Seder Moed · Massechet Taanit · Perek Alef · Mishná 2 de 7

Não se pede a chuva senão perto da chuva

אֵין שׁוֹאֲלִין אֶת הַגְּשָׁמִים אֶלָּא סָמוּךְ לַגְּשָׁמִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Depois de fixar quando se menciona a chuva de passagem, a mishná distingue esse ato de pedi-la ativamente na nona bênção da Amidá — o pedido só começa mais tarde, perto da estação chuvosa —, detalha uma regra de transição para o oficiante que reza nos dias de fronteira do calendário, e registra a disputa sobre até quando esse pedido se estende.

Não se pede a chuva senão perto da chuva.Diferentemente da mera menção, que já começa no oitavo dia, o pedido explícito por chuva — a fórmula "e dá orvalho e chuva" inserida na bênção dos anos — só é dito quando a estação chuvosa está de fato próxima, pois pedir chuva fora de tempo seria pedir algo indesejado naquele momento.

Rabi Yehuda diz: aquele que passa diante da arca no último dia festivo da Festa, o último menciona, o primeiro não menciona.Quando dois oficiantes se revezam nas orações do oitavo dia — um na Shacharit da manhã, outro no Musaf —, Rabi Yehuda ensina que apenas o oficiante posterior, o de Musaf, já insere a menção da chuva; o oficiante anterior, de Shacharit, ainda não a menciona, pois a mudança de fórmula, de orvalho para chuva, é feita apenas a partir do momento em que a estação chuvosa formalmente começa, no Musaf daquele dia.

No primeiro dia festivo de Pessach, o primeiro menciona, o último não menciona.Simetricamente, na transição inversa, quando a menção de chuva deixa de ser dita e a estação chuvosa termina, é o primeiro oficiante — o de Shacharit — que ainda menciona a chuva, enquanto o último — o de Musaf — já não a menciona mais, pois a partir daquele Musaf a estação seca formalmente começa.

Até quando se pede a chuva? Rabi Yehuda diz: até que passe Pessach.Quanto ao pedido ativo por chuva, e não apenas sua menção, Rabi Yehuda opina que ele continua sendo dito até o fim da festa de Pessach, pois a chuva ainda é bem-vinda para as plantações até esse momento.

Rabi Meir diz: até que saia Nissan, pois está dito: "e fez descer para vós chuva, o primeiro orvalho e a chuva tardia, no primeiro" mês.Rabi Meir discorda e estende o pedido até o fim de todo o mês de Nissan, apoiando-se no verso de Yoel que fala da chuva tardia caindo ainda "no primeiro" mês — interpretado por ele como referência ao próprio mês de Nissan, o primeiro do calendário bíblico.

אֵין שׁוֹאֲלִין אֶת הַגְּשָׁמִים אֶלָּא סָמוּךְ לַגְּשָׁמִים. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, הָעוֹבֵר לִפְנֵי הַתֵּבָה בְּיוֹם טוֹב הָאַחֲרוֹן שֶׁל חַג, הָאַחֲרוֹן מַזְכִּיר, הָרִאשׁוֹן אֵינוֹ מַזְכִּיר. בְּיוֹם טוֹב הָרִאשׁוֹן שֶׁל פֶּסַח, הָרִאשׁוֹן מַזְכִּיר, הָאַחֲרוֹן אֵינוֹ מַזְכִּיר. עַד אֵימָתַי שׁוֹאֲלִין אֶת הַגְּשָׁמִים, רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, עַד שֶׁיַּעֲבֹר הַפָּסַח. רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר, עַד שֶׁיֵּצֵא נִיסָן, שֶׁנֶּאֱמַר וַיּוֹרֶד לָכֶם גֶּשֶׁם, מוֹרֶה וּמַלְקוֹשׁ בָּרִאשׁוֹן:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Yoel 2:23
וּבְנֵי צִיּוֹן גִּילוּ וְשִׂמְחוּ בַּה' אֱלֹהֵיכֶם, כִּי נָתַן לָכֶם אֶת הַמּוֹרֶה לִצְדָקָה, וַיּוֹרֶד לָכֶם גֶּשֶׁם מוֹרֶה וּמַלְקוֹשׁ בָּרִאשׁוֹן.
E vós, filhos de Sião, exultai e alegrai-vos no Eterno, vosso D'us, pois vos deu o primeiro orvalho com justiça, e fez descer para vós chuva, o primeiro orvalho e a chuva tardia, no primeiro mês.

A mishná cita este verso como fonte de Rabi Meir para estender o pedido de chuva até o fim de Nissan. O verso de Yoel menciona a chuva tardia — o malkosh, que normalmente cai ao final da estação chuvosa, em Adar — caindo ainda "no primeiro" mês, isto é, em Nissan; Rabi Meir lê essa referência como prova de que a chuva tardia podia legitimamente estender-se até o final do próprio Nissan, justificando manter o pedido por chuva na Amidá durante todo esse mês. Rabi Yehuda, por sua vez, entende que o pedido deve cessar já ao término de Pessach, no meio de Nissan, pois a partir daí a chuva deixa de ser necessária para a colheita que já se aproxima.

Halachot · הֲלָכוֹת

Bartenura distingue precisamente a menção do pedido e explica a regra dos dois oficiantes; Rambam nota que dois tanaim diferentes transmitiram o nome de Rabi Yehuda de formas distintas.

Bartenura · Taanit 1:2
אֵין שׁוֹאֲלִין אֶת הַגְּשָׁמִים. הַיְנוּ אֵין מַזְכִּירִין אֶת הַגְּשָׁמִים. אֶלָּא סָמוּךְ לַגְּשָׁמִים. דְּהַיְנוּ יוֹם שְׁמִינִי שֶׁל חָג, דְּמִן הֶחָג וְאֵילָךְ זְמַן גְּשָׁמִים הוּא. הָאַחֲרוֹן. הַמִּתְפַּלֵּל תְּפִלַּת מוּסָף מַזְכִּיר מוֹרִיד הַגֶּשֶׁם. וְהָרִאשׁוֹן. הַמִּתְפַּלֵּל תְּפִלַּת שַׁחֲרִית אֵינוֹ מַזְכִּיר גֶּשֶׁם אֶלָּא טַל. וַהֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה.

"Não se pede a chuva" — aqui, "pedir" tem o mesmo sentido de "mencionar a chuva" — Bartenura esclarece que, apesar da diferença de verbo entre esta mishná e a anterior, ambas tratam essencialmente do mesmo ato. "Senão perto da chuva" — isto é, o oitavo dia da Festa, pois a partir de Sucot em diante é a estação da chuva. "O último" — aquele que reza a Amidá de Musaf já menciona "que faz descer a chuva". "E o primeiro" — aquele que reza a Amidá de Shacharit ainda não menciona a chuva, mas sim o orvalho. E a halachá segue Rabi Yehuda.

Rambam · Perush HaMishná, Taanit 1:2
אין שואלין את הגשמים אלא סמוך לגשמים כו': סמוך לגשמים היא תפלת מוסף של יום טוב האחרון של חג כמו שביאר רבי יהודה. וביום טוב הראשון של פסח הראשון והוא המתפלל שחרית אומר מוריד הגשם, והאחרון והוא המתפלל תפלת מוסף אינו זוכר גשם אבל אומר מוריד הטל. ובזמן הזה שאנו עושים שני ימים טובים מפני המנהג אומר מוריד הגשם במוסף יום טוב הראשון מן הימים האחרונים של חג, ויתמיד זה ביום השני ומה שאחריו. והלכה כרבי יהודה.

"Não se pede a chuva senão perto da chuva" etc. — "perto da chuva" é a Amidá de Musaf do último dia festivo da Festa, conforme explicou Rabi Yehuda. E no primeiro dia festivo de Pessach, o primeiro — aquele que reza Shacharit — diz "que faz descer a chuva", enquanto o último — aquele que reza Musaf — já não menciona chuva, mas diz "que faz descer o orvalho". E em nosso tempo, quando fazemos dois dias festivos por costume, diz-se "que faz descer a chuva" no Musaf do primeiro dos últimos dias da Festa, mantendo-se essa fórmula no segundo dia e depois dele. E a halachá segue Rabi Yehuda.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi harmoniza a aparente contradição entre esta mishná e a baraita citada na Guemará sobre até quando se pede chuva, e explica o verso de Yoel citado por Rabi Meir.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Taanit 4b — a regra de Rabi Yehuda sobre os dois oficiantes
רבא אמר כיון שהתחיל – בשמיני ספק שביעי שוב אינו פוסק. מונה כ"א יום – מראש השנה עד שמיני ספק שביעי של חג, כדרך שמונה מראש השנה עד יום הכפורים עשרה ימים.

Sobre a disputa acerca de quando exatamente começar a menção: uma vez que se começou a mencionar a chuva no oitavo dia — mesmo com a dúvida, própria da diáspora, de qual dia é realmente o sétimo ou o oitavo —, não se interrompe mais. Conta-se assim vinte e um dias a partir de Rosh Hashaná até esse oitavo dia, do mesmo modo que se contam dez dias entre Rosh Hashaná e Yom Kipur — mostrando que a prática de contar dias entre marcos do calendário já era familiar aos Sábios de outras áreas da halachá.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Taanit 5a — o verso de Yoel citado por Rabi Meir
א"ל רב נחמן לרב יצחק יורה בניסן הוא, דכתיב ויורד לכם גשם מורה ומלקוש בראשון, בתמיה. והא במרחשון הוא, כדתניא לקמן ובספרי הוא. יורה ומלקוש – מפרש לקמן.

Disse Rav Nachman a Rav Yitzchak, em tom de espanto: "acaso a primeira chuva, o yoreh, cai em Nissan?" — pois está escrito "e fez descer para vós chuva, o primeiro orvalho e a chuva tardia, no primeiro" mês, o que pareceria colocar o yoreh, a primeira chuva da estação, já em Nissan. Mas a primeira chuva cai de fato em Marcheshvan, como se ensina adiante e como está no Sifrei — de modo que o verso de Yoel, segundo essa objeção, não pode ser lido tão literalmente quanto Rabi Meir o lê, e a Guemará prossegue explicando de que modo, excepcionalmente, o verso se cumpriu daquela forma num ano específico de fome.