Seder Kodashim · Massechet Temurá · Perek Alef · Mishná 6 de 6

Aves, minchot, oferendas comunitárias e de bedek habáit não geram troca

הָעוֹפוֹת וְהַמְּנָחוֹת אֵינָן עוֹשִׂין תְּמוּרָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Fecho do Perek Alef: aves e oferendas vegetais (minchot) não geram temurá, pois a Torá fala apenas em behemá; a comunidade e os sócios não geram temurá; ofertas para a manutenção do Templo (kodshei bedek habáit) não geram temurá; e Rabi Shimon traz prova do dízimo do gado (maasser behemá), korban de indivíduo e do altar

As aves e as minchot não geram troca, pois não foi dito senão “em animal”. A comunidade e os sócios não geram troca, pois foi dito: “não o trocará” — o indivíduo gera troca, não a comunidade nem os sócios geram troca. As ofertas de manutenção do Templo não geram troca. Disse Rabi Shimon: E não é que o dízimo estava incluído na regra geral, e por que saiu? Para comparar com ele: assim como o dízimo é oferenda de indivíduo, excluem-se as oferendas da comunidade; assim como o dízimo é oferenda do altar, excluem-se as oferendas de manutenção do Templo.

— A última mishná do Perek Alef fecha o capítulo listando categorias que, por diferentes razões textuais, ficam fora do mecanismo da temurá. Aves trazidas como oferenda e as minchot (oferendas de farinha) não geram troca porque o versículo que institui a temurá fala explicitamente em “behemá” — um termo que, na linguagem da Torá, exclui aves e produtos vegetais. Oferendas trazidas pela comunidade como um todo, ou por sócios que consagraram juntos um único animal, também não geram troca, pois a proibição está formulada no singular (“não o trocará”, referindo-se a um indivíduo que age por si). E as ofertas destinadas à manutenção física do Templo (bedek habáit) — que não sobem ao altar, mas financiam reparos e construção — também ficam fora, pois a temurá está associada à palavra “korban”, termo que, no entendimento dos Sábios, não se aplica a essas ofertas. Rabi Shimon discorda quanto a esse último ponto e traz uma prova elegante: o dízimo do gado (maasser behemá) já estaria incluído na regra geral de que todo consagrado gera troca; se a Torá voltou a mencioná-lo separadamente, dizendo explicitamente que ele gera troca, é para que sirva de modelo comparativo para todos os demais casos duvidosos — assim como o dízimo é uma oferenda de um indivíduo (não de sócios ou da comunidade) e uma oferenda que sobe ao altar (não de bedek habáit), só geram troca as oferendas que compartilham ambas essas características.

הָעוֹפוֹת וְהַמְּנָחוֹת אֵינָן עוֹשִׂין תְּמוּרָה, שֶׁלֹּא נֶאֱמַר אֶלָּא (ויקרא כז) בִּבְהֵמָה. הַצִּבּוּר וְהַשֻּׁתָּפִים אֵינָן עוֹשִׂים תְּמוּרָה, שֶׁנֶּאֱמַר (שם), לֹא יָמִיר אֹתוֹ, יָחִיד עוֹשֶׂה תְמוּרָה, לֹא הַצִּבּוּר וְלֹא הַשֻּׁתָּפִים עוֹשִׂים תְּמוּרָה. קָרְבְּנוֹת בֶּדֶק הַבַּיִת אֵינָן עוֹשִׂין תְּמוּרָה. אָמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן, וַהֲלֹא הַמַּעֲשֵׂר בַּכְּלָל הָיָה, וְלָמָּה יָצָא, לְהָקִישׁ אֵלָיו, מַה מַּעֲשֵׂר קָרְבַּן יָחִיד, יָצְאוּ קָרְבְּנוֹת צִבּוּר. מַה מַּעֲשֵׂר קָרְבַּן מִזְבֵּחַ, יָצְאוּ קָרְבְּנוֹת בֶּדֶק הַבָּיִת:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Vayikrá 27:9–10
וְאִם־בְּהֵמָה אֲשֶׁר יַקְרִיבוּ מִמֶּנָּה קׇרְבָּן לַיהֹוָה, כֹּל אֲשֶׁר יִתֵּן מִמֶּנּוּ לַיהֹוָה יִהְיֶה־קֹּדֶשׁ. לֹא יַחֲלִיפֶנּוּ וְלֹא־יָמִיר אֹתוֹ טוֹב בְּרָע אוֹ־רַע בְּטוֹב…
“E se for animal (behemá) do qual se oferece oferenda a Deus, tudo o que dele for dado a Deus será consagrado. Não o trocará nem o substituirá, bom por mau ou mau por bom…”
Vayikrá 27:32–33
וְכׇל־מַעְשַׂר בָּקָר וָצֹאן כֹּל אֲשֶׁר־יַעֲבֹר תַּחַת הַשָּׁבֶט, הָעֲשִׂירִי יִהְיֶה־קֹּדֶשׁ לַיהֹוָה. לֹא יְבַקֵּר בֵּין־טוֹב לָרַע וְלֹא יְמִירֶנּוּ, וְאִם־הָמֵר יְמִירֶנּוּ וְהָיָה־הוּא וּתְמוּרָתוֹ יִהְיֶה־קֹּדֶשׁ, לֹא יִגָּאֵל.
“E todo dízimo do gado e do rebanho, tudo o que passar sob o cajado, o décimo será consagrado a Deus. Não examinará entre o bom e o mau, nem o substituirá; e se de fato o substituir, ele e sua substituição serão consagrados: não será resgatado.”
A palavra “behemá” em Vayikrá 27:9 é a base para excluir aves e minchot do mecanismo da temurá, restrito a animais de quatro patas trazidos como oferenda. O verbo no singular — “não o trocará” (27:10) — é a base para excluir a comunidade e os sócios, que agem em conjunto e não como um único indivíduo. E a repetição da lei da troca especificamente a respeito do maasser behemá (27:32–33), depois de já ter sido enunciada de forma geral em 27:10, é a base da leitura comparativa (hekesh) de Rabi Shimon: o dízimo do gado, sendo simultaneamente oferenda de um único dono e oferenda destinada ao altar, define os dois traços que uma oferenda precisa ter para gerar temurá.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Temurá 1:6
העופות והמנחות אינם עושין תמורה כו': אמר רחמנא בתמורה, “ואם בהמה אשר יקריבו ממנה… לא יחליפנו ולא ימיר אותו”, אח"כ חזר וייחד המעשר, שהוא מעשר בהמה, ואמר “לא יבקר בין טוב לרע ולא ימירנו”. וכבר בארנו בסוף בכורות שאין השותפים חייבים במעשר, כמו שבארנו שם:

Rambam apresenta a estrutura textual que sustenta a mishná inteira: a Torá primeiro estabelece a lei geral da temurá especificamente a respeito de “behemá”, e depois volta a repetir a mesma lei, quase nas mesmas palavras, especificamente a respeito do dízimo do gado — essa repetição aparentemente desnecessária é o que Rabi Shimon lê como base para o hekesh (comparação) que restringe a temurá às oferendas de um único dono trazidas ao altar. Rambam também nota, remetendo ao que já explicou ao final do tratado Bechorot, que sócios não são sequer obrigados a separar o dízimo do gado — o que reforça por que o maasser serve de modelo precisamente para excluir oferendas de sociedade.

Bartenura · Temurá 1:6
שֶׁלֹּא נֶאֱמַר אֶלָּא בִּבְהֵמָה. וְאִם הָמֵר יָמִיר בְּהֵמָה בִּבְהֵמָה: קָדְשֵׁי בֶּדֶק הַבַּיִת אֵין עוֹשִׂין תְּמוּרָה. דְּגַבֵּי תְּמוּרָה כְּתִיב קָרְבָּן, וְקָדְשֵׁי בֶּדֶק הַבַּיִת לֹא אִקְּרוּ קָרְבָּן: אָמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן וַהֲלֹא הַמַּעֲשֵׂר בַּכְּלָל הָיָה. רַבִּי שִׁמְעוֹן סְבִירָא לֵיהּ דְּקָדְשֵׁי בֶּדֶק הַבַּיִת אִקְּרוּ קָרְבָּן, הִלְכָּךְ לֹא נַפְקָא לָן דְּלֹא עָבְדֵי תְּמוּרָה אֶלָּא מֵהָכָא… מַה מַּעֲשֵׂר קָרְבַּן יָחִיד. וְעוֹשֶׂה תְּמוּרָה, אַף כָּל קָרְבַּן יָחִיד עוֹשֶׂה תְּמוּרָה: יָצְאוּ קָרְבְּנוֹת צִבּוּר. וְהַשֻּׁתָּפִין. דְּמַעֲשֵׂר לֵיתֵיהּ בְּשֻׁתָּפוּת… יָצְאוּ קָרְבְּנוֹת בֶּדֶק הַבָּיִת. דְּאַף עַל גַּב דְּאִקְּרוּ קָרְבָּן… אֵינוֹ קָרְבַּן מִזְבֵּחַ כְּמַעֲשֵׂר:

Bartenura precisa a base literal de cada exclusão: o versículo da temurá fala em “behemá”, excluindo aves e minchot; e fala em “korban”, termo que, para os Sábios, não se aplica às ofertas de bedek habáit. Explica a posição de Rabi Shimon: para ele, kodshei bedek habáit são sim chamadas “korban” em outro contexto bíblico, de modo que sua exclusão da temurá só pode vir do hekesh com o maasser, e não diretamente da palavra “korban”. E detalha os dois braços da comparação: assim como o dízimo é uma oferenda de indivíduo (pois sócios não estão sujeitos ao dízimo do gado), excluem-se as oferendas comunitárias e de sócios; assim como o dízimo é uma oferenda que sobe ao altar, excluem-se as oferendas de manutenção do Templo, ainda que estas sejam chamadas “korban” em sentido amplo.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Temurá 13a, sobre a Guemará desta mishná
מתני' אלא בהמה — ימיר בהמה בבהמה: קדשי בד"ה אינן עושין תמורה — דגבי תמורה כתיב קרבן, וקדשי בדק הבית לא איקרו קרבן, כדמפרש בגמרא: אמר רבי שמעון כו' — דסבירא ליה דקדשי בד"ה איקרי קרבן, הלכך לא נפקא לן דלא עבדי תמורה אלא מהכא, והלא מעשר בהמה בכלל כל הקדשים היה דעבדי תמורה, כדכתיב “ואם המר ימיר וגו'”, למה יצא, דכתיב בדידיה דעביד תמורה “אם המר ימיר וגו'”, מה מעשר קרבן יחיד הוא דעושה תמורה, אף כל קרבן יחיד עושה תמורה, יצאו קרבנות צבור, דמעשר ליתא בשותפות…

Rashi confirma que a exclusão das aves e minchot decorre diretamente da palavra “behemá” do versículo da temurá, e que a exclusão das ofertas de bedek habáit, na opinião dos Sábios, decorre da palavra “korban”, que a Guemará explica não se aplicar a elas. Sobre Rabi Shimon, explica com clareza sua lógica: como ele entende que as ofertas de bedek habáit são sim chamadas “korban” em outro versículo, ele precisa de uma fonte diferente para excluí-las — e a encontra no fato de que a lei da temurá é repetida, quase textualmente, a respeito do maasser behemá, algo que seria redundante se não fosse para servir de modelo comparativo: assim como o dízimo é oferenda de um único dono, e não de sócios, e sobe ao altar, e não financia reparos do Templo, apenas oferendas que compartilham ambos os traços geram temurá. Com este debate encerra-se o Perek Alef de Massechet Temurá.

סוֹף פֶּרֶק רִאשׁוֹן דְּמַסֶּכֶת תְּמוּרָה

Com esta mishná, encerra-se o Perek Alef de Massechet Temurá — seis mishnayot dedicadas aos fundamentos da lei da troca (temurá): quem pode efetuá-la (mishná 1), entre quais categorias de animais ela vale (mishná 2), a impossibilidade de trocar por partes — membros e fetos (mishná 3), o princípio de proporcionalidade compartilhado com outras leis de mistura (mishná 4), as categorias que não se propagam de si mesmas, incluindo a própria troca e sua cria (mishná 5), e as categorias de oferenda que ficam inteiramente fora do mecanismo da temurá (mishná 6). Por possuir Guemará no Talmud Bavli, as seis mishnayot deste perek se distribuem por Temurá 2a–13b, e cada uma reuniu, além do Rambam (Perush HaMishná) e do Bartenura, o comentário de Rashi sobre a respectiva sugya.

Massechet Temurá é o sexto tratado de Seder Kodashim, depois de Zevachim, Menachot, Chulin, Bechorot e Arachin. O tratado prossegue, em seus próximos capítulos, com as consequências práticas da troca: o destino do animal trocado e da própria troca (Perek Bet), os detalhes de quais consagrados geram ou não temurá (Perek Guimel), a distinção entre bekhorot e maasserot (Perek Dalet), as diferenças entre a santidade do corpo e a santidade do valor (Perek Hei), os animais proibidos ao altar por sua origem (Perek Vav), e as leis finais sobre o que se faz com animais que se tornaram proibidos (Perek Zayin).