Seder Kodashim · Massechet Tamid · Perek Dalet · Mishná 1 de 3

A akedá do cordeiro e a aspersão do sangue

לֹא הָיוּ כוֹפְתִין אֶת הַטָּלֶה, אֶלָּא מְעַקְּדִין אוֹתוֹ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abrindo o Perek Dalet, a mishná descreve como o cordeiro do tamid era atado para a degolação, a posição do animal e do degolador, o local e o horário de cada degolação, e a aplicação do sangue nos cantos do altar

Não amarravam o cordeiro, mas o atavam em akedá. Os que venceram no sorteio dos membros o seguravam. E assim era sua akedá: sua cabeça para o sul e seu rosto para o oeste. O degolador ficava de pé no leste, e seu rosto para o oeste. O tamid da manhã era degolado no canto noroeste, na segunda argola. O da tarde era degolado no canto nordeste, na segunda argola. O degolador degolava, e o recebedor recebia o sangue. Ia ao canto nordeste e aspergia para o leste e para o norte; ao sudoeste, e aspergia para o oeste e para o sul. O restante do sangue derramava sobre a base sul do altar.

Este primeiro segmento do Perek Dalet detalha, com precisão técnica, o momento inicial do serviço do tamid: a imobilização do animal. Ao contrário do costume dos gentios, que amarravam as quatro patas do animal juntas ao sacrificá-lo a seus ídolos, os sacerdotes atavam apenas uma pata dianteira à correspondente pata traseira — procedimento chamado de akedá, em alusão direta à ligação de Isaque por Abraão no Monte Moriá. Os sacerdotes que haviam vencido, no sorteio anterior, o direito de carregar os membros do animal até a rampa seguravam o cordeiro nessa posição, com a cabeça voltada para o sul e o rosto para o oeste, de modo que, se o animal expelisse excremento, isso não ocorresse junto ao altar. O degolador posicionava-se a leste do animal, voltado para o oeste. O local exato da degolação variava conforme o horário: pela manhã, no canto noroeste do altar, porque o sol nascente no leste iluminava esse lado; à tarde, no canto nordeste, porque o sol poente no oeste iluminava o lado oposto — em ambos os casos, sobre a segunda das argolas fixadas ao piso, distante o suficiente do altar para não ficar na sombra de sua estrutura elevada. Após a degolação, o sacerdote recebedor recolhia o sangue e o aspergia em dois pontos do altar — o canto nordeste e o canto sudoeste — de modo que cada aspersão atingisse as duas faces adjacentes ao respectivo canto, totalizando as quatro aplicações exigidas para um sacrifício de holocausto. O sangue restante era despejado junto à base sul do altar.

לֹא הָיוּ כוֹפְתִין אֶת הַטָּלֶה, אֶלָּא מְעַקְּדִין אוֹתוֹ. מִי שֶׁזָּכוּ בָאֵבָרִים, אוֹחֲזִים בּוֹ. וְכָךְ הָיְתָה עֲקֵדָתוֹ, רֹאשׁוֹ לַדָּרוֹם וּפָנָיו לַמַּעֲרָב. הַשּׁוֹחֵט, עוֹמֵד בַּמִּזְרָח וּפָנָיו לַמַּעֲרָב. שֶׁל שַׁחַר הָיָה נִשְׁחָט עַל קֶרֶן צְפוֹנִית מַעֲרָבִית, עַל טַבַּעַת שְׁנִיָּה. שֶׁל בֵּין הָעַרְבַּיִם הָיָה נִשְׁחָט עַל קֶרֶן מִזְרָחִית צְפוֹנִית, עַל טַבַּעַת שְׁנִיָּה. שָׁחַט הַשּׁוֹחֵט, וְקִבֵּל הַמְקַבֵּל. בָּא לוֹ לְקֶרֶן מִזְרָחִית צְפוֹנִית, וְנוֹתֵן מִזְרָחָה צָפוֹנָה. מַעֲרָבִית דְּרוֹמִית, וְנוֹתֵן מַעֲרָבָה דָרוֹמָה. שְׁיָרֵי הַדָּם הָיָה שׁוֹפֵךְ עַל יְסוֹד דְּרוֹמִית:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Tamid 4:1
לֹא הָיוּ כוֹפְתִים אֶת הַטָּלֶה אֶלָּא מְעַקְּדִין כוּ’: אָמַר שֶׁלֹּא הָיוּ כוֹפְתִין אוֹתוֹ כְּדֵי שֶׁלֹּא יְחַקּוּ לָאֻמּוֹת שֶׁמְּכַפְּתִין זִבְחֵיהֶם, אֲבָל הָיוּ אוֹחֲזִין יָדוֹ וְרַגְלוֹ בִּלְבַד, וְהוּא מַה שֶּׁאָמְרוּ עֲקֵדַת יָד וָרֶגֶל כְּיִצְחָק בֶּן אַבְרָהָם. וְהָיוּ שׁוֹחֲטִים תָּמִיד שֶׁל שַׁחַר לְצַד מַעֲרָבִי מִמְּקוֹם הַשְּׁחִיטָה כְּדֵי שֶׁיְּהֵא לְנֹכַח הַשֶּׁמֶשׁ, וְתָמִיד שֶׁל בֵּין הָעַרְבַּיִם שׁוֹחֲטִין אוֹתוֹ לְצַד מִזְרָח, לְפִי שֶׁהַשֶּׁמֶשׁ אָז בַּמַּעֲרָב, כְּדֵי שֶׁיְּהֵא נֹכַח הַשֶּׁמֶשׁ גַּם כֵּן, שֶׁנֶּאֱמַר “שְׁנַיִם לַיּוֹם”, וְאָמְרוּ זַ”ל כְּנֶגֶד יוֹם וָיוֹם שָׂם הַשֶּׁמֶשׁ. וּכְבָר נִתְבָּאֵר בַּחֲמִישִׁי מִזְּבָחִים שֶׁהָעוֹלָה דָּמָהּ טָעוּן שְׁתֵּי מַתָּנוֹת שֶׁהֵן אַרְבַּע, וּבֵאַרְנוּ שָׁם שֶׁעִנְיָנוֹ שֶׁיִּזְרֹק דָּמוֹ עַל שְׁתֵּי הַקְּרָנוֹת בַּאֲלַכְסוֹן, וּבֵאֵר כָּאן שֶׁאוֹתָן שְׁתֵּי קְרָנוֹת הֵן מִזְרָחִית צְפוֹנִית וּמַעֲרָבִית דְּרוֹמִית. וּכְבָר זָכַרְנוּ בְּסוֹף מַסֶּכֶת מַעֲשֵׂר שֵׁנִי שֶׁיּוֹחָנָן כֹּהֵן גָּדוֹל הִתְקִין טַבָּעוֹת בִּמְקוֹם הַשְּׁחִיטָה מִן הָעֲזָרָה, וְהָיוּ קְבוּעִים בַּקַּרְקַע שֶׁאוֹסְרִין בָּהֶם רַגְלֵי הַבְּהֵמָה וְיָדֶיהָ בִּשְׁעַת שְׁחִיטָה, לְפִי שֶׁאִי אֶפְשָׁר לְכָפְתוֹ כְּמוֹ שֶׁאָמַרְנוּ.

Rambam explica que o cordeiro não era amarrado para que os sacerdotes não imitassem as nações, que amarravam seus sacrifícios; mas apenas seguravam sua mão e sua perna, e é a isso que se referem ao dizer “akedá de mão e pé, como Isaque filho de Abraão”. O tamid da manhã era degolado no lado oeste do local de degolação, para ficar voltado para o sol; e o tamid da tarde era degolado no lado leste, pois o sol então estava no oeste, para que também ficasse voltado para o sol — conforme o versículo “dois para o dia”, que os sábios entenderam como correspondendo, dia após dia, à posição do sol. Rambam remete ao quinto capítulo de Zevachim, onde já se explicou que o sangue do holocausto requer duas aplicações que equivalem a quatro, feitas em diagonal sobre dois cantos do altar; e aqui se esclarece que esses dois cantos são o nordeste e o sudoeste. Rambam lembra ainda, do fim de Massechet Maasser Sheni, que Yochanan, o Kohen Gadol, instituiu argolas fixadas no chão do local de degolação, no pátio, presas ao solo, para nelas prender as patas e a cabeça do animal no momento da degolação — já que, como explicado, não era permitido amarrá-lo pelas quatro patas.

Bartenura · Tamid 4:1
לֹא הָיוּ כוֹפְתִין אוֹתוֹ. אֶת הַתָּמִיד בִּשְׁתֵּי יָדָיו לְעַצְמָן אוֹ בִשְׁתֵּי רַגְלָיו לְעַצְמָן, כְּדֵי שֶׁלֹּא לַעֲשׂוֹת כְּחֻקּוֹת הַגּוֹיִים, שֶׁכָּךְ הָיוּ עוֹשִׂים כְּשֶׁשּׁוֹחֲטִין לַעֲבוֹדָה זָרָה: אֶלָּא מַעֲקִידִין אוֹתוֹ. הַיָּד עִם הָרֶגֶל, כַּעֲקֵדַת יִצְחָק: רֹאשׁוֹ לַדָּרוֹם. הָיָה נִשְׁחָט עַל יֶרֶךְ הַמִּזְבֵּחַ צָפוֹנָה כְדִין עוֹלָה, וְהָיָה נוֹטֶה רֹאשׁוֹ לַדָּרוֹם וּפָנָיו לַמַּעֲרָב, שֶׁאִם יַרְבִּיץ גְּלָלִים לֹא יִהְיֶה סָמוּךְ לַמִּזְבֵּחַ: שֶׁל שַׁחַר. קָרְבַּן תָּמִיד שֶׁל שַׁחַר הָיָה נִשְׁחָט עַל קֶרֶן צְפוֹנִית מַעֲרָבִית, לְפִי שֶׁבַּבֹּקֶר שֶׁמֶשׁ בַּמִּזְרָח וְזוֹרַחַת כְּנֶגְדָּהּ לַמַּעֲרָב, וְהַכָּתוּב אוֹמֵר שְׁנַיִם לַיּוֹם, כְּנֶגֶד הַיּוֹם, כְּלוֹמַר נֶגֶד הַשֶּׁמֶשׁ, שֶׁהַשֶּׁמֶשׁ קָרוּי יוֹם: וְשֶׁל בֵּין הָעַרְבַּיִם. שֶׁחַמָּה בַמַּעֲרָב וּמְאִירָה כְנֶגֶד הַמִּזְרָח, הָיָה נִשְׁחָט עַל קֶרֶן צְפוֹנִית מִזְרָחִית: בְּטַבַּעַת שְׁנִיָּה. רָחוֹק מִן הַמִּזְבֵּחַ, לְפִי שֶׁהַמִּזְבֵּחַ גָּבוֹהַּ וּמַאֲפִיל כֻּלּוֹ. וְיוֹחָנָן כֹּהֵן גָּדוֹל הִתְקִין שִׁשָּׁה סְדָרִים שֶׁל טַבָּעוֹת, בְּכָל סֵדֶר אַרְבַּע טַבָּעוֹת לְאַרְבָּעָה וְעֶשְׂרִים מִשְׁמְרוֹת כְּהֻנָּה, וְהָיוּ קְבוּעוֹת בָּרִצְפָּה עֲשׂוּיוֹת כְּמִין קֶשֶׁת, וּלְפִי שֶׁלֹּא הָיוּ כוֹפְתִים אֶת הַתָּמִיד כְּדִתְנַן בְּרֵישׁ פִּרְקִין, הָיוּ מַכְנִיסִין צַוַּאר הַבְּהֵמָה בְאוֹתָן הַטַּבָּעוֹת בִּשְׁעַת שְׁחִיטָה וְנוֹעֲצִים רֹאשׁ הַטַּבַּעַת בָּאָרֶץ: וְנוֹתֵן מִזְרָחִית צְפוֹנִית. תְּחִלָּה. לְאַחַר שֶׁשָּׁחַט תָּמִיד שֶׁל שַׁחַר בְּקֶרֶן מַעֲרָבִית צְפוֹנִית הוֹלֵךְ לְצַד מִזְרָח וְעוֹמֵד בָּאָרֶץ וְזוֹרֵק הַדָּם בִּכְלִי לְמַטָּה מִן הַסִּקְרָא, וְנוֹתֵן שְׁתֵּי מַתָּנוֹת שֶׁהֵן אַרְבַּע, אַחַת שֶׁהִיא כִשְׁתַּיִם בְּקֶרֶן מִזְרָחִית צְפוֹנִית, וְהוֹלֵךְ לְמַעֲרָבִית דְּרוֹמִית וְנוֹתֵן אַחַת שֶׁהִיא כִשְׁתַּיִם בְּקֶרֶן מַעֲרָבִית דְּרוֹמִית:

Bartenura explica que “não o amarravam” significa que não atavam o tamid pelas duas patas dianteiras juntas nem pelas duas traseiras juntas, para não agir segundo os costumes dos gentios, que assim faziam ao degolar para a idolatria. Sobre “mas o atavam em akedá”: a mão com a perna, como na Akedá de Isaque. Sobre “sua cabeça para o sul”: era degolado no lado norte do altar, conforme a lei do holocausto, e sua cabeça se inclinava para o sul e seu rosto para o oeste, para que, se expelisse excremento, isso não ficasse junto ao altar. Sobre “o da manhã”: o sacrifício do tamid da manhã era degolado no canto noroeste, porque pela manhã o sol está no leste e brilha em direção oposta, para o oeste, e o versículo diz “dois para o dia”, correspondendo ao dia, isto é, correspondendo ao sol, pois o sol é chamado de “dia”. Sobre “e o da tarde”: como o sol está no oeste e ilumina em direção ao leste, era degolado no canto nordeste. Sobre “na segunda argola”: distante do altar, porque o altar era alto e projetava sombra sobre tudo. E Yochanan, o Kohen Gadol, instituiu seis fileiras de argolas, cada fileira com quatro argolas, para as vinte e quatro turmas sacerdotais, fixadas no piso em forma de arco; e, como não amarravam o tamid, conforme ensinado no início deste capítulo, faziam passar o pescoço do animal por essas argolas no momento da degolação, cravando a extremidade da argola no chão. Sobre “e aspergia para o nordeste”: em primeiro lugar. Depois de degolar o tamid da manhã no canto noroeste, o sacerdote ia para o lado leste, ficava de pé no chão e aspergia o sangue do vaso abaixo do fio de tinta vermelha, aplicando duas aplicações que equivalem a quatro — uma que vale por duas no canto nordeste, e então ia ao canto sudoeste e aplicava outra que vale por duas no canto sudoeste.