De Jericó ouviam-se o som do portão grande sendo aberto. De Jericó ouviam-se o som da pá. De Jericó ouviam-se o som da madeira que Ben Katin fez, um mecanismo para a bacia. De Jericó ouviam-se a voz de Guevini, o pregoeiro. De Jericó ouviam-se o som da flauta. De Jericó ouviam-se o som do címbalo. De Jericó ouviam-se o som do canto. De Jericó ouviam-se o som do shofar. E há quem diga: também a voz do sumo sacerdote, no momento em que pronunciava o Nome, no Dia da Expiação. De Jericó sentia-se o aroma da composição do incenso. Disse Rabi Eliezer ben Diglai: Havia cabras da casa de meu pai no monte Michvar, e espirravam por causa do aroma da composição do incenso.
Interrompendo a sequência de instruções e preparativos, a mishná insere uma lista de tradições sobre o alcance extraordinário dos sons e aromas do Templo, que chegavam, segundo se dizia, até a cidade de Jericó — a cerca de dez parasangas, algo como vinte e cinco quilômetros, de Jerusalém. Ouvia-se dali a abertura do portão grande; o som da “pá” (magrefá), instrumento musical de dez furos usado no Templo; o girar da roda que Ben Katin construíra para submergir a bacia de lavagem das mãos no poço durante a noite, evitando que suas águas se invalidassem; o pregão do sacerdote Guevini, que todas as manhãs convocava os sacerdotes ao serviço; a flauta, tocada em certos dias festivos; o címbalo; o canto dos levitas; e o toque do shofar. Alguns acrescentavam que também se ouvia, no Dia da Expiação, a voz do sumo sacerdote ao pronunciar o Nome divino explícito. Por fim, a mishná registra que se sentia em Jericó o próprio aroma da composição do incenso, e conclui com o testemunho pessoal de Rabi Eliezer ben Diglai, segundo o qual as cabras do rebanho de seu pai, pastando no distante monte Michvar, espirravam ao sentir esse mesmo aroma — ilustração vívida da fama que envolvia a intensidade sensorial do serviço do Templo.
Rambam explica que já se explicou na Guemará de Arachin que essa “magrefá” mencionada era um instrumento musical: disseram que havia uma magrefá no Templo, com dez furos, e cada um deles produzia tipos de melodia; é possível que se chamasse magrefá porque sua forma era assim, semelhante a uma pá. E Guevini, o pregoeiro, apregoava antes do amanhecer, dizendo: “Levantai-vos, sacerdotes, para vosso serviço; e levitas, para vossa plataforma” — e a isto já se aludiu no primeiro capítulo, quando se disse “o canto do galo”, como se explica na Guemará de Ioma; e ali se explica que o mecanismo (mochni) que Ben Katin fez era uma tampa alta que descia por meio de uma roda, e ouviam o girar dessa roda. É sabido que o shofar era tocado todos os dias, como se explica no fim de Sucá.
Bartenura explica que de Jerusalém até Jericó há dez parasangas. Sobre a “magrefá”: espécie de instrumento musical que havia no Templo, com dez furos, e cada um deles produzia cem tipos de melodia, e seu som se ouvia de longe. Sobre “Ben Katin”: nome de homem, e era sumo sacerdote; fez uma roda para a bacia, para submergi-la no poço, para que suas águas não se tornassem inválidas por permanecerem ali durante a noite; e quando a erguiam do poço para com ela santificar as mãos e os pés, o som da roda se ouvia até Jericó. Sobre “Guevini, o pregoeiro”: sacerdote de nome Guevini, que apregoava toda manhã no Templo: “Levantai-vos, sacerdotes, para vosso serviço.” Sobre a “flauta”: instrumento cujo som se ouve de longe. Sobre o “címbalo”: espécie de instrumento musical de percussão. Sobre “Michvar”: nome de um lugar.