Tomava a faca e separava o pulmão do fígado, e o apêndice do fígado do fígado, e não o movia de seu lugar. Perfurava o peito e o dava a quem venceu nele. Subia ao flanco direito; cortava e descia até a espinha, e não tocava na espinha, até chegar a duas costelas moles. Cortava-o e o dava a quem venceu nele, com o fígado pendurado nele. Ia à garganta, e deixava nela duas costelas daqui e duas costelas dali. Cortava-a e a dava a quem venceu nela, com a traqueia, o coração e o pulmão pendurados nela. Ia ao flanco esquerdo, e deixava nele duas costelas moles em cima e duas costelas moles embaixo. E assim fazia também com sua parceira; resultava que deixava, em ambos, duas e duas em cima e duas e duas embaixo. Cortava-o e o dava a quem venceu nele, com a espinha junto e o baço pendurado nele. E este era o maior; mas ao direito chamavam de “maior”, pois o fígado estava pendurado nele. Ia à garupa, cortava-a e a dava a quem venceu nela, com a cauda gorda, o apêndice do fígado e os dois rins junto. Tomava a perna esquerda e a dava a quem venceu nela.
Assim, todos ficavam de pé em fileira, com os membros em suas mãos. O primeiro, com a cabeça e a perna: a cabeça em sua direita, com o focinho voltado para o braço, os chifres entre seus dedos, o local de degolação por cima, e a gordura colocada sobre ele; e a perna direita em sua esquerda, com o lado esfolado voltado para fora. O segundo, com as duas patas dianteiras: a direita em sua direita, a esquerda em sua esquerda, com o lado esfolado voltado para fora. O terceiro, com a garupa e a perna: a garupa em sua direita, com a cauda gorda pendendo entre seus dedos, e o apêndice do fígado e os dois rins junto; a perna esquerda em sua esquerda, com o lado esfolado voltado para fora. O quarto, com o peito e a garganta: o peito em sua direita, a garganta em sua esquerda, com suas costelas entre seus dedos. O quinto, com os dois flancos: o direito em sua direita, o esquerdo em sua esquerda, com o lado esfolado voltado para fora. O sexto, com as vísceras colocadas em uma bacia, com as patas por cima delas. O sétimo, com a farinha fina. O oitavo, com os bolos. O nono, com o vinho. Iam e os colocavam da metade da rampa para baixo, em seu lado oeste, e os salgavam. E desciam e iam à Câmara de Pedras Lavradas, para recitar o Shemá.
Este último segmento do Perek Dalet leva ao fim a descrição minuciosa do desmembramento do cordeiro. Antes de continuar cortando, o sacerdote separava com a faca o pulmão do fígado, e destacava do próprio fígado o lobo em forma de dedo (etzba hakaved) — sem, contudo, mover esse lobo de seu lugar, pois ele seria oferecido ainda preso à garupa do animal, junto com a cauda gorda. Perfurava então o peito, separando-o das costelas laterais, e o entregava ao sacerdote sorteado. Subia ao flanco direito e cortava, descendo até a espinha sem jamais tocá-la, até alcançar duas costelas mais macias próximas ao pescoço; esse flanco, entregue a outro sacerdote, trazia o fígado pendurado nele. Prosseguia até a região da garganta (gerá), deixando ali, de cada lado, duas costelas presas, e a entregava com a traqueia, o coração e o pulmão ainda pendurados. Cortava depois o flanco esquerdo, deixando duas costelas moles acima e duas abaixo — e fazia o mesmo, simetricamente, no flanco direito, de modo que cada um trazia consigo quatro costelas moles, duas de cada lado. O flanco esquerdo, maior por incluir a espinha e o baço, era entregue com esses órgãos; e, embora esse fosse fisicamente o maior, era o direito que recebia o nome de “o grande”, por trazer consigo o fígado, órgão de maior importância simbólica. Por fim, cortava a garupa — com a cauda gorda, o lobo do fígado e os dois rins — e a perna esquerda, completando assim a divisão do animal em onze partes distintas, cada uma confiada a um sacerdote diferente segundo o sorteio realizado anteriormente. Formava-se então a célebre fileira dos nove sacerdotes: cada um segurava, com mãos e dedos dispostos em ordem precisa, a parte que lhe coubera — da cabeça majestosa com seus chifres entrelaçados aos dedos, até o vinho da libação nas mãos do último. Juntos, desciam pela rampa, depositavam tudo na metade inferior de seu lado oeste, salgavam os membros e a farinha, e desciam à Câmara de Pedras Lavradas para recitar o Shemá — ato que abrirá o próximo capítulo do tratado.
Rambam observa que fica claro, deste trecho, que a farinha fina e o vinho são as libações (nesachim) que acompanham o cordeiro do tamid. Sobre “o lado esfolado”: o ponto a partir do qual se removia a pele ficava próximo às pontas dos dedos, como já mencionado no segundo capítulo relativo a Yom Kipur. E quanto à expressão “o tamid era oferecido por nove [sacerdotes]”, Rambam observa que o termo bazach, traduzido do aramaico como “tigela” ou “vaso”, no plural torna-se bazichin, e no singular bazach, do mesmo modo que “suas tigelas” se traduz “bazichohi”.
Bartenura explica que “o apêndice do fígado” era separado do próprio fígado. Sobre “e não o movia de seu lugar”: refere-se ao apêndice do fígado, pois este era oferecido junto com a garupa e a cauda gorda, enquanto o fígado ia com o flanco direito, e o pulmão com a garganta e as duas costelas que a acompanhavam, como se explicará em seguida. Sobre “flanco direito”: cortava-se próximo à espinha, deixando duas costelas acima, junto à espinha, e duas costelas abaixo. Sobre “a perna direita em sua esquerda”: embora o transporte dos membros até a rampa seja considerado serviço sacerdotal, e o serviço realizado com a mão esquerda seja inválido, como esse transporte não é indispensável à expiação, é permitido mesmo com a esquerda, conforme consta em Yoma. Sobre “com o lado esfolado voltado para fora”: o local a partir do qual se removia a pele, próximo às pontas dos dedos. Sobre bazach: tradução aramaica de “uma tigela” (Números 7:14), “bazicha chada”. Sobre “o sétimo, com a farinha fina”: para a oferenda de libações que acompanha o tamid. Sobre “os bolos”: a oferenda de frigideira do Kohen Gadol, metade oferecida pela manhã e metade à tarde, todos os dias. E o motivo de intercalar os bolos entre a farinha e as libações — ambas necessárias ao tamid — é que a farinha fina e os bolos compartilham o nome de “oferenda” (minchá), por isso são explicados juntos. Sobre “da metade da rampa para baixo, em seu lado oeste”: e não da metade superior, para que o trajeto até o altar fosse reconhecível quando retornassem da recitação do Shemá. E especificamente nos dias de semana colocavam os membros do tamid no lado oeste, voltado para a Presença Divina; mas nos Shabatot, quando a oferenda adicional (musaf), obrigação do dia, ocupava o lado oeste, os membros do tamid ficavam no lado leste, como se depreende de Massechet Sucá, no capítulo do Chalil. Sobre “para recitar o Shemá”: e todas as demais bênçãos, como se explicará adiante, no próximo capítulo.
Com esta mishná, encerra-se o Perek Dalet, quarto capítulo de Massechet Tamid, o mais breve do tratado. Suas três mishnayot acompanharam, em sequência ininterrupta, a degolação do cordeiro do tamid até a formação da fileira final de sacerdotes: a akedá do animal — atado, e não amarrado, com a mão junto à perna, à semelhança da Akedá de Isaque — a posição do degolador, o local e o horário de cada degolação segundo a posição do sol, e a aspersão do sangue nos cantos nordeste e sudoeste do altar (4:1); o esfolamento do animal pendurado pelo joelho perfurado, a remoção sequencial de cada membro entregue ao sacerdote que o venceu no sorteio, e a lavagem separada do estômago e das demais vísceras (4:2); e, por fim, a separação técnica do pulmão, do fígado e do apêndice hepático, o corte de cada flanco e da garupa, e a célebre descrição dos nove sacerdotes de pé em fileira, cada um segurando com precisão a parte que lhe coubera — da cabeça com seus chifres entre os dedos até o vinho da libação — antes de descerem juntos à Câmara de Pedras Lavradas para a recitação do Shemá (4:3).
Massechet Tamid prossegue agora com o Perek Hei, que descreve a recitação do Shemá e das bênçãos na Câmara de Pedras Lavradas, e o novo sorteio para a queima do incenso.