Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Bet · Mishná 3 de 6

Escrevendo o pergaminho da maldição

בָּא לוֹ לִכְתֹּב אֶת הַמְּגִלָּה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná passa ao pergaminho da maldição: de onde o sacerdote começa a escrevê-lo, o que ele deliberadamente omite — as frases de mandamento e de aceitação, que não são em si maldições — e a disputa de Rabi Yosé e Rabi Yehudá sobre os limites exatos dessa seleção.

Vinha para escrever o pergaminho. De que lugar ele escreve? "Se nenhum homem se deitou contigo, etc.", "e tu, quando te desviaste sob teu marido, etc.". E não escreve "e o sacerdote fará jurar a mulher, etc.". E escreve "que o Eterno te ponha por maldição e por juramento, etc., e estas águas amaldiçoantes entrem em teus intestinos para inchar o ventre e fazer cair a coxa". E não escreve "e a mulher dirá amém, amém". Rabi Yosé diz: ele não interrompia. Rabi Yehudá diz: de modo algum ele escreve, senão "que o Eterno te ponha por maldição e por juramento, etc., e estas águas amaldiçoantes entrem em teus intestinos, etc.". E não escreve "e a mulher dirá amém, amém".A mishná estabelece que nem tudo na parashá bíblica da sotá é, tecnicamente, uma maldição — parte do texto são apenas instruções ao sacerdote ("e o sacerdote fará jurar") ou a resposta esperada da mulher ("e dirá amém, amém"), e por isso o sacerdote as omite ao redigir o pergaminho que será dissolvido na água, escrevendo apenas o conteúdo propriamente maledictório. Rabi Yosé discorda quanto à continuidade da escrita, sustentando que o sacerdote não interrompe o processo entre um trecho e outro; Rabi Yehudá vai além dos sábios anônimos e restringe ainda mais o texto escrito, incluindo somente a fórmula central da maldição.

בָּא לוֹ לִכְתֹּב אֶת הַמְּגִלָּה, מֵאֵיזֶה מָקוֹם הוּא כוֹתֵב, (במדבר ה) מֵאִם לֹא שָׁכַב אִישׁ וְגוֹ', וְאַתְּ כִּי שָׂטִית תַּחַת אִישֵׁךְ וְגוֹ'. וְאֵינוֹ כוֹתֵב וְהִשְׁבִּיעַ הַכֹּהֵן אֶת הָאִשָּׁה וְגוֹ'. וְכוֹתֵב יִתֵּן ה' אוֹתָךְ לְאָלָה וְלִשְׁבֻעָה וְגוֹ', וּבָאוּ הַמַּיִם הַמְאָרְרִים הָאֵלֶּה בְּמֵעַיִךְ לַצְבּוֹת בֶּטֶן וְלַנְפִּל יָרֵךְ. וְאֵינוֹ כוֹתֵב וְאָמְרָה הָאִשָּׁה אָמֵן אָמֵן. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר, לֹא הָיָה מַפְסִיק. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, כָּל עַצְמוֹ אֵינוֹ כוֹתֵב, אֶלָּא יִתֵּן ה' אוֹתָךְ לְאָלָה וְלִשְׁבֻעָה וְגוֹ' וּבָאוּ הַמַּיִם הַמְאָרְרִים הָאֵלֶּה בְּמֵעַיִךְ וְגוֹ'. וְאֵינוֹ כוֹתֵב וְאָמְרָה הָאִשָּׁה אָמֵן אָמֵן:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

O texto integral que a mishná recorta vem de Bemidbar 5:19-22, e a mishná decide o que dele é copiado no pergaminho.

Bemidbar (Números) 5:19-21
וְהִשְׁבִּ֨יעַ אֹתָ֜הּ הַכֹּהֵ֗ן וְאָמַ֤ר אֶל־הָֽאִשָּׁה֙ אִם־לֹ֨א שָׁכַ֥ב אִישׁ֙ אֹתָ֔ךְ וְאִם־לֹ֥א שָׂטִ֛ית טֻמְאָ֖ה תַּ֣חַת אִישֵׁ֑ךְ הִנָּקִ֕י מִמֵּ֛י הַמָּרִ֥ים הַֽמְאָרְרִ֖ים הָאֵֽלֶּה. וְאַ֗תְּ כִּ֥י שָׂטִ֛ית תַּ֥חַת אִישֵׁ֖ךְ וְכִ֣י נִטְמֵ֑את... וְהִשְׁבִּ֨יעַ הַכֹּהֵ֥ן אֶֽת־הָאִשָּׁה֮ בִּשְׁבֻעַ֣ת הָאָלָה֒ וְאָמַ֤ר הַכֹּהֵן֙ לָֽאִשָּׁ֔ה יִתֵּ֨ן יְהֹוָ֥ה אוֹתָ֛ךְ לְאָלָ֥ה וְלִשְׁבֻעָ֖ה בְּת֣וֹךְ עַמֵּ֑ךְ
E o sacerdote a fará jurar, e dirá à mulher: se nenhum homem se deitou contigo, e se não te desviaste para a impureza estando sob teu marido, sê livre destas águas amargas amaldiçoantes. Mas tu, se te desviaste estando sob teu marido, e se te contaminaste... E o sacerdote fará jurar a mulher com o juramento da maldição, e dirá o sacerdote à mulher: que o Eterno te ponha por maldição e por juramento no meio do teu povo.

O versículo 23 é a base haláchica de todo este capítulo: "e escreverá o sacerdote estas maldições num livro, e as apagará nas águas amargas". A mishná não cita esse versículo diretamente aqui, mas ele é a norma que exige que apenas as maldições — e não as cláusulas de mandamento e de aceitação — sejam escritas e depois apagadas na água.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, explica a base exegética da disputa entre os sábios, Rabi Yosé e Rabi Yehudá.

Rambam · Perush HaMishná, Sotá 2:3
תָּנָא קַמָּא אוֹמֵר שֶׁהוּא כּוֹתֵב אִם לֹא שָׁכַב אִישׁ אוֹתָךְ וְאִם לֹא שָׂטִית טֻמְאָה תַּחַת אִישֵׁךְ וְגוֹ׳, לְפִי שֶׁאֵלּוּ הַפְּסוּקִים אַף עַל פִּי שֶׁאֵין בָּהֶם קְלָלוֹת, מִכָּל מָקוֹם מַשְׁמָעוּתָן קְלָלוֹת

Rambam explica que os sábios anônimos incluem os versículos "se nenhum homem se deitou contigo" — que, tecnicamente, são uma bênção condicional e não uma maldição — porque seu sentido implícito já é de maldição: se o texto diz "se não te desviaste, sê livre", o inverso lógico é "se te desviaste, não serás livre", tornando-os, na prática, "maldições vindas por meio de bênçãos". Já a frase "e o sacerdote fará jurar a mulher" é reconhecidamente apenas uma instrução dirigida ao sacerdote, sem conteúdo de maldição, e por isso é unanimemente excluída. A disputa entre Rabi Yosé e Rabi Yehudá gira em torno da leitura da palavra "estas maldições" (הָאָלוֹת הָאֵלֶּה): os sábios e Rabi Yosé leem "הָאָלוֹת" como incluindo as maldições vindas por bênção, enquanto Rabi Yehudá restringe a escrita apenas ao núcleo direto da maldição.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 17a), Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Sotá 17a, sobre a mishná
מַתְנִיתִין מוְאִם לֹא שָׁכַב אִישׁ אוֹתָךְ — וְאִם לֹא שָׂטִית טֻמְאָה, שֶׁהֵן קְלָלוֹת הַבָּאוֹת מֵחֲמַת בְּרָכוֹת... וְכָךְ הֵן סְדוּרִין בַּפָּרָשָׁה, אֶלָּא שֶׁוְהִשְׁבִּיעַ הַכֹּהֵן אֶת הָאִשָּׁה מַפְסִיק בָּרֹאשׁ

Rashi identifica com precisão qual trecho tem "sentido de maldição vindo por meio de bênção": o versículo "se não te desviaste para a impureza, sê livre" implica logicamente que, se ela se desviou, não será livre — daí sua inclusão no pergaminho apesar da formulação positiva. Rashi confirma que a ordem dos textos escritos segue a ordem em que aparecem na parashá bíblica, exceto pela frase "e o sacerdote fará jurar a mulher", que interrompe o fluxo no início por ser apenas uma instrução dirigida ao sacerdote sobre o ato de fazer jurar, não parte do juramento em si.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Sotá 2:3
ר׳ יוֹסֵי אוֹמֵר אֵת לְרַבּוֹת הַצַּוָּאוֹת, וּלְכָךְ אוֹמֵר אֵינוֹ מַפְסִיק אֶלָּא כּוֹתֵב וְכוֹתֵב גַּם כֵּן וְהִשְׁבִּיעַ הַכֹּהֵן

Rambam explica que Rabi Yosé deriva, da partícula gramatical "אֵת" no versículo, uma inclusão adicional das próprias frases de mandamento ("e o sacerdote fará jurar") no texto escrito — por isso ele sustenta que o sacerdote não interrompe a escrita em ponto algum da parashá, mas a copia integralmente, do início ao fim, sem pular nenhuma frase.

Bartenura · רע״ב
Sotá 2:3
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר כָּל עַצְמוֹ אֵינוֹ כוֹתֵב. כְּלוֹמַר הָיָה זָהִיר בְּעַצְמוֹ שֶׁלֹּא לִכְתֹּב אֶלָּא אָלוֹת בִּלְבַד, וְלֹא קְלָלוֹת הַבָּאוֹת מֵחֲמַת בְּרָכוֹת, וְלֹא צַוָּאוֹת, וְלֹא קַבָּלוֹת

Bartenura resume a posição mais restritiva de Rabi Yehudá: ele evita escrever qualquer coisa além do núcleo puro da maldição, excluindo tanto as maldições formuladas como bênçãos condicionais quanto as frases de mandamento dirigidas ao sacerdote e as de aceitação atribuídas à mulher — uma leitura da palavra "הָאָלוֹת" (as maldições) como termo restritivo, e não ampliativo, ao contrário da leitura dos sábios anônimos e de Rabi Yosé.