Seder Kodashim · Massechet Temurá · Perek Vav · Mishná 5 de 5

As crias de todos os proibidos são permitidas

כָּל הָאֲסוּרִים עַל גַּבֵּי הַמִּזְבֵּחַ, וַלְדוֹתֵיהֶן מֻתָּרִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Fecho do Perek Vav: a cria de todo animal proibido ao altar é permitida; a disputa sobre a cria da tereifá; a opinião de Rabi Chanina ben Antignos sobre o animal que mamou de uma tereifá; e a proibição de resgatar consagrados que se tornaram tereifá para dá-los aos cães

Todos os que são proibidos junto ao altar — suas crias são permitidas. A cria de tereifá: Rabi Eliezer diz, não se ofereça junto ao altar; e os Sábios dizem, que se ofereça. Rabi Chanina ben Antignos diz: uma cashera que mamou de uma tereifá é desqualificada junto ao altar. Todos os consagrados que se tornaram tereifá — não se resgatam, pois não se resgatam os consagrados para dá-los de comer aos cães.

— Esta última mishná do Perek Vav estabelece o princípio geral que encerra o capítulo: embora as nove categorias enumeradas na abertura do perek tornem o próprio animal inteiramente proibido ao altar, a cria desse animal — nascida depois, com identidade própria — é permitida, pois a proibição não se transmite por herança biológica, mas recai apenas sobre o animal que efetivamente participou do ato que gerou a desqualificação. A única exceção discutida é a cria da tereifá, o animal com ferida fatal: Rabi Eliezer sustenta que essa cria específica não deve ser oferecida ao altar, pois considera que, de algum modo, o vício da mãe se estende ao feto que ela carrega; os Sábios discordam e permitem plenamente sua oferenda, tratando-a como qualquer outra cria de animal proibido. Rabi Chanina ben Antignos acrescenta um caso à parte: um animal perfeitamente apto (cashera) que, ainda filhote, mamou do leite de uma tereifá, fica temporariamente desqualificado para o altar — pois seu próprio corpo, naquele período, foi nutrido e sustentado pela substância de um animal proibido. A mishná fecha com uma lei distinta, mas relacionada: quando um animal já consagrado ao altar se torna tereifá, não é permitido resgatá-lo — isto é, transferir sua santidade para dinheiro e liberá-lo para uso comum — pois, sendo proibida sua carne para consumo humano mesmo depois da eventual matança ritual, o único destino de um animal resgatado seria alimentar cães ou outros animais, e a Torá não permite que se resgate um consagrado apenas para rebaixá-lo a esse fim degradante.

כָּל הָאֲסוּרִים עַל גַּבֵּי הַמִּזְבֵּחַ, וַלְדוֹתֵיהֶן מֻתָּרִים. וְלַד טְרֵפָה, רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, לֹא יִקְרַב עַל גַּבֵּי הַמִּזְבֵּחַ. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, יִקְרָב. רַבִּי חֲנִינָא בֶן אַנְטִיגְנוֹס אוֹמֵר, כְּשֵׁרָה שֶׁיָּנְקָה מִן הַטְּרֵפָה, פְּסוּלָה מֵעַל גַּבֵּי הַמִּזְבֵּחַ. כָּל הַקֳּדָשִׁים שֶׁנַּעֲשׂוּ טְרֵפָה, אֵין פּוֹדִים אוֹתָם, שֶׁאֵין פּוֹדִים אֶת הַקֳּדָשִׁים לְהַאֲכִילָן לִכְלָבִים:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Temurá 6:5
כָּל הָאֲסוּרִין עַל גַּבֵּי הַמִּזְבֵּחַ וְלַדוֹתֵיהֶן מֻתָּרִים כו': כְּשֶׁנִּרְבְּעָה בְּהֵמָה וְהִיא חֻלִּין וְאַחַר כָּךְ יָלְדָה וְהִיא חֻלִּין, אוֹ הִקְדִּישָׁהּ אַחַר שֶׁנִּרְבְּעָה וְיָלְדָה, וְלָדָהּ מֻתָּר לְגַבֵּי מִזְבֵּחַ. אֲבָל אִם נִרְבְּעָה וְהִיא מְעֻבֶּרֶת, וְלָדָהּ אָסוּר לְגַבֵּי הַמִּזְבֵּחַ, אַף עַל פִּי שֶׁהִיא חֻלִּין, וְהוּא שֶׁאָמְרוּ וְלַד נִרְבַּעַת אָסוּר. וְזֶהוּ שֶׁאָמְרוּ, אִם הַבְּהֵמָה הַזֹּאת טְרֵפָה וְאַחַר שֶׁנִּטְרְפָה נִתְעַבְּרָה, רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, סִבַּת תּוֹלֶדֶת הַוָּלָד הַזֶּה הִיא הָאֵם שֶׁהִיא טְרֵפָה וְאָב שֶׁהוּא כָּשֵׁר לְגַבֵּי הַמִּזְבֵּחַ, וְזֶה וָזֶה גּוֹרֵם אָסוּר:

Rambam explica que, quando um animal comum copulou sendo comum, e depois teve cria também sendo comum, ou foi consagrado depois de ter copulado e então teve cria, a cria é permitida junto ao altar; mas, se copulou já grávida, a cria fica proibida junto ao altar, mesmo sendo o animal comum, pois disseram que a cria da nirva é proibida. E é isso que disseram: se este animal é tereifá e, depois de se tornar tereifá, engravidou, Rabi Eliezer diz que a causa da geração dessa cria é tanto a mãe, que é tereifá, quanto o pai, que é apto ao altar, e, quando este e aquele causam, o resultado é proibido.

Bartenura · Temurá 6:5
וְלַד טְרֵפָה. לֹא יִקְרַב. אֲבָל לְהֶדְיוֹט דִּבְרֵי הַכֹּל שָׁרֵי, דְּלָאו מִגּוּפָהּ קָא רַבִּי: כְּשֵׁרָה שֶׁיָּנְקָה מִן הַטְּרֵפָה פְּסוּלָה. כָּל אוֹתוֹ הַיּוֹם שֶׁיָּנְקָה מֵעֵת לְעֵת, הִיא פְּסוּלָה לְהַקְרָבָה, הוֹאִיל וִיכוֹלָה לַעֲמֹד עַל אוֹתוֹ חָלָב בְּלֹא אֲכִילָה אַחֶרֶת, וְאֵינוֹ מִתְאַכֵּל מִמֵּעֶיהָ עַד שֶׁיִּשְׁלַם מֵעֵת לְעֵת. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי חֲנִינָא בֶּן אַנְטִיגְנוֹס: שֶׁאֵין פּוֹדִים אֶת הַקֳּדָשִׁים לְהַאֲכִילָן לִכְלָבִים. דְּבִפְסוּלֵי הַמֻּקְדָּשִׁין שֶׁנִּפְדּוּ כְּתִיב תִּזְבַּח וְאָכַלְתָּ בָּשָׂר, וְדָרְשִׁינַן תִּזְבַּח וְלֹא גִּזָּה, וְאָכַלְתָּ וְלֹא לִכְלָבֶיךָ, בָּשָׂר וְלֹא חָלָב:

Bartenura explica que a cria da tereifá não deve ser oferecida ao altar segundo Rabi Eliezer, mas para uso comum todos concordam que é permitida, pois não é dela mesma que se multiplica a proibição. Sobre “cashera que mamou da tereifá é desqualificada”: durante todo aquele dia em que mamou, de um período de vinte e quatro horas ao outro, ela fica desqualificada para a oferenda, pois pode se sustentar apenas daquele leite sem outra alimentação, e ele não se digere completamente em suas entranhas até que se complete o ciclo de vinte e quatro horas; e a lei não segue a opinião de Rabi Chanina ben Antignos. Sobre “não se resgatam os consagrados para dá-los de comer aos cães”: pois, sobre os consagrados desqualificados que foram resgatados, está escrito “abaterás e comerás carne”, e interpretamos: “abaterás” e não a lã tosquiada, “comerás” e não para teus cães, “carne” e não o leite.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Temurá 30b–31a, sobre a Guemará desta mishná
ולד טריפה לא יקרב — אֲבָל לְהֶדְיוֹט דִּבְרֵי הַכֹּל מֻתָּר, דְּלָאו מִגּוּפָהּ קָא רַבִּי: זה וזה גורם — וְלֵיכָּא לְפַלּוּגֵי בְּ“עֻבָּר יֶרֶךְ אִמּוֹ הוּא” אֶלָּא אִם כֵּן עִבְּרָה וְאַחַר כָּךְ נִטְרְפָה, דְּהָתָם לְמַאן דְּאָמַר “יֶרֶךְ אִמּוֹ הוּא” אֵרַע הַטְּרֵפוּת בְּגוּפוֹ; אֲבָל הֵיכָא דְּנִטְרְפָה וּלְבַסּוֹף עִבְּרָה, לֵיכָּא לְמֵימַר “יֶרֶךְ אִמּוֹ הוּא”, שֶׁהֲרֵי יֵשׁ בּוֹ צַד הֶתֵּר, אֶלָּא בְּ“זֶה וָזֶה גּוֹרֵם” פְּלִיגֵי: חלב רותח שחרית — כָּל יָמָיו: הואיל ויכולה לעמוד — עַל אוֹתוֹ חָלָב שֶׁל שַׁחֲרִית מֵעֵת לְעֵת בְּלֹא שׁוּם אֲכִילָה אַחֶרֶת, וּכְשֶׁהִגִּיעַ מֵעֵת לְעֵת חָזְרָה וְיָנְקָה, הִלְכָּךְ כָּל גְּדִילָתָהּ מִמֶּנָּה הִיא, וַאֲפִלּוּ אָכְלָה דְּבָרִים אֲחֵרִים בֵּינְתַיִם:

Rashi explica que, sobre “a cria da tereifá não se ofereça”, para uso comum todos concordam que é permitida, pois a proibição não se multiplica a partir dela mesma. Sobre “este e aquele causam”: só é possível discutir se o feto é considerado “a coxa de sua mãe” quando o animal engravidou e depois se tornou tereifá — pois, nesse caso, segundo quem sustenta que é “a coxa de sua mãe”, a condição de tereifá ocorreu no próprio corpo do feto; mas quando o animal já era tereifá e depois engravidou, não se pode dizer que o feto é “a coxa de sua mãe”, pois nele há também um aspecto de permissão, e por isso a disputa se dá, nesse caso, sobre se “este e aquele causam” torna o resultado proibido ou permitido. Sobre “leite fervente pela manhã”: refere-se a todos os dias de sua vida. E sobre “pois ela pode se sustentar”: com aquele leite da manhã, durante um período de vinte e quatro horas, sem nenhuma outra alimentação, e, ao completar as vinte e quatro horas, voltava a mamar — por isso, todo o seu crescimento provém dele, mesmo que tenha comido outras coisas nesse meio-tempo.

סוֹף פֶּרֶק שִׁשִּׁי דְּמַסֶּכֶת תְּמוּרָה

Com esta mishná, encerra-se o Perek Vav de Massechet Temurá — cinco mishnayot dedicadas às categorias de animais inteiramente desqualificados para o altar. A abertura enumera as nove categorias — o rove'a, o nirva, o mukdê, o ne'evad, o etnan, o mechir, o kilayim, a tereifá e o nascido por cesariana — que, misturadas a animais aptos, proíbem toda a mistura em qualquer quantidade, e distingue o mukdê, cujos adornos permanecem permitidos, do ne'evad, cujos adornos ficam igualmente proibidos (6:1). A segunda define com precisão o etnan, o pagamento à prostituta, e traz a disputa entre Rabi e os Sábios sobre o caso da escrava entregue em troca de um cordeiro (6:2). A terceira define o mechir kelev pelo caso dos sócios que dividem rebanho e cão, e expõe a leitura precisa de Devarim 23:19 — “dois, e não quatro” — que restringe a proibição ao etnan de prostituta e ao mechir de cão, liberando as combinações inversas e as crias de ambos (6:3). A quarta traça os limites exatos da proibição — dinheiro permitido, produtos do altar proibidos, consagrados permitidos, e aves proibidas por força do próprio versículo, contra o que indicaria o raciocínio a fortiori (6:4). E esta última mishná fecha o capítulo com o princípio de que as crias dos animais proibidos são permitidas, a exceção discutida da cria da tereifá, o caso do animal que mamou de uma tereifá, e a proibição de resgatar consagrados que se tornaram tereifá para alimentar cães (6:5). Por possuir Guemará no Talmud Bavli, as cinco mishnayot deste perek se distribuem por Temurá 28a–31a, e cada uma reuniu, além do Rambam (Perush HaMishná) e do Bartenura, o comentário de Rashi sobre a respectiva sugya.

O tratado prossegue, em seu último capítulo (Perek Zayin), com as diferenças entre os consagrados do altar e os consagrados de bedek habáit, e as leis finais de Massechet Temurá.