Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Bet · Mishná 2 de 6

A água do jarro e o pó do Santuário

הָיָה מֵבִיא פְיָלִי שֶׁל חֶרֶס חֲדָשָׁה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná descreve o preparo da água amarga: o sacerdote traz um jarro de barro novo com água do lavatório, entra no Santuário e busca o pó marcado pela placa de mármore sob a laje giratória, colocando-o na água em quantidade visível, conforme o versículo de Bemidbar 5:17.

Ele trazia um jarro de barro novo, e nele colocava meio log de água do lavatório. Rabi Yehudá diz: um quarto de log. Assim como se reduz na escrita, assim também se reduz na água. Ele entrava no Santuário e virava-se para a sua direita, e havia ali um lugar de um côvado por um côvado, com uma laje de mármore, e uma argola estava fixada nela. E quando a erguia, tomava pó de debaixo dela e colocava de modo que aparecesse sobre a água, como está dito: "e do pó que houver no chão do tabernáculo, o sacerdote tomará e colocará na água".A mishná passa da oferenda de farinha para o preparo da própria água amarga. A quantidade de água — meio log segundo os sábios, ou um quarto de log segundo Rabi Yehudá — é ligada, pela mishná, à mesma disputa sobre a redução do texto da maldição na pergaminho que será discutida adiante; a lógica de Rabi Yehudá é que quem reduz num aspecto do procedimento tende a reduzir em todos. Depois, o sacerdote entra no próprio Santuário — não apenas no pátio — para buscar o pó de um local fixo e conhecido, marcado por uma laje de mármore com uma argola de metal para ser erguida, cumprindo o requisito de que o pó venha especificamente do chão do Santuário, e que sua quantidade seja suficiente para aparecer visivelmente sobre a água.

הָיָה מֵבִיא פְיָלִי שֶׁל חֶרֶס חֲדָשָׁה, וְנוֹתֵן לְתוֹכָהּ חֲצִי לֹג מַיִם מִן הַכִּיּוֹר. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, רְבִיעִית. כְּשֵׁם שֶׁמְּמַעֵט בַּכְּתָב, כָּךְ מְמַעֵט בַּמָּיִם. נִכְנַס לַהֵיכָל וּפָנָה לִימִינוֹ, וּמָקוֹם הָיָה שָׁם אַמָּה עַל אַמָּה, וְטַבְלָא שֶׁל שַׁיִשׁ, וְטַבַּעַת הָיְתָה קְבוּעָה בָהּ. וּכְשֶׁהוּא מַגְבִּיהָהּ, נוֹטֵל עָפָר מִתַּחְתֶּיהָ וְנוֹתֵן כְּדֵי שֶׁיֵּרָאֶה עַל הַמַּיִם, שֶׁנֶּאֱמַר (במדבר ה) וּמִן הֶעָפָר אֲשֶׁר יִהְיֶה בְּקַרְקַע הַמִּשְׁכָּן יִקַּח הַכֹּהֵן וְנָתַן אֶל הַמָּיִם:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

O versículo central desta mishná determina a origem do pó lançado na água.

Bemidbar (Números) 5:17
וְלָקַ֧ח הַכֹּהֵ֛ן מַ֥יִם קְדֹשִׁ֖ים בִּכְלִי־חָ֑רֶשׂ וּמִן־הֶֽעָפָ֗ר אֲשֶׁ֤ר יִהְיֶה֙ בְּקַרְקַ֣ע הַמִּשְׁכָּ֔ן יִקַּ֥ח הַכֹּהֵ֖ן וְנָתַ֥ן אֶל־הַמָּֽיִם
E o sacerdote tomará água sagrada em vaso de barro; e do pó que houver no chão do tabernáculo, o sacerdote tomará e colocará na água.

A tradição recebida (halachá leMoshé miSinai) explica que "água sagrada" refere-se especificamente à água do lavatório, previamente consagrada num utensílio de serviço — e não a qualquer água. Já a expressão "e colocará na água" — no lugar de "colocará dentro da água" — é lida por Rashi e pelos demais comentadores como indicação de que o pó não deve se dissolver completamente, mas permanecer visível sobre a superfície.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam e Bartenura, no Perush HaMishná e no comentário respectivamente, sobre o jarro novo exigido e a lei rejeitada de Rabi Yehudá.

Rambam · Perush HaMishná, Sotá 2:2
פִּיָּלִי שֶׁל חֶרֶס כְּלִי שֶׁהוּא מֵחֶרֶס וְצָרִיךְ שֶׁיִּהְיֶה זוֹ הַכְּלִי שֶׁלֹּא נַעֲשָׂה בָּהּ מְלָאכָה כְּלָל, וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה

Rambam explica que o jarro precisa ser novo no sentido estrito: nenhuma tarefa deve ter sido feita com ele, nem mesmo em grau mínimo, comparando-o ao vaso de barro exigido para o ritual de purificação do metsorá, onde a Torá exige "água viva" e a tradição deriva que, assim como a água deve estar intocada, o utensílio também deve estar intocado. Quanto à opinião de Rabi Yehudá, que reduz a quantidade de água para um quarto de log, Rambam confirma que a halachá não segue essa opinião — prevalece a medida de meio log dos sábios.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 15b), Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Sotá 15b, sobre a mishná
מִן הַכִּיּוֹר — דִּכְתִיב מַיִם קְדוֹשִׁים, וְאֵין קְדוֹשִׁים אֶלָּא שֶׁנִּתְקַדְּשׁוּ בִּכְלִי. וְנָתַן אֶל הַמַּיִם — מִדְּלָא כְתִיב וְנָתַן בַּמַּיִם, אֶלָּא אֶל הַמַּיִם, מַשְׁמַע שֶׁלֹּא יְהֵא נִבְלָע בְּתוֹכָן

Rashi apoia a exigência de que a água venha do lavatório no próprio texto do versículo: "água sagrada" só pode significar água que passou por um processo de consagração, e isso ocorre unicamente pelo contato com um utensílio de serviço sagrado, como o lavatório de cobre. Sobre o local exato de onde vem o pó, Rashi nota que a laje de mármore era perceptível em meio ao restante do piso do Santuário, com uma argola fixada para permitir erguê-la e retirar o pó de baixo dela — e não do próprio piso onde o sacerdote pisa. Por fim, sobre a expressão "colocará à água" em vez de "na água", Rashi confirma a leitura de que o pó deve permanecer visível, não dissolvido, sobre a superfície.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Sotá 2:2
וּמַה שֶּׁאָמַר חֲדָשָׁה, שֶׁלֹּא נַעֲשָׂה בָּהֶם מְלָאכָה כְּלָל, וַאֲפִלּוּ בְּדָבָר מוּעָט, כְּגוֹן כְּלִי חֶרֶס שֶׁל מְצוֹרָע

Rambam compara o jarro de barro da sotá ao vaso de barro do ritual do metsorá — em ambos os casos, a Torá exige um recipiente completamente intocado por uso, sem que nenhuma tarefa, por menor que seja, tenha sido realizada com ele antes.

Bartenura · רע״ב
Sotá 2:2
מָקוֹם הָיָה שָׁם. נִכָּר מִתּוֹךְ שְׁאָר רִצְפַּת הַהֵיכָל. וְטַבַּעַת קְבוּעָה בָהּ. לְאוֹחֲזָהּ בְּטַבַּעְתָּהּ וּלְהַגְבִּיהָהּ מִשְּׁאָר הָרִצְפָּה שֶׁהִיא כֻּלָּהּ בְּאַבְנֵי שַׁיִשׁ

Bartenura confirma que o local do pó era claramente identificável em meio ao restante do piso de mármore do Santuário, graças à argola fixada nele — necessária para erguer a laje, já que todo o restante do piso era feito das mesmas pedras de mármore, tornando impossível diferenciar o local sem essa marca própria.