Seder Kodashim · Massechet Temurá · Perek Zayin · Mishná 3 de 6

Leis comuns aos dois tipos de consagrados

אֶחָד קָדְשֵׁי מִזְבֵּחַ וְאֶחָד קָדְשֵׁי בֶדֶק הַבַּיִת, אֵין מְשַׁנִּין אוֹתָן מִקְּדֻשָּׁה לִקְדֻשָּׁה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Leis comuns aos dois tipos de consagrados: a proibição de mudar de uma santidade para outra; o hekdesh iluy e o cherem; e a disputa entre os Sábios e Rabi Shimon sobre o consagrado de bedek habáit que morreu

Tanto os consagrados do altar quanto os consagrados de bedek habáit — não se mudam eles de uma santidade para outra santidade; e consagram-se eles como hekdesh iluy, e fazem-se eles cherem. E se morreram, sejam sepultados. Rabi Shimon diz: os consagrados de bedek habáit, se morreram, sejam resgatados.

— Depois de comparar as diferenças entre os dois tipos de consagração nas duas mishnayot anteriores, esta mishná volta-se para as leis que se aplicam igualmente a ambos. Primeiro, é proibido mudar a designação de um consagrado de uma santidade para outra: não se transforma uma oferta de paz em holocausto, nem um holocausto em oferta de paz, e do mesmo modo o consagrado para a manutenção do santuário interior não se transfere para a manutenção do altar, e vice-versa. Segundo, é possível consagrar animais já consagrados ao altar por meio de um hekdesh iluy (“consagração de valorização”): quem diz sobre um holocausto já separado “que este seja também para bedek habáit” eleva seu valor monetário — ou a parcela de benefício que lhe cabia — para a manutenção do Templo, sem alterar a santidade do próprio animal. Terceiro, é possível fazer cherem (voto de consagração absoluta) sobre eles, cujo valor reverte ao sacerdote. Por fim, a mishná trata do caso trágico em que um consagrado morre antes de ser resgatado: a opinião dos Sábios (o tana kama) é que, tendo morrido, deve ser sepultado, pois sem a possibilidade de ser apresentado e avaliado perante o sacerdote — procedimento exigido pela Torá para o resgate — não há como redimi-lo; mas Rabi Shimon discorda quanto aos consagrados de bedek habáit, sustentando que estes, por não terem sido incluídos no versículo que exige essa apresentação e avaliação, podem ser resgatados mesmo depois de mortos.

אֶחָד קָדְשֵׁי מִזְבֵּחַ וְאֶחָד קָדְשֵׁי בֶדֶק הַבַּיִת, אֵין מְשַׁנִּין אוֹתָן מִקְּדֻשָּׁה לִקְדֻשָּׁה, וּמַקְדִּישִׁין אוֹתָן הֶקְדֵּשׁ עִלּוּי, וּמַחֲרִימִין אוֹתָן. וְאִם מֵתוּ, יִקָּבְרוּ. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, קָדְשֵׁי בֶדֶק הַבַּיִת, אִם מֵתוּ, יִפָּדוּ:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Temurá 7:3
אֶחָד קָדְשֵׁי מִזְבֵּחַ וְאֶחָד קָדְשֵׁי בֶדֶק הַבַּיִת אֵין מְשַׁנִּין כוּ': “אֵין מְשַׁנִּים אוֹתוֹ מִקְּדֻשָּׁה לִקְדֻשָּׁה” רְצוֹנִי לוֹמַר אֵין עוֹשִׂין הַשְּׁלָמִים עוֹלָה וְלֹא הָעוֹלָה שְׁלָמִים, וְכֵן הַדּוֹמֶה לָזֶה. וְאִם הִקְדִּישׁ שׁוּם דָּבָר לְבֶדֶק הַהֵיכָל, אֵין מְשַׁנִּין אוֹתוֹ לְבֶדֶק הַמִּזְבֵּחַ. וּמַה שֶּׁאָמַר “וּמַקְדִּישִׁין אוֹתוֹ הֶקְדֵּשׁ עִלּוּי” שָׁב עַל קָדְשֵׁי מִזְבֵּחַ, וּכְבָר בֵּאַרְנוּ בִּשְׁמִינִי דַּעֲרָכִין שֶׁהֶקְדֵּשׁ בֶּדֶק הַבַּיִת נִקְרָא “הֶקְדֵּשׁ עִלּוּי”. וּמַחֲרִימִין אוֹתָם, רְצוֹנִי לוֹמַר חֶרְמֵי כֹהֲנִים, וְכָל שֶׁכֵּן חֶרְמֵי בֶּדֶק הַבַּיִת:

Rambam explica que “não mudam sua santidade para outra santidade” significa que não se transformam as ofertas de paz em holocausto, nem o holocausto em ofertas de paz, e assim tudo o que se assemelha a isso; e se alguém consagrou algo para a manutenção do santuário interior, não se muda isso para a manutenção do altar. E o que disse “consagram-se eles como hekdesh iluy” refere-se aos consagrados do altar — e já explicamos no oitavo capítulo de Arachin que a consagração de bedek habáit chama-se “hekdesh iluy”. E “fazem-se eles cherem” significa dizer o cherem dos sacerdotes, e tanto mais o cherem de bedek habáit.

Bartenura · Temurá 7:3
אֵין מְשַׁנִּין אוֹתָן מִקְּדֻשָּׁה לִקְדֻשָּׁה. קָדְשֵׁי מִזְבֵּחַ לֹא יַעֲשֶׂה שְׁלָמִים עוֹלָה, וְלֹא עוֹלָה שְׁלָמִים, וְכֵן הֶקְדֵּשׁ לְבֶדֶק הַהֵיכָל אֵין מְשַׁנִּין אוֹתוֹ לְבֶדֶק הַמִּזְבֵּחַ, וְכָל כַּיּוֹצֵא בָּזֶה: הֶקְדֵּשׁ עִלּוּי. כְּגוֹן אִם אָמַר עַל עוֹלָה הֲרֵי זוֹ לְבֶדֶק הַבַּיִת, מַעֲלִין אוֹתָהּ בְּדָמִים לְפִי מַה שֶּׁיֵּשׁ לוֹ בָּהּ וְנוֹתֵן לַגִּזְבָּר. וְהוּא הַדִּין נַמִּי אִם הִתְפִּיס לְבֶדֶק הַבַּיִת קָדְשֵׁי מִזְבֵּחַ: וּמַחֲרִימִין אוֹתָן. אִם הֶחֱרִים קָדְשֵׁי מִזְבֵּחַ, נוֹתֵן לַכֹּהֵן אֶת הָעִלּוּי. אֲבָל קָדְשֵׁי בֶּדֶק הַבַּיִת שֶׁהִתְפִּיסָן בֵּין לְקָדְשֵׁי מִזְבֵּחַ בֵּין לַחֲרָמֵי כֹהֲנִים, לֹא עָשָׂה וְלֹא כְלוּם, שֶׁאֵינָן שֶׁלּוֹ, וְאֵין אָדָם מַקְדִּישׁ דָּבָר שֶׁאֵינוֹ שֶׁלּוֹ: וְאִם מֵתוּ. קָדְשֵׁי מִזְבֵּחַ, אֲפִלּוּ לְאַחַר שֶׁהוּמְמוּ, אֲבָל עֲדַיִן לֹא נִפְדּוּ: יִקָּבְרוּ. וְאֵינוֹ יָכוֹל לִפְדּוֹתָן וּלְהַאֲכִילָן לִכְלָבִים, שֶׁאֵין אֶפְשָׁר לְקַיֵּם בָּהֶם “וְהֶעֱמִיד וְהֶעֱרִיךְ”: רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר קָדְשֵׁי בֶדֶק הַבַּיִת אִם מֵתוּ יִפָּדוּ. קָסָבַר רַבִּי שִׁמְעוֹן דְּלֹא נֶאֱמַר “וְהֶעֱמִיד וְהֶעֱרִיךְ” אֶלָּא בְּקָדְשֵׁי מִזְבֵּחַ וְלֹא בְּקָדְשֵׁי בֶּדֶק הַבַּיִת. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן:

Bartenura explica que “não mudam sua santidade para outra santidade”: os consagrados do altar não se transformam de ofertas de paz em holocausto, nem de holocausto em ofertas de paz, e do mesmo modo a consagração para a manutenção do santuário interior não se muda para a manutenção do altar, e tudo semelhante a isso. Sobre “hekdesh iluy”: como quando alguém diz sobre um holocausto “que este seja para bedek habáit”, avaliam-no em dinheiro conforme sua parcela nele e entrega ao tesoureiro; e a mesma lei se aplica se transferiu para bedek habáit consagrados do altar. Sobre “e fazem-se eles cherem”: se fez cherem dos consagrados do altar, dá ao sacerdote a valorização; mas os consagrados de bedek habáit que foram transferidos, seja para consagrados do altar, seja para cherem dos sacerdotes, não fez absolutamente nada, pois não são dele, e ninguém consagra algo que não é seu. Sobre “e se morreram”: os consagrados do altar, mesmo depois de terem adquirido defeito, mas ainda não resgatados. Sobre “sejam sepultados”: e não pode resgatá-los para alimentar cães, pois é impossível cumprir neles “e o apresentará e o avaliará”. Sobre “Rabi Shimon diz que os consagrados de bedek habáit, se morreram, sejam resgatados”: Rabi Shimon sustenta que não se disse “e o apresentará e o avaliará” senão sobre os consagrados do altar, e não sobre os consagrados de bedek habáit. E a lei não segue Rabi Shimon.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Temurá 32a–33a, sobre a Guemará desta mishná
מקדושה לקדושה — דְּקָדְשֵׁי בֶּדֶק הַבַּיִת שֶׁהִקְדִּישָׁם לַמִּזְבֵּחַ לֹא עָשָׂה כְלוּם, וּבְקָדְשֵׁי מִזְבֵּחַ אֵין מְשַׁנִּין מִקְּדֻשַּׁת עוֹלָה לִשְׁלָמִים וּמִשְּׁלָמִים לְעוֹלָה: הקדש עלוי — כְּגוֹן אִם אָמַר עַל עוֹלָה הֲרֵי זוֹ לְבֶדֶק הַבַּיִת, מַעֲלִין אוֹתָהּ בְּדָמִים לְפִי מַה שֶּׁיֵּשׁ לוֹ כֹּחַ בָּהּ וְנוֹתֵן לַגִּזְבָּר: גזברין — שֶׁאֵינָהּ קְרֵבָה עַד שֶׁיָּבוֹאוּ הַגִּזְבָּרִין לַעֲמֹד עַל גַּבָּהּ, כִּדְאָמְרִינַן בְּעָלְמָא: הֵיאַךְ קָרְבָּנוֹ שֶׁל אָדָם קָרֵב וְהוּא אֵינוֹ עוֹמֵד עַל גַּבָּיו: אם מתו — קָדְשֵׁי מִזְבֵּחַ, אֲפִלּוּ לְאַחַר שֶׁהוּמְמוּ אֲבָל עֲדַיִן לֹא נִפְדּוּ, יִקָּבְרוּ וְאֵינוֹ יָכוֹל לְפָדּוֹתָם וּלְהַאֲכִילָן לִכְלָבִים, וַאֲפִלּוּ לְמַאן דְּאָמַר פּוֹדִין אֶת הַקֳּדָשִׁים לְהַאֲכִילָן לִכְלָבִים, הָנֵי מִלֵּי בְּשֶׁנַּעֲשׂוּ טְרֵפָה דְּאִיכָּא הַעֲמָדָה וְהַעֲרָכָה, אֲבָל מֵתוּ לֹא, דְּבָעֵינַן הַעֲמָדָה וְהַעֲרָכָה: אחד קדשי מזבח כו' אם מתו יקברו — אַכֻּלְּהוּ קָאֵי, רַבִּי שִׁמְעוֹן וְרַבָּנָן תַּרְוַיְיהוּ יָלְפֵי טַעֲמַיְיהוּ מִקְּרָא:

Rashi explica que “de uma santidade para outra santidade” significa que os consagrados de bedek habáit que alguém consagrou para o altar não fez nada, e nos consagrados do altar não se muda da santidade de holocausto para ofertas de paz, nem de ofertas de paz para holocausto. Sobre “hekdesh iluy”: como quando alguém diz sobre um holocausto “que este seja para bedek habáit”, avaliam-no em dinheiro conforme o poder que ele tem sobre ele e entrega ao tesoureiro. Sobre “tesoureiros”: pois o animal não é oferecido até que os tesoureiros venham ficar de pé junto a ele, como dizemos em outro lugar: como pode a oferenda de uma pessoa ser oferecida sem que ele mesmo esteja presente junto dela? Sobre “se morreram”: os consagrados do altar, mesmo depois de terem adquirido defeito, mas ainda não resgatados, sejam sepultados, e não se pode resgatá-los para alimentar cães; e mesmo segundo quem sustenta que se resgatam os consagrados para alimentar cães, isso vale apenas quando se tornaram tereifá, quando ainda é possível a apresentação e a avaliação, mas quando morreram não, pois é necessária a apresentação e a avaliação. Sobre “tanto os consagrados do altar... se morreram, sejam sepultados”: refere-se a todos eles; Rabi Shimon e os Sábios, ambos derivam seu fundamento de um versículo.