Seder Moed · Massechet Taanit · Perek Dalet · Mishná 7 de 8

A semana de Tisha BeAv e a véspera do jejum

שַׁבָּת שֶׁחָל תִּשְׁעָה בְאָב לִהְיוֹת בְּתוֹכָהּ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná detalha as restrições práticas ao redor de Tisha BeAv: a proibição de cortar cabelo e lavar roupa na semana em que o jejum cai, com exceção pela honra do Shabat seguinte, e as limitações alimentares da própria véspera do jejum, com três posições diferentes sobre seu rigor exato.

Shabat em que Tisha BeAv cai dentro dela, é proibido cortar cabelo e lavar roupa; e na quinta-feira são permitidos, por respeito ao Shabat.Na semana em que o jejum de Tisha BeAv ocorre, estende-se a essa semana inteira a proibição de cortar cabelo e lavar roupas, sinais de luto antecipado; mas se o Shabat seguinte se aproxima, a quinta-feira anterior a Tisha BeAv torna-se uma exceção liberada, permitindo-se essas atividades naquele dia especificamente, para que ninguém entre no Shabat em condição desleixada — a honra do dia sagrado prevalece mesmo sobre o luto pela destruição.

Na véspera de Tisha BeAv, não coma o homem dois pratos cozidos, não coma carne nem beba vinho. Rabán Shimon ben Gamliel diz: deve modificar. Rabi Yehuda obriga virar a cama, mas os sábios não concordaram com ele.A refeição que precede imediatamente o início do jejum — a última antes de vinte e cinco horas de abstinência — já carrega restrições próprias de luto: apenas um prato cozido, sem carne nem vinho, símbolos de festa e celebração. Rabán Shimon ben Gamliel suaviza um pouco a regra, exigindo apenas alguma modificação perceptível na refeição habitual, sem exigir privação total. Rabi Yehuda vai além, obrigando a prática de virar a cama de cabeça para baixo — um gesto físico de luto profundo, semelhante ao de um enlutado —, mas a maioria dos sábios rejeitou essa exigência como excessiva.

שַׁבָּת שֶׁחָל תִּשְׁעָה בְאָב לִהְיוֹת בְּתוֹכָהּ, אָסוּר מִלְּסַפֵּר וּמִלְּכַבֵּס, וּבַחֲמִישִׁי מֻתָּרִין מִפְּנֵי כְבוֹד הַשַּׁבָּת. עֶרֶב תִּשְׁעָה בְאָב לֹא יֹאכַל אָדָם שְׁנֵי תַבְשִׁילִין, לֹא יֹאכַל בָּשָׂר וְלֹא יִשְׁתֶּה יָיִן. רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר, יְשַׁנֶּה. רַבִּי יְהוּדָה מְחַיֵּב בִּכְפִיַּת הַמִּטָּה, וְלֹא הוֹדוּ לוֹ חֲכָמִים:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Eichá 1:1-2
אֵיכָה יָשְׁבָה בָדָד הָעִיר רַבָּתִי עָם, הָיְתָה כְּאַלְמָנָה... בָּכוֹ תִבְכֶּה בַּלַּיְלָה וְדִמְעָתָהּ עַל לֶחֱיָהּ, אֵין לָהּ מְנַחֵם מִכָּל אֹהֲבֶיהָ.
Como está assentada solitária a cidade que era populosa! Tornou-se como viúva... Chorando chora ela de noite, e suas lágrimas estão sobre sua face; não há para ela consoladora entre todos os que a amavam.

Eichá — a Megilá recitada precisamente na noite de Tisha BeAv — é o texto bíblico que dá forma emocional a todas as restrições práticas desta mishná: a proibição de cortar cabelo e lavar roupa, a refeição simplificada da véspera, o gesto extremo de virar a cama. Cada uma dessas leis é uma tentativa de traduzir em comportamento cotidiano o luto que o próprio verso descreve — a cidade "sentada solitária", "como viúva", chorando de noite sem consolo. A gradação de rigor entre os sábios — desde a simples restrição de dois pratos até a exigência extrema de Rabi Yehuda de dormir no chão como um enlutado — reflete diferentes leituras de quão literalmente o luto de Eichá deve ser encarnado na experiência física de quem se aproxima do jejum, e a rejeição final da posição mais extrema pelos sábios sugere um equilíbrio deliberado entre honrar a memória da destruição e não transformar cada véspera de Tisha BeAv num luto indistinguível da morte de um parente próximo.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam precisa as duas condições técnicas da refeição restrita e explica o sentido exato de "modificar" na posição de Rabán Shimon ben Gamliel.

Rambam · Perush HaMishná, Taanit 4:7
זה הדין הוא בשני תנאים האחד שתהיה סעודה המפסיק בה והשני שתהיה אותה האכילה אחר חצי היום אבל אם אכל קודם חצות סעודה המפסקת או אחר חצות ודעתו לאכול פעם אחרת מותר לו לאכול בשר ולשתות יין ומאמר רבן שמעון בן גמליאל שאמר ישנה רוצה לומר שישנה מנהגו לגרוע כלומר שיגרע מרבוי המאכל והמשקין ואין הלכה כר' יהודה.

Esta halachá aplica-se sob duas condições: primeira, que se trate da refeição que efetivamente encerra a possibilidade de comer antes do jejum; segunda, que essa refeição ocorra depois do meio-dia. Mas se comeu antes do meio-dia a refeição que encerra, ou depois do meio-dia mas com a intenção de comer novamente depois, é permitido a ele comer carne e beber vinho. E a afirmação de Rabán Shimon ben Gamliel de que "deve modificar" significa que deve alterar seu costume para reduzir, ou seja, diminuir a abundância de comida e bebida em relação ao habitual. E a halachá não segue Rabi Yehuda.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi explica o motivo exato da exceção de quinta-feira, o conteúdo prático de "dois pratos cozidos" e o gesto físico exigido por Rabi Yehuda.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Taanit 26b — a exceção da quinta-feira, o significado de dois pratos e a virada da cama
שבת שחל תשעה באב כו' – שבוע: בחמישי מותרין – אם חל תשעה באב בערב שבת מותרין לכבס בחמישי וכשחל ט' באב בד' בשבת לא איצטריך למיתני דמותרין כדאמרינן בגמרא לא שנו אלא לפניו כו': שני תבשילין – בשר ודגים או בשר וביצים שעליו או דג וביצה שעליו כדאמר בפרק ערבי פסחים: ישנה – בגמרא מפרש: כפיית המטה – על פניה ולא יישן עליה:

"Shabat em que cai Tisha BeAv, etc." — refere-se à semana inteira. "Na quinta-feira são permitidos" — se Tisha BeAv cai na véspera de Shabat, é permitido lavar roupa na quinta-feira anterior; e quando Tisha BeAv cai numa quarta-feira, não foi necessário ensinar que é permitido, como se explica na Guemará: só ensinaram essa permissão quando o jejum antecede o Shabat, e não em outras configurações do calendário. "Dois pratos cozidos" — carne e peixe, ou carne e ovo que a acompanha, ou peixe e ovo que o acompanha, como se explica no capítulo "Arvei Pessachim" — a mishná não proíbe qualquer combinação de dois alimentos, mas especificamente duas preparações cozidas substanciais na mesma refeição, sinal de fartura incompatível com a proximidade do jejum. "Deve modificar" — a Guemará explica os detalhes práticos dessa modificação. "Virar a cama" — de cabeça para baixo, e não dormir sobre ela — um gesto que fisicamente incomoda o próprio sono, tornando o luto tangível até no repouso noturno.