Há mais rigor nos consagrados do que na troca, e há mais rigor na troca do que nos consagrados. Que os consagrados geram troca, e a troca não gera troca. A comunidade e os sócios consagram, mas não trocam. E consagram membros e fetos, mas não trocam. Há mais rigor na troca: que a santidade recai sobre a que tem defeito permanente, e ela não sai para o profano para ser tosquiada e trabalhada. Rabi Yossi bar Rabi Yehuda diz: fez o inadvertido como o deliberado na troca, e não fez o inadvertido como o deliberado nos consagrados. Rabi Elazar diz: o híbrido, e a treifá, e a que saiu por cesariana, o tumtum, e o andrógino — não são santificados nem santificam.
— Encerrando o Perek Bet, a mishná resume, em espelho, os pontos em que os consagrados (kodashim) são mais rigorosos que a troca (temurá), e os pontos em que a troca é mais rigorosa que os consagrados. A favor dos consagrados: um animal já consagrado pode gerar uma troca se for trocado por um animal profano, mas a própria troca — já santificada — não pode gerar uma segunda troca; a comunidade e os sócios podem consagrar um animal juntos, mas não podem realizar uma troca em conjunto, pois a proibição da troca está formulada no singular; e é possível consagrar apenas um membro de um animal, ou um feto ainda no ventre, mas não é possível trocá-los, pois a Torá fala em “behemá” completa. A favor da troca, um ponto de maior rigor: quando alguém troca um animal profano com defeito permanente por um animal consagrado sem defeito, a santidade plena recai sobre o animal defeituoso substituto, a ponto de que, mesmo depois de resgatado, ele não pode voltar a ser tosquiado ou usado para trabalho — diferente de um animal já consagrado com defeito desde o início, que, ao ser resgatado, sai inteiramente para o uso comum. Rabi Yossi bar Rabi Yehuda acrescenta outro ponto de maior rigor da troca: quem troca por engano (pensando dizer um animal e dizendo outro) ainda assim efetiva a troca, como se tivesse agido deliberadamente, algo que não ocorre na consagração por engano, que é inválida. Por fim, Rabi Elazar lista cinco categorias de animal — nascido de cruzamento entre espécies diferentes, com lesão fatal, nascido por cesariana, de sexo indefinido, ou hermafrodita — que ficam inteiramente fora do sistema: não podem ser consagradas do zero, e, mesmo que já estivessem consagradas antes de adquirir esse status (como um animal que se tornou treifá depois de já consagrado), não têm o poder de gerar troca.
Rambam remete ao terceiro capítulo, onde já explicou que a expressão “será santidade” (יהיה קדש) na passagem da troca serve para incluir o inadvertido como o deliberado, o que não ocorre na consagração comum, onde só a intenção plena santifica. Sobre Rabi Elazar, esclarece que “não consagram” significa que, quem tenta trocar um animal profano por um desses cinco tipos já consagrados, a troca não se efetiva — e dá exemplos de como um animal pode se tornar uma dessas cinco categorias mesmo depois de já consagrado: um animal consagrado que depois se tornou treifá, um feto consagrado que nasceu por cesariana, ou uma cria de consagrados que nasceu híbrida, tumtum ou andrógino. Explica por que essas cinco categorias não recebem o rigor especial do animal com defeito permanente: elas são comparadas a um animal impuro, totalmente inapto para o altar, diferente do animal com defeito comum, cuja espécie ainda é apta ao altar. A halachá segue Rabi Yossi e Rabi Elazar, sem discordância nesta passagem.
Bartenura explica cada cláusula: a troca não gera troca porque a Torá diz “a sua troca”, e não “a troca da sua troca”; membros e fetos não se trocam porque o versículo fala em “animal por animal” inteiro. Detalha o rigor da troca sobre o defeito permanente: um animal comum com defeito, trocado por um consagrado sem defeito, ganha uma santidade tão forte que, mesmo resgatado, permanece proibido para tosquia e trabalho — como um consagrado que já nasceu com defeito, que ao ser resgatado só ganha permissão de ser comido, nunca de gizah e avodá; já um consagrado cujo defeito veio depois da consagração sai inteiramente ao profano pelo resgate. Explica o caso do inadvertido de Rabi Yossi bar Rabi Yehuda com um exemplo vívido: quem pretendia trocar por um touro preto mas disse por engano “touro branco”, mesmo assim a troca se efetiva e ele recebe açoites, pois o versículo diz explicitamente “será santidade” para incluir o inadvertido; já na consagração comum, uma consagração por engano não vale. Por fim, detalha como um treifá pode estar consagrado (se ficou treifá depois de já consagrado), enquanto híbrido, tumtum e andrógino só podem estar consagrados como crias de mães já consagradas antes da gestação — e, mesmo assim, segundo Rabi Yehuda, que sustenta que a cria de consagrados gera troca em geral, essas cinco categorias específicas não geram, por serem comparadas a um animal impuro, sem espécie apta ao altar. Conclui que a halachá segue Rabi Yossi bar Rabi Yehuda e Rabi Elazar, sem discordância.
Rashi identifica que a base para a exclusão de membros e fetos é a mesma derashá de Rabi Yehuda — “behemá por behemá” — já vista no primeiro perek. Explica com riqueza de detalhe o rigor do defeito permanente na troca: diferente de um animal já consagrado cujo defeito surgiu depois (que, resgatado, permite tosquia e trabalho), o animal com defeito trazido para uma troca recebe uma santidade completa desde o início, sem distinção entre perfeito e defeituoso, exatamente como o versículo formula “bom por mau ou mau por bom”. Ilustra o caso do inadvertido com o exemplo do boi preto e do boi branco: mesmo tendo a intenção de outro animal, a palavra que efetivamente saiu da boca gera a troca e a punição de açoites, porque o texto bíblico amplia deliberadamente para incluir o inadvertido — o que não ocorre na consagração comum, invalidada quando fruto de engano. E fecha esclarecendo como as cinco categorias de Rabi Elazar podem, ainda assim, estar consagradas: um animal tornado treifá depois de já consagrado, ou uma cria híbrida, tumtum ou andrógino nascida de mãe já consagrada antes da gestação — casos em que, apesar da santidade existente, a geração de troca continua vedada.
Com esta mishná, encerra-se o Perek Bet de Massechet Temurá — três mishnayot dedicadas às diferenças entre categorias de oferenda diante da lei da troca: as quatro diferenças entre ofertas de indivíduo e ofertas da comunidade (mishná 1), o debate sobre a chatat de indivíduo e de comunidade cujo dono já se expiou por outra (mishná 2), e o rigor recíproco entre os consagrados em geral e a troca em particular, encerrando com as cinco categorias que Rabi Elazar exclui inteiramente do sistema (mishná 3). Por possuir Guemará no Talmud Bavli, as três mishnayot deste perek se distribuem por Temurá 14a–17a, e cada uma reuniu, além do Rambam (Perush HaMishná) e do Bartenura, o comentário de Rashi sobre a respectiva sugya.
O tratado prossegue, em seus próximos capítulos, com os detalhes de quais consagrados geram ou não temurá (Perek Guimel), a distinção entre bekhorot e maasserot (Perek Dalet), as diferenças entre a santidade do corpo e a santidade do valor (Perek Hei), os animais proibidos ao altar por sua origem (Perek Vav), e as leis finais sobre o que se faz com animais que se tornaram proibidos (Perek Zayin).