Seder Moed · Massechet Sucá · Perek Guimel · Mishná 15 de 15 (última do perek)

A mulher recebe o lulav e a criança que sabe agitar

קָטָן הַיּוֹדֵעַ לְנַעְנֵעַ, חַיָּב בַּלּוּלָב
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A última mishná do perek trata do cuidado com o lulav e o hadas depois de usados — mantidos frescos em água — e fecha com um princípio educacional sobre a obrigação de menores que já sabem agitar o lulav.

A mulher recebe o lulav da mão de seu filho ou da mão de seu marido, e o devolve à água em Shabat.Depois de usado, o lulav costumava ser guardado em água para não murchar. Uma mulher pode receber o lulav das mãos de seu filho ou de seu marido e recolocá-lo na água, mesmo em Shabat — pois não se trata de manuseá-lo para uso próprio, mas apenas de conservá-lo, o que é permitido.

Rabi Yehudá diz: em Shabat, devolve-se; em dia de festa, acrescenta-se; e nos dias intermediários, troca-se.Rabi Yehudá distingue três níveis de cuidado, do menos ao mais intenso: em Shabat, apenas recoloca-se a água já usada; em dia de festa, pode-se também acrescentar água fresca ao vaso; e nos dias intermediários da festa — quando há mais liberdade para o trabalho — pode-se até trocar totalmente a água.

A criança que já sabe agitar está obrigada no preceito do lulav.Ainda que menores estejam, em geral, isentos dos preceitos, aquela criança já capaz de segurar e agitar corretamente o lulav é considerada obrigada nesse preceito especificamente — por força do dever educacional dos pais de acostumar os filhos ao cumprimento dos preceitos.

מְקַבֶּלֶת אִשָּׁה מִיַּד בְּנָהּ וּמִיַּד בַּעְלָהּ וּמַחֲזִירָתוֹ לַמַּיִם בְּשַׁבָּת. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, בְּשַׁבָּת מַחֲזִירִין, בְּיוֹם טוֹב מוֹסִיפִין, וּבַמּוֹעֵד מַחֲלִיפִין. קָטָן הַיּוֹדֵעַ לְנַעְנֵעַ, חַיָּב בַּלּוּלָב:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim 6:7
וְשִׁנַּנְתָּם לְבָנֶיךָ.
E as ensinarás diligentemente a teus filhos.

A obrigação de acostumar os filhos ao cumprimento dos preceitos — chamada pelos Sábios de "chinuch" — é derivada deste e de versículos semelhantes que ordenam ensinar a Torá e seus preceitos à geração seguinte. É desse dever educacional, e não da obrigação plena que recai sobre o adulto, que decorre a regra encerrando esta mishná: uma criança ainda menor de idade, mas já capaz de compreender e executar corretamente a agitação do lulav, é considerada "obrigada" nesse preceito especificamente, para que se habitue a ele desde cedo.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam nota que a lei segue tanto Rabi Yosei (mishná anterior) quanto Rabi Yehudá (nesta); Bartenura detalha o motivo de cada um dos três níveis de cuidado com a água e a base da obrigação da criança.

Rambam · Perush HaMishná, Sucá 3:15
מְקַבֶּלֶת אִשָּׁה מִיַּד בְּנָהּ וּמִיַּד בַּעְלָהּ כוּ': בִּתְנַאי שֶׁיּוֹצִיאוּ אוֹתוֹ הָפוּךְ אוֹ שֶׁיּוֹצִיאֶנּוּ בִּכְלִי, שֶׁהֲרֵי לֹא יָצָא יְדֵי חוֹבָתוֹ; אֲבָל אִם נְטָלוֹ בְּיָדוֹ וְהוֹצִיאוֹ שׁוֹגֵג, חַיָּב חַטָּאת, כִּי הָעִקָּר אֶצְלֵנוּ מִדְּאַגְבְּהֵיהּ נָפֵיק בֵּיהּ, וְכֵיוָן שֶׁיָּצָא יְדֵי חוֹבָתוֹ, לֹא נֶאֱמַר שֶׁהוֹצִיאוֹ בִּרְשׁוּת. וְהִלְכְתָא כְּרַבִּי יוֹסֵי, וְהִלְכְתָא כְּרַבִּי יְהוּדָה.

"A mulher recebe o lulav da mão de seu filho e da mão de seu marido" etc. — com a condição de que o carreguem invertido ou dentro de um recipiente, pois nesses casos não se cumpriu a obrigação. Mas se o tomou na mão e o carregou por engano, está obrigado a trazer oferenda pelo pecado — pois o princípio entre nós é que, ao erguê-lo, já cumpre com ele a obrigação, e, tendo já cumprido sua obrigação, não se diz que o carregou "com permissão". E a lei segue Rabi Yosei, e a lei segue Rabi Yehudá.

Bartenura · Sucá 3:15
מְקַבֶּלֶת אִשָּׁה. אֶת הַלּוּלָב, וְלֹא אָמְרִינַן דִּמְטַלְטֶלֶת מִידֵי דְּלֹא חֲזִי לַהּ. וּמַחְזֶרֶת לַמַּיִם. שֶׁלֹּא יִכְמֹשׁוּ. בְּשַׁבָּת מַחְזִירִים. שֶׁהֲרֵי מֵהֶם נְטָלוּם הַיּוֹם, אֲבָל לֹא מוֹסִיפִים, וְכָל שֶׁכֵּן שֶׁאֵין מַחְלִיפִין. וּבְיוֹם טוֹב מוֹסִיפִין. אֲבָל לֹא מַחְלִיפִים, לִשְׁפֹּךְ אֵלּוּ וְלָתֵת צוֹנְנִין מֵהֶן, דְּטָרַח לְתַקֵּן מָנָא. וּבַמּוֹעֵד. בְּחֹל הַמּוֹעֵד מִצְוָה לְהַחְלִיף, וַהֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה. חַיָּב בַּלּוּלָב. לְחַנְּכוֹ מִדִּבְרֵי סוֹפְרִים.

"A mulher recebe" — o lulav, e não dizemos que ela estaria manuseando algo que não lhe é próprio. "E o devolve à água" — para que não murchem. "Em Shabat, devolve-se" — pois foi dela mesma que os tomaram naquele dia, mas não se acrescenta, e menos ainda se troca. "E em dia de festa acrescenta-se" — mas não se troca completamente, derramando a água e colocando outra fresca em seu lugar, pois isso seria trabalho de arrumar o recipiente. "E nos dias intermediários" — no chol hamoed é preceito trocar a água por completo, e a lei segue Rabi Yehudá. "Está obrigada no lulav" — para acostumá-la ao preceito, por decreto dos Sábios.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi, na Guemará, discute o princípio subjacente ao caso de água exposta, aplicável por analogia ao cuidado com a água do lulav.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Sucá 42a-b
הַיּוֹדֵעַ לְשַׁחֵט — לְאַמֵּן יָדָיו לִשְׁחִיטָה, אַף עַל פִּי שֶׁאֵינוֹ בָּקִי בְּהִלְכוֹת שְׁחִיטָה. מֻתָּר לֶאֱכֹל מִשְּׁחִיטָתוֹ — כִּדְאָמַר רַב הוּנָא, וְהוּא שֶׁגָּדוֹל עוֹמֵד עַל גַּבָּיו וְרָאָה שֶׁלֹּא שָׁהָה וְלֹא דָרַס.

"O que já sabe abater" — que já treinou suas mãos para o abate ritual, ainda que não seja versado nas leis do abate. "É permitido comer de seu abate" — como disse Rav Huna, desde que um adulto esteja junto e tenha visto que não demorou nem pressionou a lâmina — mostrando, por analogia, como a Guemará mede a capacidade real de uma criança para determinar sua obrigação num preceito, tal como aqui se mede sua capacidade de agitar corretamente o lulav.