Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Bet · Mishná 4 de 6

Só em pergaminho, só com tinta que se apaga

אֵינוֹ כוֹתֵב לֹא עַל הַלּוּחַ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná fixa o material sobre o qual o pergaminho pode ser escrito — só pergaminho de verdade, nunca tábua, papel de ervas ou couro mal curtido — e a tinta com que deve ser escrito, exigindo especificamente uma substância que possa ser apagada na água, e não qualquer material que apenas marque a superfície.

Ele não escreve nem na tábua, nem no papel, nem no couro mal curtido, senão no pergaminho, como está dito: "no livro". E não escreve com goma, nem com sulfato de cobre, nem com qualquer coisa que apenas marque, senão com tinta, como está dito: "e apagará" — escrita que possa ser apagada.A mishná encerra os requisitos materiais do pergaminho com dois pares de exigências espelhadas: o suporte de escrita deve ser especificamente pergaminho, derivado da palavra "no livro" (בַּסֵּפֶר) do versículo, e não qualquer outro material de escrita disponível na época — tábua de madeira, papel feito de ervas socadas, ou couro curtido apenas parcialmente. E a tinta deve ser especificamente uma substância que se dissolve e se apaga em contato com a água — como a tinta comum feita de fuligem —, e não substâncias como goma ou sulfato de cobre, que penetram fundo no material e resistem à água, tornando-se permanentes. Ambas as exigências decorrem diretamente do requisito final: que o texto inteiro possa ser fisicamente apagado nas águas amargas, conforme o próprio versículo determina.

אֵינוֹ כוֹתֵב לֹא עַל הַלּוּחַ וְלֹא עַל הַנְּיָר וְלֹא עַל הַדִּפְתְּרָא, אֶלָּא עַל הַמְּגִלָּה, שֶׁנֶּאֱמַר (שם) בַּסֵּפֶר. וְאֵינוֹ כוֹתֵב לֹא בְקוֹמוֹס וְלֹא בְקַנְקַנְתּוֹם וְלֹא בְכָל דָּבָר שֶׁרוֹשֵׁם, אֶלָּא בִדְיוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר (שם) וּמָחָה, כְּתָב שֶׁיָּכוֹל לְהִמָּחֵק:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Um único versículo de Bemidbar 5 fornece a base para as duas exigências desta mishná.

Bemidbar (Números) 5:23
וְ֠כָתַ֠ב אֶת־הָאָלֹ֥ת הָאֵ֛לֶּה הַכֹּהֵ֖ן בַּסֵּ֑פֶר וּמָחָ֖ה אֶל־מֵ֥י הַמָּרִֽים
E o sacerdote escreverá estas maldições num livro, e as apagará nas águas amargas.

Duas palavras deste único versículo geram as duas leis da mishná: "no livro" (בַּסֵּפֶר) exige um suporte específico de escrita, e "e apagará" (וּמָחָה) exige uma tinta que possa efetivamente se dissolver na água. A tradição oral entende "livro" no sentido técnico de pergaminho preparado propriamente para escrita sagrada, com os mesmos critérios de preparo exigidos para um rolo da Torá, tefilin ou mezuzá — e não qualquer suporte improvisado.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, situa esta mishná entre as leis gerais de escrita sagrada.

Rambam · Perush HaMishná, Sotá 2:4
וּמַה שֶּׁאָמַר כָּאן שֶׁהִיא לֹא תִכָּתֵב אֶלָּא בִדְיוֹ, וְנָתַן טַעַם לָזֶה כְּתָב שֶׁהוּא יָכוֹל לְהִמָּחֵק. וּבְכָל מָקוֹם שֶׁאָנוּ מַצְרִיכִין כֵּן בְּסִפְרֵי תוֹרָה וְזוּלָתָם שֶׁלֹּא יִכָּתְבוּ אֶלָּא בִדְיוֹ

Rambam nota que esta é a única instância em toda a lei judaica onde a Torá explicitamente exige uma tinta que se apague — porque, em todos os demais casos de escrita sagrada, como rolos da Torá, tefilin e mezuzot, exige-se justamente o contrário, uma tinta estável e durável. A explicação, segundo Rambam, é a própria finalidade da escrita aqui: diferente de todos os outros textos sagrados, que devem perdurar, o pergaminho da sotá é escrito precisamente para ser dissolvido na água como parte do próprio ritual — daí a exigência inversa de uma tinta solúvel.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 17a-17b), Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Sotá 17a-17b, sobre a mishná
מַתְנִיתִין לוּחַ — שֶׁל עֵץ. נְיָר — שֶׁל עֲשָׂבִים שֶׁכּוֹתְשִׁין וּמְדַבְּקִין אוֹתָן בְּדֶבֶק... דִּפְתְּרָא — עוֹר שֶׁאֵינָהּ מְעֻבָּד כָּל צָרְכָּהּ, דְּמָלִיחַ וְקָמִיחַ וְלֹא עָפִיץ... קוֹמוֹס — שְׂרַף הָאִילָן וּמַתִּיכוֹ בְמַיִם וְכוֹתֵב הֵימֶנּוּ. קַנְקַנְתּוֹם — וויטריאולו קורין אותו. וְלֹא בְכָל דָּבָר שֶׁהוּא רוֹשֵׁם — וְנִבְלָע בַּקְּלָף וְאֵינוֹ יָכוֹל לִמְחוֹק

Rashi identifica cada material rejeitado: a tábua é de madeira; o papel é feito de ervas socadas e coladas até formar algo semelhante a couro; e o couro mal curtido (diftera) passou apenas pelo processo de salga e farinha, sem o curtimento completo com agentes taninos. Sobre a tinta, Rashi explica que a goma é resina de árvore dissolvida em água — usada para escrever — e o sulfato de cobre é identificado com o termo europeu de sua época para o vitríolo. Ambos, explica Rashi, produzem uma marca que penetra fundo no pergaminho e não pode ser removida por lavagem, ao contrário da tinta comum, que permanece na superfície e pode ser efetivamente apagada.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Sotá 2:4
אָמְרוּ כְּתָבָהּ אִגֶּרֶת פְּסוּלָה, בְּסֵפֶר אָמַר רַחֲמָנָא. כְּתָבָהּ עַל שְׁנֵי דַּפִּין פְּסוּלָה, סֵפֶר אֶחָד אָמַר רַחֲמָנָא וְלֹא שְׁנַיִם וּשְׁלֹשָׁה סְפָרִים

Rambam acrescenta, com base na Guemará, duas leis relacionadas que reforçam o requisito de "no livro": se o sacerdote escreveu o texto como uma carta comum (sem o formato apropriado de rolo), o pergaminho é inválido, pois a Torá especificou "no livro" no sentido técnico; e se ele o escreveu em duas folhas separadas em vez de uma só, também é inválido, pois a Torá disse "um livro" e não "dois ou três livros" — a unidade física do suporte é parte da exigência.

Bartenura · רע״ב
Sotá 2:4
קוֹמוֹס. שְׂרַף הָאִילָן, וּמַתִּיכוֹ בְמַיִם. קַנְקַנְתּוֹם. אירמנ"ט... וְלֹא בְכָל דָּבָר שֶׁהוּא רוֹשֵׁם. וְנִבְלַע בַּקְּלָף וְאֵינוֹ יָכוֹל לִמְחוֹת, דְּקוֹמוֹס וְקַנְקַנְתּוֹם עָבְדֵי רֹשֶׁם

Bartenura resume a distinção central entre "marcar" (רושם) e "escrever com tinta" (דיו): goma e sulfato de cobre não produzem uma escrita no sentido pleno, mas uma marca que se funde com a fibra do pergaminho, tornando-se parte irreversível dele — o oposto exato do que a Torá exige para este pergaminho específico, cujo destino final é ser dissolvido nas águas amargas diante da mulher.