי שֶׁבָּאָה מִן הַשְּׂעֹרִין טְעוּנָה שֶׁמֶן וּלְבֹנָה

Bartenura explica que a comparação com a oferenda do ômer é necessária precisamente porque ela também vem da cevada e, ainda assim, requer óleo e incenso e vem em sêmola grossa — provando que o rebaixamento da oferenda da sotá não decorre simplesmente do grão usado, mas é um rebaixamento deliberado e completo, típico de uma oferenda que visa lembrar, publicamente, uma suspeita de transgressão.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Abrindo o Perek Bet, perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 14a), Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Sotá 14a, sobre a mishná
הָיָה מֵבִיא אֶת מִנְחָתָהּ — הַבַּעַל, כִּדְכְתִיב וְהֵבִיא אֶת קָרְבָּנָהּ עָלֶיהָ וְגוֹ׳. כְּפִיפָה מִצְרִית — סַל שֶׁל נִצְרֵי דֶּקֶל זְרָדִים שֶׁגְּדֵלִין סְבִיב הַדֶּקֶל. כְּדֵי לְיַגְּעָהּ — בַּגְּמָרָא מְפָרֵשׁ טַעְמָא

Rashi identifica quem traz a oferenda — o próprio marido, conforme o versículo que atribui a ele a obrigação de trazer a oferenda por sua mulher — e descreve o cesto egípcio como um cesto trançado de ramos jovens que crescem em volta da tamareira, um objeto humilde e de baixo valor. Sobre o propósito de cansá-la, Rashi remete à Guemará, que explica: quanto mais fatigada a mulher estiver ao carregar sua própria oferenda, maior a chance de que confesse a verdade e evite beber as águas — pois é preferível que a Torá seja apagada da água do que ela seja submetida ao teste em vão.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Sotá 2:1
תְּחִלָּתָן בִּכְלִי שָׁרֵת הָרְאוּיִין לִכְלִי שָׁרֵת, כְּלוֹמַר כֵּלִים שֶׁל זָהָב וְשֶׁל כֶּסֶף, לְפִי שֶׁכָּל הַמְּנָחוֹת אָמְנָם בָּאוֹת בִּכְלֵי זָהָב וְכֶסֶף

Rambam esclarece que "início e fim em utensílio de serviço sagrado" não significa que toda oferenda comum é levada de casa já em utensílio consagrado — mas que ela é trazida em cestos de prata ou de ouro, dignos de, num segundo momento, se tornarem utensílios de serviço. A minchá da sotá, ao contrário, começa humildemente num cesto egípcio comum, e só alcança um utensílio de serviço sagrado no momento em que o sacerdote a recebe das mãos da mulher no Templo — evidenciando, do início ao fim, o caráter rebaixado desta oferenda específica.

Bartenura · רע״ב
Sotá 2:1
כְּדֵי לְיַגְּעָהּ. שֶׁתּוֹדֶה וְלֹא יִמָּחֶה הַשֵּׁם עַל הַמַּיִם... כָּל הַמְּנָחוֹת טְעוּנוֹת שֶׁמֶן וּלְבֹנָה. בַּגְּמָרָא פָּרֵיךְ, וְהָא אִיכָּא מִנְחַת חוֹטֵא

Bartenura acrescenta que, mesmo se a confissão viesse depois de o Nome divino já ter sido apagado sobre a água, ainda assim valeria a pena: a mulher que confessa não bebe e não morre de morte vergonhosa diante de todo o povo. Sobre o contraste com as demais oferendas, Bartenura nota que a Guemará levanta uma dificuldade — pois a oferenda do pecador também dispensa óleo e incenso, e a oferenda do ômer também vem da cevada — resolvida ao entender a mishná como uma afirmação combinada: em regra, as oferendas trazem trigo e requerem óleo e incenso, mas mesmo entre as exceções isoladas nenhuma reúne todos os rebaixamentos ao mesmo tempo como esta.