Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Chet · Mishná 2 de 7

Os que voltam: casa nova, vinha nova, noiva nova

וְדִבְּרוּ הַשֹּׁטְרִים אֶל הָעָם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Após o discurso do sacerdote, a mishná passa à palavra dos oficiais, que anunciam publicamente quem tem permissão de deixar o campo de batalha e retornar para casa.

"E falarão os oficiais ao povo, dizendo: 'Quem é o homem que edificou casa nova e não a inaugurou? Vá e volte à sua casa'" etc. Tanto faz o que edifica celeiro de palha, estábulo de gado, depósito de lenha, casa de armazéns. Tanto o que edifica, quanto o que compra, quanto o que herda, quanto aquele a quem foi dado de presente. "E quem é o homem que plantou vinha e não a resgatou" etc. Tanto o que planta a vinha quanto o que planta cinco árvores frutíferas, mesmo que das cinco espécies. Tanto o que planta, quanto o que ameiva, quanto o que enxerta, quanto o que compra, quanto o que herda, quanto aquele a quem foi dado de presente. "E quem é o homem que desposou mulher" etc. Tanto o que desposa a virgem quanto o que desposa a viúva, mesmo a cunhada que aguarda o levirato, e mesmo que tenha ouvido que seu irmão morreu na guerra, volta e vem. Todos estes ouvem as palavras do sacerdote sobre as fileiras de guerra e voltam, e fornecem água e alimento, e consertam os caminhos.Esta mishná detalha as três isenções bíblicas explícitas do serviço militar, todas fundadas na mesma lógica compassiva: não se deve enviar à morte um homem cuja alegria de vida recém-conquistada — casa, vinha, esposa — ainda não foi vivida plenamente, pois seria cruel que outro viesse a desfrutá-la em seu lugar. A mishná amplia deliberadamente cada categoria: não apenas quem construiu, mas também quem comprou, herdou ou recebeu de presente; não apenas uma vinha inteira, mas mesmo cinco árvores frutíferas de espécies diferentes; não apenas a noiva virgem, mas também a viúva e até a cunhada que aguarda o levirato — numa extensão generosa do princípio bíblico a toda situação análoga de vida nova ainda não estabelecida. Note-se, porém, que mesmo estes isentos não escapam totalmente do dever cívico: ouvem primeiro as palavras do sacerdote sobre as leis da guerra, e mesmo após voltarem para casa continuam a apoiar o esforço bélico fornecendo água, alimento e reparando estradas para os que seguem para o combate.

וְדִבְּרוּ הַשֹּׁטְרִים אֶל הָעָם לֵאמֹר מִי הָאִישׁ אֲשֶׁר בָּנָה בַיִת חָדָשׁ וְלֹא חֲנָכוֹ יֵלֵךְ וְיָשֹׁב לְבֵיתוֹ וְגוֹ' (שם). אֶחָד הַבּוֹנֶה בֵית הַתֶּבֶן, בֵּית הַבָּקָר, בֵּית הָעֵצִים, בֵּית הָאוֹצָרוֹת. אֶחָד הַבּוֹנֶה, וְאֶחָד הַלּוֹקֵחַ, וְאֶחָד הַיּוֹרֵשׁ, וְאֶחָד שֶׁנִּתַּן לוֹ מַתָּנָה. וּמִי הָאִישׁ אֲשֶׁר נָטַע כֶּרֶם וְלֹא חִלְּלוֹ וְגוֹ' (שם). אֶחָד הַנּוֹטֵעַ הַכֶּרֶם וְאֶחָד הַנּוֹטֵעַ חֲמִשָּׁה אִילָנֵי מַאֲכָל, וַאֲפִלּוּ מֵחֲמֵשֶׁת מִינִין. אֶחָד הַנּוֹטֵעַ, וְאֶחָד הַמַּבְרִיךְ, וְאֶחָד הַמַּרְכִּיב, וְאֶחָד הַלּוֹקֵחַ, וְאֶחָד הַיּוֹרֵשׁ, וְאֶחָד שֶׁנִּתַּן לוֹ מַתָּנָה. וּמִי הָאִישׁ אֲשֶׁר אֵרַשׂ אִשָּׁה וְגוֹ' (שם). אֶחָד הַמְאָרֵס אֶת הַבְּתוּלָה, וְאֶחָד הַמְאָרֵס אֶת הָאַלְמָנָה, אֲפִלּוּ שׁוֹמֶרֶת יָבָם, וַאֲפִלּוּ שָׁמַע שֶׁמֵּת אָחִיו בַּמִּלְחָמָה, חוֹזֵר וּבָא לוֹ. כֹּל אֵלּוּ שׁוֹמְעִין דִּבְרֵי כֹהֵן מֵעֶרְכֵי מִלְחָמָה וְחוֹזְרִין, וּמְסַפְּקִין מַיִם וּמָזוֹן וּמְתַקְּנִין אֶת הַדְּרָכִים:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

As três isenções — casa, vinha, noiva — estão fixadas em Devarim 20:5-7.

Devarim (Deuteronômio) 20:5-7
וְדִבְּרוּ הַשֹּׁטְרִים אֶל הָעָם לֵאמֹר מִי הָאִישׁ אֲשֶׁר בָּנָה בַיִת חָדָשׁ... וּמִי הָאִישׁ אֲשֶׁר נָטַע כֶּרֶם וְלֹא חִלְּלוֹ... וּמִי הָאִישׁ אֲשֶׁר אֵרַשׂ אִשָּׁה וְלֹא לְקָחָהּ...
"E falarão os oficiais ao povo, dizendo: quem é o homem que edificou casa nova... e quem é o homem que plantou vinha e não a resgatou... e quem é o homem que desposou mulher e não a tomou..."

As três isenções seguem uma progressão deliberada na Torá — casa, vinha, esposa — refletindo a ordem natural do estabelecimento de uma vida: primeiro o lar, depois o sustento, por fim a família. A mishná nota que a lei não exige que o homem tenha necessariamente construído com as próprias mãos; basta que a posse — por compra, herança ou presente — seja recente e ainda não "usufruída", preservando a mesma lógica de que ninguém deve morrer sem ter provado da alegria que acabou de conquistar.

Halachot · הֲלָכוֹת

Bartenura detalha por que o comprador de casa pronta também se isenta, e por que cinco árvores de espécies diferentes já constituem "vinha".

Bartenura · Sotá 8:2
אֶחָד הַבּוֹנֶה וְאֶחָד הַלּוֹקֵחַ. בַּיִת בָּנוּי, שֶׁהֲרֵי אֶצְלוֹ הוּא חָדָשׁ: וְאֶחָד הַנּוֹטֵעַ חֲמִשָּׁה אִילָנֵי מַאֲכָל. דִּבְהָכִי הָוֵי כֶּרֶם, שְׁתַּיִם כְּנֶגֶד שְׁתַּיִם, וְאַחַת יוֹצֵאת זָנָב: וַאֲפִלּוּ מֵחֲמֵשֶׁת מִינִים. מִצְטָרְפִים

Bartenura explica que "tanto o que compra" refere-se a uma casa já construída, pois, mesmo assim, ela é considerada "nova" para o comprador, já que ele nunca a habitou antes. Sobre as cinco árvores frutíferas, esclarece por que esse número mínimo já constitui uma "vinha" para efeitos desta lei: dispostas em um arranjo de duas fileiras de duas árvores, com uma quinta saindo como "cauda", a configuração assemelha-se estruturalmente a um vinhedo. E confirma que as cinco árvores podem ser de espécies diferentes — inclusive combinando as cinco espécies frutíferas clássicas — e ainda assim se somam para formar a unidade mínima que dá direito à isenção.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 43a-44a) e Bartenura. (Não há Perush HaMishná de Rambam preservado para esta mishná específica.)

Rashi · רש״י
Sotá 43a-44a, sobre a mishná
בית האוצרות - לְאוֹצָר יַיִן שֶׁמֶן וּתְבוּאָה: וְאֶחָד הַלּוֹקֵחַ - בַּיִת בָּנוּי שֶׁהֲרֵי אֶצְלוֹ הוּא חָדָשׁ וּבַגְּמָרָא מְרַבִּינַן לֵיהּ מִקְּרָא: חֲמִשָּׁה אִילָנֵי מַאֲכָל - דִּבְהָכִי הָוֵי כֶּרֶם שְׁתַּיִם כְּנֶגֶד שְׁתַּיִם וְאַחַת יוֹצֵאת זָנָב: תַּלְמוּד לוֹמַר כֶּרֶם - דָּמֵי לְכֶרֶם וּפָחוֹת שֶׁבַּכְּרָמִים חֲמִשָּׁה גְפָנִים הֵם: מַבְרִיךְ - שֶׁכּוֹפֵף הַזְּמוֹרָה בָּאָרֶץ: מַרְכִּיב - שֶׁנּוֹקֵב הָאִילָן וְנוֹטֵל מִן הָרַךְ שֶׁבְּעַנְפֵי הָאִילָן וְתוֹחֵב לְתוֹכוֹ וְעוֹשֶׂה עָנָף בְּתוֹךְ הַנֶּקֶב: אֵין לִי אֶלָּא חֲדָשָׁה - בְּתוּלָה: אַלְמָנָה וּגְרוּשָׁה - מֵאַחַר וּנְשָׂאָהּ זֶה

Rashi identifica "casa de armazéns" como depósito de vinho, azeite e grãos, e confirma que "o que compra" refere-se a uma casa já construída, que é considerada nova para o comprador — derivação que a Guemará amplia diretamente do texto bíblico. Sobre as cinco árvores frutíferas, repete a mesma imagem geométrica de duas fileiras de duas árvores com uma quinta "saindo como cauda", e nota que mesmo o menor vinhedo reconhecível possui, no mínimo, cinco videiras. Define mavrich como aquele que dobra um ramo até a terra para que crie raízes por si mesmo, e markiv como aquele que perfura o tronco de uma árvore e insere nele um ramo tenro de outra, formando um novo galho dentro do orifício — as duas técnicas agrícolas de propagação vegetativa reconhecidas pela lei como equivalentes a "plantar". Por fim, sobre a palavra "nova" aplicada à esposa, explica que, isoladamente, o texto indicaria apenas a noiva virgem — mas a mishná amplia a isenção também à viúva e à divorciada, uma vez que, para o noivo que a desposa agora, ela é "nova" em relação a ele.

Bartenura · רע״ב
Sotá 8:2
אֶחָד הַבּוֹנֶה וְאֶחָד הַלּוֹקֵחַ. בַּיִת בָּנוּי, שֶׁהֲרֵי אֶצְלוֹ הוּא חָדָשׁ: וְאֶחָד הַנּוֹטֵעַ חֲמִשָּׁה אִילָנֵי מַאֲכָל. דִּבְהָכִי הָוֵי כֶּרֶם, שְׁתַּיִם כְּנֶגֶד שְׁתַּיִם, וְאַחַת יוֹצֵאת זָנָב: וַאֲפִלּוּ מֵחֲמֵשֶׁת מִינִים. מִצְטָרְפִים

Bartenura resume com economia as duas ampliações centrais da mishná: qualquer forma de aquisição — não apenas construir, mas comprar, herdar ou receber — qualifica a propriedade como "nova" para efeitos da isenção; e a estrutura mínima de cinco árvores em disposição geométrica específica já constitui, legalmente, uma "vinha", mesmo quando composta por espécies frutíferas diferentes que se somam para completar o número exigido.